O dia em que Elizabeth II esteve em Santo Amaro

- Naquele dia, havia um congestionamento na avenida Santo Amaro por causa da visita da rainha a um laboratório inglês cujo nome não me lembro.

- Quando foi, pai?

- Ah, lá pra 1970.

Daí lá fui eu buscar. São Google, e acervos de jornais e revistas. Aquela coisa pdf, a imagem lá, sem retoques, é tudo de bom, amiguinhá! A gente se perde em outras coisas, e acaba vendo um passado nu e cru, não aquele organizado via TCC de Humanas ou em livros fofos de história dos costumes (farei um post about).

A visita da Rainha Elizabeth II e do príncipe consorte ao Brasil aconteceu, na verdade, em novembro de 1968, num momento em que a Inglaterra queria cosquinhas comerciais com países do naipe do nosso. Um périplo latino-americano, que incluiu o Chile. E no Brasil, Recife, Salvador, Brasília, São Paulo e Rio.

O título do post é mais para efeito dramático. Nada de incomum aconteceu na visita real ao laboratório inglês Burroughs-Wellcome (hoje Glaxo-Wellcome, e ainda na avenida Santo Amaro), do qual Elizabeth II é acionista. Vale dizer que Santo Amaro naquela época era um rincão, ainda que habitado num perfil mais ou menos como é hoje – apenas com (muito) menor densidade demográfica.

 

Na imprensa da época, pouco sobre os pontos objetivos da visita. Com exceção da Feira da Indústria Britânica que aconteceria no ano seguinte no Ibirapuera, todas as coberturas se esmeraram num rosário detalhadíssimo de amenidades enfurecidas: os preparativos, os passos da segurança, as dificuldades de arrumar vestimenta para uma população de classe média alta inculta, sem modos e ávida por notabilidade e glamour.

Nos grandes meios de comunicação (únicos a abrir acervos digitais para os pobres pesquisadores de hoje) a perfumaria bajulativa imperou, em meio a uma agenda extenuante – há registros de que a Rainha, em dado momento num final de dia qualquer no Brasil, tirou os sapatos em público.

 

A visita real a São Paulo foi marcada na imprensa geral pela inauguração da nova sede do MASP, na avenida Paulista. Em seu discurso, logo após o pronunciamento - em inglês gaguejado – do prefeito Faria Lima, ela mencionou “San Palo”. Mas o “Chateaubriand”, S.M. pronunciou no melhor acento francês, arrancando exclamações de uma ouvinte classe A: Como é culta!

A festa no Palácio Bandeirantes, onde Elizabeth e Philip ficaram hospedados, era para 2 mil convidados. Apareceram 6 mil (sim, já fomos piores em segurança). Para tanto, o bas-fond do aluguel e empréstimo de casacas ferveu: muitos, às pressas, pediram vestimentas no Rio – com a promessa de devolução imediata, já que a visita seguiria para lá. Dentro do Palácio Bandeirantes, senhoras derretendo no calor de 35 graus descansavam nas cadeiras destinadas à rainha e ao príncipe: Não acho errado ter ocupado o trono [sic] da rainha. Ela é mãe, vai entender. No lugar do príncipe, me sinto com um pouco de sangue azul.

Só não se pode precisar se isso aconteceu antes ou depois do episódio em que a peruca de uma dama enroscou-se no broche de outra e caiu no chão, o que fez sua dona, bem a contragosto, se retirar da festa do século daquele ano.

Já o príncipe Philip, conhecido por seus chistes, se divertiu à larga. Antes do Palácio dos Bandeirantes, deu uma passadinha na residência do Cônsul Geral Harry Holmes, também no Morumbi, para uma coletiva de imprensa sobre a Feira Britânica. Chegou com quarenta minutos de atraso (a pontualidade britânica foi “o” estereótipo da imprensa local), e disse aos jornalistas, na elegante biblioteca do diplomata: Por favor, sentem-se. Quem quiser fumar pode, mas tomem cuidado para não deixar cair as cinzas no chão.

Em todo o trajeto na capital paulista ao longo de dois dias – Ipiranga, Terraço Itália, Morumbi, Santo Amaro, Masp, Congonhas, Jd. América (St. Paul School), foi constante a presença do povo em geral, notadamente de adultos e crianças britânicas, com quem a Rainha interagiu especialmente. Também ao longo do caminho, obras e mais obras, com detalhadas explicações de Faria Lima e padronizadas em placas com o desenho de uma pá cruzando-se com uma rosa – tudo no mote São Paulo, a cidade que se humaniza.

Em seguida à capital, a rainha e o príncipe embarcaram para Viracopos para visitar o Instituto Agronômico e a Fazenda Experimental Santa Elisa, e finalmente descansar e curtir os cavalos da Estância Eudóxia, em Campinas.

Apesar de os colunistas paulistanos terem classificado a recepção oficial como pesadelo (facilmente observável pela foto da multidão nas escadarias do Bandeirantes), a recepção paulista foi considerada pelo colunismo do Jornal do Brasil a de maior aplomb. Ou de menor vexame, melhor dizendo. A organização, a recepção, o cardápio, tudo aqui transcorreu em razoável previsibilidade e ordem (para os padrões 1968, bem dito). A começar pelo governador Abreu Sodre e sua esposa Maria do Carmo, que bem acompanharam a rainha e o príncipe, sem o auxílio de tradutores.

