
Um aparelho de jantar imenso (e lindo de morrer) esteve na pauta familiar há uns dias. Minha tia o havia presenteado a minha avó em mil novecentos e bolinha. Falecidas as duas, o senso de adequação de minha mãe o “devolveu” a minha prima, que por sua vez, recentemente, ofereceu alguns de volta a minha mãe, para perdurar na parede, e tal.
Pratos mimosos, delicados. Uma mistura de vários fatores: há cinquenta, setenta anos, as pessoas comiam dignamente, havia menos variedade e menos oferta de comida – pelo menos no hábito disciplinado de quem tinha mais o que fazer.
Hoje os pratos são imensos, a comilança é generalizada, as maçarocas invadiram os supermercados e todo mundo ingere porcaria. O tempo inteiro.
A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, divulgada há alguns dias pelo IBGE, indica que 49% da população brasileira com 20 anos ou mais está acima do peso, e 14,8% atingem níveis mórbidos de gordura. Apesar de focos mais acentuados, como homens e mulheres adultos, a população do Sul e os mais ricos, o fenômeno comilório atinge qualquer faixa de renda, de qualquer idade, em qualquer lugar.
O que parece é que o brasileiro, que só tinha feijão com arroz, se lançou sofregamente nos porcaritos nos últimos trinta anos.
Não digo aqui que ninguém possa ter o direito de abusar de vez em quando de alguma coisa. O problema é a quantidade e a frequência – o hábito: essas donas de casa zelosas que não podem fazer um supermercado sem levar dezenas dessas embalagens farfalhantes para a família.
Nessas eu leio em O Globo que Michel Pollan, jornalista americano especializado em comida, tem seu último best-seller publicado no Brasil: Regras da comida: um manual da sabedoria alimentar (Editora Intrínseca – espero que a tradução e revisão estejam ok). Em suas orientações, algumas regras que julguei interessantes:
- Fuja de substâncias comestíveis com aparência de comida.
- Coma comida.
- Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida.
- Fuja do supermercado sempre que puder.
- Só coma alimentos que acabarão apodrecendo.
- Evite alimentos que você vê anunciados na televisão.
- Não é comida se chegou pela janela do seu carro.
- Não é comida se tem o mesmo nome em todas as línguas.
- Quanto mais branco o pão, mais depressa você vai para o caixão.
É. Mas tenho a impressão de que esse tipo de orientação está valendo para americanos, que já rolam pelas ruas faz séculos. Aqui, ainda estamos na fase da novidade. Ainda consumiremos muito “iogurte”, “requeijão”, nutella e papinha de bebê pronta antes de saturar disso tudo.
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Wilza Carla como Dona Redonda, explodindo de vez em Saramandaia. Hoje não se pode mais falar dessas coisas… Ao contrário, tem de adaptar o mundo para traseiros enormes.



Doutor Ênio, médico de família, respondeu delicada sinceramente à minha mãe quando ela se queixava de minha magreza:
- Olha aqui, minha filha, então passe no posto ali da esquina e manda calibrar até ele ficar rechonchudo, se é isso que interessa.
Como a cultura era outra, ela baixou as orelhas, pediu desculpas e nunca mais tocou no assunto.
Querida Letícia, concordo !
Fico feliz por vc ter notado a delicadeza das louças e por elas estarem enfeitando as paredes e as mesas da família.
Acho que a falta de observação no que se come pode ser desdobrado para o que se fala, para o que se cultiva, para o que se pensa, para a forma que tratamos as pessoas, etc.
Voltando a comida, uma coisa que me assusta é o tamanho das porções, como boa viciada em coca-cola, eu conhecia o copo de 500 ml como sendo o grande, hj é o médio, o grande tem 700 ml!!!
Abraços e beijos !
Estava com saudades, mas a correria não deixa eu dar nem uma passadinha para ler.
Bom, falando em comida, me assusta o “prato de pedreiro” que as pessoas comem, ico imaginando se elas não ficam cansadas de mastigar tudo aquilo.
Vou a mercado e olhos os carrinhos e NUNCA vejo comida, daí eu entendo o por que que minha conta é sempre a mais alta. Incrível, parece que comer um prato de salada, legumes, uma carne acompanhando um arroz e feijão já é “out”.
