Artigo hoje no Estadão, de Quartim de Moraes, sobre os “best-sellers”. Trechos:
As listas de livros de ficção mais vendidos no Brasil revelam claramente que a indústria editorial brasileira, no segmento sintomaticamente denominado trade (livros de interesse geral comercializados no varejo), está totalmente atrelada à norte-americana. Muito especialmente na ficção, o livro que não passa, primeiro, pelos best-sellers do jornal The New York Times tem escassas possibilidades de entusiasmar as nossas casas publicadoras. [...]
[...] parece significar que o consumidor de livros no Brasil constitui uma elite intelectual que, como tal, tem um gosto apurado demais para o “produto nacional”. Daí a tendência natural de oferecer ao distinto público o “produto importado”. Muito chique. Mas alguém explique, por favor: a ficção que frequenta as listas do New York Times é, no geral, de feitio a agradar a alguém de “gosto apurado”?
Ninguém parece atentar para o fato de que conteúdos genuinamente brasileiros vendem, e muito bem, no mundo inteiro, quando se trata de teledramaturgia, porque as nossas emissoras de televisão há 50 anos investem pesado nas novelas e acabaram criando um padrão internacional de excelência.
[...] No mundo do livro, também se investe muito, em caríssimos títulos estrangeiros – grande parte, apenas lixo – que chegam comercialmente credenciados apenas por altos índices de vendas lá fora. (íntegra)
Fico na escola: como é que você desenvolve o gosto literário dos alunos se o próprio professor (na melhor das hipóteses) é fiel seguidor de Gabriel Chalita? Tome literatura de massa estrangeira mesmo!



Infelizmente, nem nos meios mais “esclarecidos” a coisa anda melhor. Sempre existirao aqueles poucos que tentam ficar fora da massaroca. Seja na hora de escolher uma comida, seja na hora de escolher um livro.
A velha necessidade de seguir alguém, mesmo que seja a lista do NYT.
Sempre precisamos do Messias, do paizinho, do pastor a nos guiar.
As livrarias aqui de Curitiba são pequenas. Não há nenhuma “mega-store” onde se possa encontrar todos os gêneros de literatura, sobram as lojas de shoppings.
Daí, ao entrar nelas, deparo com CENTENAS de títulos que invocam vampiros, com prateleiras anexas vendendo o jogo dos vampiros, o CD de música de vampiros, os DVD(s) de filmes sobre vampiros, os manuais de leitura para os livros de vampiros e até um estojo de beleza vampiresca, prometendo que o usuário fique tão sexy quanto qualquer vampiro de verdade! Escondidinho no canto da prateleira, um jogo de dentes postiços, para acertar o tamanho dos caninos e caprichar no visual…
Na oputra estante, AUTO AJUDA. É a estante da depressão: eu olho para aqueles títulos e penso que sou um inepto completo, um idiota diplomado, um zé mané porque sem ler aqueles tratados de humanidade, não consigo conquistar as mulheres que quero, não entendo que deveria amar mulheres poderosas, não percebi que mulheres são de vênus, não serei capaz de ensinar nada a meus eventuais filhos e não sei lidar com meu dinheiro, porque não sou otimista e não aprendi (como os livros ensinam) a olhar a vida apenas pelo lado belo…
Enfim, o público brasileiro não gosta de ler, ele gosta do que está na moda e ponto final. No dia que estiver na moda ler Machado de Assis, até as edições de livros supostamente psicografados dele farão sucesso estrondoso e Capitú vai virar celebridade fashion! Nossas livrarias são apenas lugares fashion onde comprar coisas fashion para mostrar para os amigos… não têm ligação alguma com literatura…
Moema, canso de ouvir comentários entusiasmados sobre certos livros. E tenho, confesso, um pouco de preconceito com esses best-sellers. Porque é tudo la même chose… Pessoas mais chegadas sabem: nem me venham com autoajuda, conspirações medievais ou romances metafísicos de qualquer espécie. Romances de nazismo, peregrinações epifânicas e uma nova maneira de ver a vida….
Fábio, rindo aqui… Pois já não existem livros psicografados de radialistas (que já se foram e, provavelmente, sem descendentes)?
Ricardo, fica chic. Se está na lista do NYT, é quarta capa na certa!
O último livro que estava na lista de mais vendidos que eu li foi “O Guia Politicamente Incorreto da Historia do Brasil”, do Narloch, revisado pela minha prima.
Gargalhei até não mais poder, allém de ficar muito p… da vida, porque me ensinaram tudo errado. No mais, não leio livros de vampiros e coisinhas de moda (tá, eu li o Harry Potter, mas em inglês!) E o Quartim de Moraes não é referência nem para jogo de ludo real.
Minha phylha, não sendo tungador de tradução alheia e pagando decentemente a revisores, pra mim tá órrtimo!
O livro do Narloch (muito bem revisado) eu presenteei pra algumas pessoas. Acabei pegando emprestado de uma delas, e adorei!
