Comilança para a patulée

O prefeito Gilberto Kassab não se deu por vencido com a baixaria da galinhada de Alex Atala. Para ele, foi apenas uma “queimada na largada”. Ele achou bacana e promissora essa iniciativa alimentar que reuniu 30 chefs na Virada Cultural e pensa em fazer uma “Virada Gastronômica” até o fim do ano.

Bem, eu não sei se é boa ideia. Gente em geral adapta comportamentos. É como o que acontecia no transporte público da cidade há uns anos: o povo respeitava o Metrô por ser “novo” e bem vigiado, e não fazia o mesmo com os trens, na época sucateadinhos. O mesmo com ônibus da periferia (sempre rabiscados) e linhas mais centrais, geralmente preservadas. Há uma espécie de cerimônia no vandalismo, que raras vezes é rompida.

E é por causa desses “raras vezes” que fico pensando como será essa tal Virada Gastronômica. Será na rua ou os chefs convidarão o rebotalho para dentro de seus restaurantes? Marcos Bassi, Atala, Erick Jacquin, todo mundo recebendo a canalha das ruas para usufruir de ambiente refinado, seus cristais finos e suas toalhas alvíssimas a preços convidativos? Não sei.

Bem. Temos anualmente o Restaurant Week, em que restaurantes variados mantêm preços mais populares, mas que não é, definitivamente, um evento popular. Satisfaz a classe média, o que já está de bom tamanho.

Temos também as grandes festas religiosas, como a de Nossa Senhora Achiropita e a de San Gennaro, muito concorridas e de cunho mais povarístico. Massa e molho de tomate no atacado.

E temos também o mimoso bolo do Bixiga, no dia 24 de janeiro, que homenageia a cidade em seu aniversário. Nos últimos tempos acabou aquela baixaria dos cortiços próximos de separar patacas de bolo com o braço e jogá-las para dentro de contêineres. Agora, com o fim do dubsídio de farinha e açúcar, o bolo é industrializado, daqueles Pullmann ou Renata. Cabô a porcariada: é fila e uma embalagem pra cada um. Mesmo assim, o pessoal come aquilo inteiro, como se fosse uma fatia plena de chantilly.

Quer dizer, alguma elaboração alimentar já não combina com povão.

Eu se fosse Kassab ia pedir conselhos do Walter Taverna… Assim a Virada Gastronômica economizava tempo e dinheiro. Pularíamos esse troço de crosta disso e daquilo, juliennes, carpaccios e reduções de molhos, e iríamos direto para as esfihas do Habibs.

  • Foto (G1): Walter Taverna, o senhor da experiência, nas escadarias do Bixiga. Passei lá ontem, como de hábito,  e pela enésima vez constatei que escadaria também é um item que o povão não sabe usar.
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21 Responses to Comilança para a patulée

  1. Luiz Schuwinski says:

    Ora, Atala deveria dar uma de Maria Antonieta e mandar distribuir brioches pro povaréu.
    Outra sugestão seria aquele mastodôntico sanduba de mortadela que é servido aí no Mercado Municipal com bastante sucesso, diga-se.
    Povão mesmo, Lets, revira os olhinhos quando cai de boca em toneladas de frango-a-passarinho regadas a vinho “Sangue de Boi” ‘ardido’!

  2. Fábio Mayer says:

    Aqui em Curitiba andaram fazendo algo assim. Os restaurantes combinaram uma semana em que cobram mais barato, a patuléia vai e experimenta… mas conhecendo o modo curitibano de ser, tenho quase certeza que deu galho, porque o silêncio, por aqui, geralmente significa fracasso, as pessoas curtem alardear que em Curitiba iniciativas bonitinhas assim dão certo…

  3. DAwran Numida says:

    Olha, se for virada gastronômica, que seja na rua, mesmo. Organizam com placas, marcações etc. e o pessoal que quiser vai na fila certa, paga, pega e come. Em parques de diversões é assim, quermesses são assim. Empurrões e derrubadas de galinhadas gourmet, lógico, vão ocorrer. Mas, se for de forma organizada, que seja. Acho que não deveria ser nos restaurantes, não. Pode fazer depois e já tem, festival de comida de boteco. Ai sim.
    Aliás, boa comida não precisa ser na apresentação. Pode ser na combinação, na qualidade, no tempero etc. Até um caldo de mocotó pode ser assim, sem aqueles pés de boi estragados. No restaurante seria aquele negócio de sommelier…ah, não dã, não.

    O bolo do Bixiga era uma vergonha. Terrível ver aquilo. Subdesenvolvimento puro.

    Leticia, acho que uma medida de subdesenvolvimento de um povo, um país, pode ser aquilatada, tomada, pelas suas escadarias e esquinas de ruas transversais a avenidas e ruas mais movimentadas: são transformadas em sanitários, literais.
    Assim o Brasil é um País paupérrimo. Além do que, destroem as lixeiras novas colocadas nas ruas e arrebentam com os poucos sanitários públicos que ainda funcionam.