Beijocas “procê”, assim que der apareç de novo.
No Brasil, nos últimos anos, a questão da alimentação passou a ser um assunto mais médico que sócio-econômico. Os resultados da Pesquisa Nacional Sobre Saúde e Nutrição, realizada pelo Ministério da Saúde na década de 1990, apontavam para o aumento expressivo na prevalência da OBESIDADE, principalmente entre mulheres de baixa renda; a melhoria da renda dos brasileiros refletiu drasticamente na alimentação — as pessoas passaram a comer mais, porém, optando por alimentos mais calóricos e menos nutritivos.
O programa Fome Zero foi uma bravata eleitoreira e um fracasso porque o problema da alimentação do brasileiro há muito deixou de ser a falta de alimentos.
Ricardo, eis sua amiga aqui, um fruto direto desse negócio de bebê saudável (estourando de gordo). E pra reverter, me diz?
Flávia, que boa surpresa você aqui! As peças ainda não vieram pra cá. Aguardam portador motorizado… E a falta de delicadeza é geral meeeesmo! Nem bom dia as pessoas trocam mais…
Malu, onde você estava, criatura? Saudades!! Eu acho o contrário: se as pessoas comprassem comida de fato, economizariam. Quantos pés de rúcula cabem no preço de um baconzitos?
Refer, comida nunca foi problema sério aqui. Porque qualquer um pode plantar um pé de mandioca. E isso não é deboche, não. Era problema sério, de fato, na Europa, na Rússia, num tempo em que as pessoas dependiam nas estações. Se não se preparasse no verão, babau o inverno!
E você tem razão, não é problema socioeconômico. Eu sempre me perguntei porque existem aquelas familionas cuja mãe é enorme. Vá lá, ela só come porcaria. Mas e os filhos, magrinhos….?
Concordo com você: projetos contra a fome (mesmo antes do Fome Zero, pra falar a verdade) são delírios de classe média com culpa. Quando não, é conversa pra boi dormir.
Gosto de comer coisas boas, mas, de vez em quando, ataco um biguimaqui. Meu probleminha é o refri. adoro um refri. Mas gosto de um suquinho, também.
E também penso que esse negócio de Fome Zero é bobeira. O problema é que o pessoal quer, mesmo, é comer porcaria. E culpar o “mardito capitalismo” pela sua obesidade.
Confesso que ja’ tive uma alimentacao mais saudavel. Mas a maldita falta de tempo tem acabado com meu modo de ser. Vivo me penitenciando por isso. Mas, tenho orgulho de dizer que a minha proxima geracao e’ mais bem doutrinada. Nao gosta de refri, nem junk food em geral. Mas por necessidade tive que ensina-lo a comer pizza e em situacoes de emergencia um sorvete.
Bjs
Moema, é a tal coisa: quem não come um Mac de vez em quando? Apesar de eu ter ficado impressionada com isso:
http://www.flickr.com/photos/sallydavies/sets/72157624739645253/
O problema é o hábito diário. Eu já desisti de algumas maçarocas, mas confesso que é difícil viver em torno de uma alimentação saudável. Principalmente quando se trabalha fora.
Maria Edi, eu também gosto de refrigerante. Não como minha prima Flávia, mas de vez em quando…
Por outro lado, há horas em que nada substitui água. Água, água, água!
Ué! No país dos miseráveis que dependem de bolsa-familia descobriu-se que existe uma epidemia de… esquistosomose? vermes? malária? febre amarela?
Não! Existe uma epidemia de OBESIDADE!!!
Eu gosto de comer porcarias na rua de vez em quando… mas sejamos francos, dona Merdilene leva o filhinho para o centro da cidade e ele volta rebocado de sorvete, de salgadinho barato, de pastel e refrigerante… como é de pequeno que se torce o pepino (opa! pepino é saudável demais para isso) a criança acaba crescendo à custa de porcarias… ou seja, para os lados!
Fábio, pra mim é um mistério que pessoas humildes portem sempre um pacote de salgadinho desses. E sempre sobram uns isopores amarelos no piso das composições do metrô, já percebeu? Alguns inteiros e o resto todo pisado!