Eu não tenho paciência com coisas metafísicas, |Maria Edi. Crônicas de Nárnia, essas coisas. Pior que estou com um aqui pra trabalhar. Enfrento na semana que vem…
Pego metrô e trem para o trabalho todos os dias. É muito difícil ver alguém lendo; normalmente, os privilegiados que conseguem se sentar preferem passar as múltiplas horas de viagem olhando abestalhados para o teto ou pela janela (ou, quando notam que uma grávida entrou no trem, fingindo que estão dormindo). Quando vejo uma moça (nunca são homens) lendo alguma coisa já acho maravilhoso, mesmo quando o livro é um Dan Brown ou romance espírita…
Taí, Mauro, eu vejo muita gente lendo. Geralmente, livros de dois tipos: ou material de faculdade, ou romances espíritas. Acho isso profundamente preocupante. Não sou partidária do “o importante é ler”, não…
Acho que um dos nossos grandes problemas é que estamos muito mal servidos em matéria de literatura de entretenimento. Ainda bem que livros importados não pagam imposto: eu consigo comprar a minha droga preferida, romances de ficção científica (sim, podem rir à vontade) em paperback, por muito menos da metade do preço de qualquer livro nacional, mesmo com o custo de transporte e o markup da Livraria Cultura em cima. De alguns anos para cá só tenho lido livros assim (e, no trabalho, só uso português “técnico”; não é desculpa, mas explica o meu português sofrível!). É um ciclo vicioso, como você provavelmente sabe melhor que eu: em geral, o brasileiro não lê por prazer; assim, não há incentivo à impressão de livros em papel de menor qualidade, em maior tiragem, e com preço unitário menor; consequentemente, qualquer Dan Brown não sai por menos de R$ 40,00, valor alto para qualquer mercado do mundo; e o brasileiro lê cada vez menos.
Eu também acho que a qualidade do que é lido importa, mas mesmo um livro idiota de entretenimento pode despertar o interesse do leitor para outros assuntos. O único autor brasileiro que em vem à cabeça quando penso em entretenimento é o Rubem Fonseca; os romances dele são muito mais do que meros policiais (embora possam ser lidos assim). Fui informado que um livro do Dan Brown (que nunca li) fala do CERN, aceleradores de partícula, e anti-matéria. Quando vejo a Josicleine lendo o livro do cara no trem, a minha esperança é que, após ler o livro, ela compre a Revista Superinteressante para aprender mais sobre o hádrons, decida que veio ao mundo para desvendar os mistérios do universo, se matricule em um curso supletivo segundo grau de três meses, descubra que leva jeito para matemática, ganhe uma bolsa no Anglo Vestibulares, entre no curso de Física da USP (em terceiro lugar no vestibular), e, em 15 anos (quando já se mudou para a Suíça), ganhe o prêmio Nobel de Física por seu trabalho revolucionário na teoria-M heterótica das supercordas.
Quanto a romances espíritas, não sei se alguma coisa se salva.
Acho que ando pegando os ônibus e metrôs certos porque sempre vejo gente lendo coisa boa, muito mais que eu via há 10, 20, 30 anos.
Nada justifica os preços dos livros nacionais; as editoras e livrarias gozam de privilégios fiscais que nenhum outro setor tem.
Mauro, imagina que desprezo ficção científica! Jamé! Eu só disse que não tenho paciência… E seu português é muito bom.
Sabe o que acho? O problema do livro não é o preço. É o assunto. Se o assunto não estiver na moda, nem custando 5 paus. Mas vai ver o preço das vampiragens de agora… E Zíbia? Seus livros chegam a 40 paus, o que já é salgadinho.
Concordo com você e com o Refer sobre o preço dos livros. Embora haja lançamentos caros (cada vez mais por retrabalho em cima de serviço ruim), e também pela questão da qualidade, e tal, editores nacionais têm a cabeça láááá em 1970.
Eu também vejo pessoas lendo coisas bacanas por aí. Mas, estatisticamente…
Agora, o caso de Josicleine é ótimo. Deve haver aos montes, mas nada comparado aos romances espíritas. Levou um tempo que eu topava qualquer parada e cheguei a trabalhar neles. Revisá-los é assim: você vai lendo e anotando parentescos, relacionamentos, ações, tudo subdivisão das eras encarnatórias. À medida que vai chegando no final, as tramas se reencontram, e tudo tem de bater, pá-buf!
E dá-lhe coisa que não batia! Os espíritos, devido ao excesso de trabalho dos últimos anos, vivem num estresse só… Mas quem nota isso, sacolejando num trem?
Aqui em Rio Branco do Sul teve um jornalista que chegou até a elogiar por escrito um livro do Dan Brown… perguntado tempos depois, ele disse que não lembrava de nada do que tratava o livro .
Certo é que tem gente que acaba aprendendo alguma coisa… mas são exceções.
Por isso nunca curti fazer resenha de livro (sim, eu já trabalhei com isso). Ofício com ossos demais…