  4. Leticia says:

    Schu, o sanduba de mortadela! Tinha me esquecido! Bem, esse podia participar perfeitamente dos delírios chaplianianos – não lembro qual filme, acho que Tempos Modernos – em que ele alucina com megacomidas.

    Né, Fábio, todo mundo tem de mostrar que está feliz aos berros, com muita energia galeraaaaaaa!

    Dawran, mas veja bem a sutileza: parques de diversão, quermesses, são tradicionais. Povo já vai sabendo como é. E coisas novas? É o “raras vezes” de que falei. Povo não sabe se conduzir por si próprio, segue padrões, mesmo que seja o padrão não-padrão. Tipo, o bolo do Bixiga era bagunça? Façamos bagunça. Se houver um pequeno sinal em ambientes mais finos, está dada a largada para a guerra de tortas na cara.

    Nem fale em santários. Ontem fiz o seguinte, conforme coisas que tinha a fazer: desci a Brigadeiro, rua dos Ingleses, escadaria, Conselheiro Ramalho. De lá parti para rua Martins Fontes, República, Arouche e, finalmente Gen. Olimpio da Silveira e Vitorino Carmilo (acho que andei umas duas horas!). No caminho final, mendigos e noias. Dá pena… da cidade. Não se pode andar na ilha central ob o Minhocão. Está proibido para os cidadãos comuns. Sou pelo tratamento não violento, mas de choque. SP atrai essas pessoas pelo que oferece. Quanto mais oferece, mais gente vem. Sou, sim, por dar banho, comida, enfiar o cara num ônibus de volta pra cidade de onde veio e adeus. Não é pessoal nem higienista. Higienistas são as cidades que não cuidam dos seus. Aí elas ficam limpinhas, bonitinhas porque não dão esmola, e a gente aqui que aguente o tranco. Não acho justo.

  5. Maria Edi says:

    “Higienistas são as cidades que não cuidam dos seus. Aí elas ficam limpinhas, bonitinhas porque não dão esmola, e a gente aqui que aguente o tranco.”
    Concordo em gênero, número e “degrau”.

    Muito legal Jiripoca da Serra ser uma cidade limpinha, com calçadas floridas, se seus “desvalidos” estão aqui em São paulo???

  6. Leticia says:

    Não é, Maria Edi? Além de tudo, é muito tosca certa visão de que mendigo é alguém que não tem nada. Muitas vezes tem, sim, mais do que muita gente. Saiu de casa por problemas familiares, ou então tem TARA de viver na rua, porque isso existe (lembro de um jornalista lá do Rio, que volta e meia tinha de buscar a mãe no Largo Sta. Rita de Cassia, porque, apesar de ter tudo, ela GOSTAVA de pedir esmolas). Essa zona cinzenta de vida na rua é enorme, não é simplesmente “falta de moradia”, não. E revi debaixo do Minhocão os serviços da Prefeitura: abrigos, centros disso e daquilo, bilhete de metrô grátis, e tal. Tudo ENTUPIDO de gente. Tudo o que Jiripoca da Serra não tem.

  7. Dawran Numida says:

    Leticia,
    Até as cidades da RMSP que, antes, eram praticamente dormitórios, já estão lotando também e enfrentando os mesmos problemas. Uma senhora conhecida contou que em Suzano, por exemplo, as coisas estão piorando a olhos vistos: ocupações, favelização, sujeira etc. Também em Capicuíba. O normal.
    Mas, ainda defendo que não seja feita a virada de rango do bão, nos restaurantes da moda, não. Que seja no Minhocão mesmo, mas, que organizem prevendo um pouco de zorra. Pode ser que se for exclusiva, seja melhor de organizar. Porque vai ter de pagar para comer, não é? Menos do que nos restaurantes, mas, com preço.
    A virada atual é tudo de graça, atrai muito mais gente. Ai, mesmo sem comer, onde é cobrado, as pessoas vão concentrar-se nas barracas e vira furdunço. Mais ou menos o que deve ter ocorrido.

  8. Fábio Mayer says:

    O problema todo é que o Brasil já não era um país muito educado, mas vem passando por um grave processo de deseducação.

    Que ocorre quando as pessoas não percebem mais quando uma coisa é certa ou errada. O cara joga lixo na rua e diz que é para ajudar o gari a ter emprego, toca som de madrugada em volume alto dizendo que está na rua e na rua pode tudo, briga no estádio de futebol supostamente para defender seu time, troca voto por cesta básica, ouve música que incentiva a matar policiais e diz que é legal e que o crime foi do autor da composição, não dele (vi essa no Datena ontem), dirige bêbado sabendo que o bafômetro não vai ajudar a puni-lo …

    Se tudo isso acontece e ninguém recebe sequer uma reprimenda de quem quer que seja, deixar a finesse de lado e agir feito animal atacando a comida é fichinha, as pessoas estão voltando à idade da pedra, todos os valores que uma sociedade deve pregar estão sendo conspurcados mesmo, mais um ou menos um não fará diferença, é assim que pensa o povão.