A festa oferecida em Brasília, no Itamarati, foi um desastre maior. O próprio presidente Costa e Silva atrapalhou-se ao tentar emendar a data de nascimento de Elizabeth com o aniversário de Brasília. O brinde-remendo arrematou o climão: God… God… the Queen. O “save”, ele não sabia.

A primeira-dama, por sua vez, achou adequado comentar com o príncipe Philip que “ele era um pão”. Segundo a Veja, depois de vários esforços, o tradutor virou-se para dona Iolanda Costa e Silva e disse que o príncipe “não havia entendido”.

Na recepção do Brittania no Recife, o comandante do iate explicou ao regente da banda de fuzileiros navais que a execução prevista da música A ponte do rio Kwai “trazia fúnebres recordações de guerra a Sua Majestade”. Ok. Não foi tocada, pois. Mas ao desembarcar no aeroporto de Brasília…

A visita ao Brasil trouxe uma experiência fantástica na vida de Elizabeth II: pela primeira vez ela hospedou-se em um hotel. Modernidade? Não. Relaxamento mesmo. O convite para se hospedar no Palácio da Alvorada havia sido vago e extraoficial, o que, no mundo das entrelinhas, é entendido como recusa. Lá foi ela se encafofar no Hotel Nacional, ao custo de NCr$ 1.400,00 aos cofres públicos.

O Rio esmerou-se: os buracos no asfalto foram tapados e os postes foram pintados de… prateado; e os mendigos, sob ordem de Negrão de Lima, foram devidamente sumidos das ruas. Comovida com os milhares de favelados que desceram o morro para aplaudi-la em seu trajeto de carro, ela comentou com um jornalista britânico: Bela paisagem, bela paisagem.

  • Fotos (de cima para baixo): 1) A Rainha, ladeada pelo governador Abreu Sodré e o prefeito Faria Lima no Terraço Itália. Depois, claro, de tomar uma laranjada. 2) Um tipo de folheto informativo feito pela Prefeitura, largamente divulgado, talvez para que o povo formasse público nas passagens da monarca pelas ruas da cidade. 3) Bafão no Palácio dos Bandeirantes: todo mundo muito chic, mas muitos sem convite. 4) A Rainha, depois de depositar uma coroa de flores no túmulo de José Bonifácio de Andrada.

***

Há mais um bilhão de coisas a contar sobre a visita de Elizabeth II ao Brasil, mas é impossível fazê-lo em forma de posts.

Para quem tem esse tipo de curiosidade, recomendo consultar os acervos da Folha de S.Paulo, do Jornal do Brasil e da revista Veja, não só na data central de 6 de novembro de 1968, como também os dias anteriores e posteriores, já que sua visita durou dez dias. E quem quer se divertir mais um pouco, é bom não esquecer de dar um rolê no colunismo social desses mesmos dias.

***

Ah! Esqueci!

Mal a Rainha virou as costas de São Paulo, já havia caminhões estacionados em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Eram os donos dos móveis, emprestados para compor os aposentos reais, solicitando de volta o que era seu por direito.

Fizeram muito bem, porque, pelo visto, a segurança do palácio, ó…

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5 Responses to O dia em que Elizabeth II esteve em Santo Amaro

  1. Ricardo says:

    Ótimo, Lets! Preciso perguntar a tio Peter sobre esse evento.
    Bem possível que ele tenha ido buscar Elizabeth no aeroporto.

  2. Fábio Mayer says:

    Imagine se fosse hoje, com o “nouveau rich” do lulismo e a classe C achando que sofá das Casas Bahia é o mesmo que sangue azul…

  3. Leticia says:

    Óia, Ricardo! Vai ver que foi!!!!! E mais: foi conversando com ela sobre a verdadeira situação do país, anota aí.

    Fábio, na verdade as camadas de nouveaux riches vão se sucedendo. Quem hoje manga dos pobres fazendo churrasco com Dolly já teve seu momentinho de ascenção ansiosa via pais, avós…

    Mas o vexame mantém-se constante.

  4. Debora Coelho says:

    Ola, Leticia! O seu blog segue sendo o meu preferido. Moro na Inglaterra ja ha seis anos e, certa vez, quando fizeram um top 50 de todas as gafes do Principe Philip, uma delas me chamou a atencao – dizem que, certa vez (e nao sei se antes ou depois de 68), ele disse “the key problem facing Brazil is… Brazilians live there”. Nao sei em que situacao isso foi dito, e nem se ele disse isso assim, palavra por palavra, porque nao chequei. Mas todas as frases estavam fora de contexto, e eu particularmente acho que ele eh mal-interpretado na maioria das vezes.

  5. Leticia says:

    Oi, Debora,

    Não conheço a fundo a personalidade do príncipe, mas pude perceber, nessa pesquisa toda que fiz nos jornais da época, que ele foi pintado como debochado. Não sei se foi mal-interpretado, se a coisa foi ipsis-litteris ou se as traduções de suas falas foram “ajeitadas” por nós, a serviço da crítica.

    Tendo a crer que ele disse essas coisas mesmo. Porque são a nossa cara.

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