    E podem notar como esse processo é forte: se você comenta algo assim numa rodinha de pessoas, sempre terá alguém para dizer a frase clássica: “mas ele é pobre, não teve oportunidade na vida” como se pobreza fosse sinônimo de imbecilidade.

  9. Russo says:

    Oba! Não vou.

  10. Derek says:

    Esse governo está mais pra surreal!

  11. Derek says:

    Espero que nessa virada gastronomica (hummmmm, boa idéia comer uma bela margherita!) não haja vinho quimico como na virada cultural.
    Foi deprimente a beberagem!

  12. Leticia says:

    Exatamente, Dawran. Sabe por que essas cidades são visadas? Porque aida têm áreas largadas, onde você pode subir um barraco sem maiores amolações, e porque têm transporte barato para a capital, onde você pode ficar de segunda a sexta mendigando.

    Quanto à virada comilona => bagunça será feita pela classe média baixa sem acesso aos bons restaurantes, como foi o caso da barraquinha do Alex Atala.

    É, Fábio, eu odeio essa ideia de que pobre = deseducado. Não é esse o processo.

    Russo, nem eu!

    Derek, cê sabe que eu acho que o Kassab está no papel dele? São Paulo tem um X a resolver no turismo, que é a baixa ocupação de hoteis nos fins de semana. E Prefeitura e Estado já bolaram um monte de coisas pra atrair o turista para esses períodos. A Virada Cultural já deu certo, a esportiva tb., além de inúmeras outras iniciativas Precisa preencher o restante. Só que tem de organizar direito.

  13. Derek says:

    Meu fraco é o estômago, então essa virada gastronomica é o que há!
    “TÔ” dentro.

  14. Dawran Numida says:

    Pois, é. Planejando, dá para fazer. A Metrópole precisa de eventos.

    Esse vinho químico, é um veneno.Por mais que reprimam, orientem, confisquem, encontrem os “alambiques”, continuam a aparecer. Caso de subdesenvolvimento puro.

    Leticia, nas cidades limítrofes ainda têm esses locais, sim. Depois, surgem os “pinheirinhos” da vida, as ordens de desocupação e aquela coisa que todos sabem de cor e salteado.

  15. Leticia says:

    Ai, Derek, meu fraco não é o estômago, é o contrário: meu estômago anda fraco à beça. Duvide-o-dó que serão iguarias leves. Só de imaginar aquela borda de pizza recheada com catupiry só-deus-sabe… Fora o sanduíche de mortadela, tão grande que nem precisava fatiar.

    Putz, Dawran, vinho químico! O adolescente deve ter muito amor próprio pra ingerir um troço desses.

    E você citou o Pinheirinho, caso exemplar dessa ocupação periférica.

  16. Maria Edi says:

    Vinho químico??? Gente, parece aquelas bebidas loucas do tempo da Lei Seca no Estados Unidos, quando muita gente ficou louca de verdade! Eu, hein?? Se não tomo nem vinho tinto chileno, imagina essas coisas!!

  17. Leticia says:

    Eu não sou muito complicada para vinhos não, Maria Edi, mas sou complicadíssima com esse troço de enfiar qq. coisa goela abaixo na rua. Verdadeiro pavor até de pão de queijo em coisica instalada no metrô.

  18. Cássia says:

    Eu estive no Minhocão entre às 11h30 e 14h do domingo, durante a Virada, e foi muito bacana! Teve a confusão da galinhada de madrugada e só. Tinha bastante gente, mas todo mundo comendo tranquilamente, passeando, conversando… Além disso, fui muito bem-tratada em todas as barracas em que estive e não vi uma única briga ou desavença. Acho bacana a gente dar crédito para as pessoas e ver como as coisas funcionam de perto. Se tiver Virada Gastronômica eu serei uma das pessoas que fará questão de estar presente.

    Grande beijo.

  19. Leticia says:

    Que bom, Cassia! Veja que curioso, a imprensa só reportou o que houve de ruim. Lembra o começo da Virada Cultural há uns anos, quando houve aquele fuzuê com polícia na Sé? Na época, só ficamos sabendo disso.

    Eu torço para que a Virada Gastronômica emplaque, mas sempre sou pessimista com o gênero humano, ainda mais quando se juntam duas vertentes: comida X celebs. Mas, enfim…

  20. Derek says:

    Minhocão Boulevard!
    Sensacional.

  21. Leticia says:

    Derek, semana passada passei a pé algumas vezes por lá – embaixo, é claro. Outro lugar que merecia uma revitalização, ou higienização, chamem como quiser. Dá pena de ver.

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