Embelezar praças? Que dia mesmo?

O Prefeito Gilberto Kassab procederá à intervenção em 225 praças e canteiros da cidade, em locais como Berrini, Pedroso de Moraes, Rebouças, Nove de Julho e Roberto Marinho, num total de onze. Em todas, de acordo com a necessidade, vai botar flores: agapanto, moreia-amarela, sálvia-vermelha, a íris-azul, o lírio-da-paz, a vedélia.

A Prefeitura considera o projeto uma extensão da Lei Cidade Limpa. O pacote inclui remoção de entulho, reforma de calçadas, troca de guias e sarjetas e rampas de acesso.

Marcelo Bruni, assessor técnico de obras e serviços da Secretaria das Subprefeituras, afirma que o projeto, como o Cidade Limpa, tem um efeito moral, de fazer o paulistano se sentir bem na cidade.

É, só que tem um problema aí: Essas intervenções ocorrerão na urbe. E o resto da cidade? “Jardinagem” é um item completamente dispensável para a maioria das pessoas, por uma questão de ignorância e grosseria no viver.

Como é que você enfia na cabeça das pessoas que jardins são importantes? Se pudesse, grande parte dos moradores da cidade invadiriam as praças e calçadas com puxadinhos sem reboco. Comer, dormir, ter um carro e ver tevê: é isso que importa.

Devido a oscilações de uma gestão para outra, ou mesmo de orçamento, esses canteiros e praças logo logo estarão como frequentemente estão: com árvores e calçamento destruídos e com o mato alto.

Some-se a isso o instinto de destruição do povo.

Ontem estive no Bixiga – aquela parte lá embaixo, que vai da rua João Passalaqua até a praça Pérola Byngton. A pessoa que estava comigo me explicou que os garis passam lá duas vezes por dia, recolhendo lixo e até mesmo entulho, e mesmo assim não dá conta: é uma sujeira sem-fim, móveis inteiros destroçados a cada 5 metros de calçada; sem contar os canteiros e vãos do viaduto, emporcalhadíssimos.  

No meio do caminho, a Prefeitura plantou uma fileira de árvores: estão lá elas, sem folhas, mas (ainda) resistindo bravamente às portas de guarda-roupas com que o povo lhes presenteia diariamente.

Isso porque aquela parte da cidade é meio pobre e necessitada, aquele glamour da fome de que os intelectuais tanto gostam. Se seus moradores tivessem alguma grana sobrando, tratariam de cimentar as raízes das árvores, como acontece pela cidade inteira. 

Vai demorar muito tempo até que toda a população da cidade faça como os (muitos e bravos) proprietários que fazem questão de manter canteiros caprichados ao longo de seus muros e grades. Por enquanto, grande parte da paisagem paulistana é uma amostra antropoide.

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10 Responses to Embelezar praças? Que dia mesmo?

  1. Fábio Mayer says:

    Enquanto não acabar o coitadismo, ou seja, a não punição de quem destroi praça pública, joga lixo em qulquer ligar e constroi do jeito que bem entende apenas por ser pobre, isso não se resolve.

    Mas eu prefiro insistir em colocar praças, grama e flores em todo lugar possivel… mesmo que os merdsons e merdileines não gostem e destruam. Um dia, quem sabe, a Lei chega à eles…

  2. Ricardo says:

    Qq dia vou te levar numa rua da Saúde, em que uma casa é repleta de plantas e placas: “Não roube as plantas, eu tive trabalho em plantar”.
    A casa é um brinco, o jardim e o canteira da calçada cuidadíssimos, mas o povo passa e arranca, por maldade.

  3. Da C.I.A. says:

    Até qeu eu acho São Paulo bonita nestes termos, de ter bastante áreas arborizadas. Mas é pelos caminhos que faço, não ando muito pela periferia ( a não ser naquela podridão que é a ligação RicardoJafet-Centro, acho que pela Av. dos Estados ).

  4. Leticia says:

    Fábio, o baixo Bixiga é um problema. Aquela imagem que se tem de Adoniran, cantinas e tal, é só na parte de cima. Embaixo, marcenarias, remanescentes de produtoras publicitárias e distribuidoras de livros convivem com o pior do pior. E vai daí que a Prefeitura não pode intervir em nada (por exemplo, tocar terror pro povo arrumar as calçadas) porque não pode mexer com os cromagnons.

    Ai, Ricardo, nem fala. Isso é tão bacana… Eu já estou no limite de encher esta casa de plantas (sabia que a bertalha está dando flor? Aliás, quem quiser sementes de bertalha, tamos aí!)

    Angelo, se você fizer uma comparação geral com outros municípios, São Paulo é bastante arborizada na área entre as marginais, e também em alguns núcleos mais distantes, daqueles mais planejados. Duplo esforço, ainda mais por causa do estereótipo anos 60 (que ainda persiste em rincões mentais) de cidade feia e poluída.

    Mas há áreas bem próximas que são horrorosas. Nessa região que você cita, a coisa é inóspita, por mais próxima que esteja da Saúde, mencionada pelo Ricardo. E alguns bairros (eu penso sempre na Freguesia, na Casa Verde) já são bem grandinhos, já deviam ter ultrapassado a etapa “temos mais no que pensar”.

    Agora, arborização como a do Alto de Pinheiros, Jardins, é quase um milagre de preservação.

  5. Dr P. says:

    è como eu digo, proibir e multar é muuuuito mais facil que construir e cuidar

  6. Leticia says:

    Sim, Dr. P., porque não dá pra construir e cuidar com uma população inteira pronta pra devastar tudo o que vê pela frente. Aqui perto de casa fizeram (a Prefeitura fez) um canteiro. Não deu nem uma semana um motoboy passou por cima, arrancando a grama como se fosse um rocambole. Euzinha, pelo menos, não estou disposta a pagar um ente pra ficar vigiando aquilo dia e noite. É melhor botar multa pesada mesmo – a única linguagem que o povaréu entende de imediato, sem ter de dar muita explicação.

  7. Fábio Mayer says:

    Multa e cadeia…

    No Brasil, muitos reclamas da “industria de multa”… mas são poucos os que se preocupam em perceber se seus atos estão errados. No fim do ano passado, os pardais (radares e velocidade) foram proibidos de lançar multa em Curitiba, por ordem judicial. Mas eles ficaram ligados.

    Na primeira noite, houve 10 vezes mais infrações que as que eram registradas até então.

    Então, constatou-se (inclusive a Justiça) que a cidade não podia ficar sem eles e que não há indústria de multa, há, sim, povo mal educado.

    E a mesma coisa vale para parques e praças. Se no dia em que um merdson da vida for pego destruindo gramados, árvores, plantas e depredando mobiliário urbano for preso e de alguma forma pagar pelo delito, as ocorrências vão diminuir…

    …o problema é como eu já disse: ser pobre no Brasil é salvo conduto para pequenos delitos.

  8. Fábio Mayer says:

    Ah sim!

    A prefeitura pode intervir sim… basta saber se quer!

    Porque SP tem Código de Posturas como qualquer cidade e o município tem poder de polícia. Tem que intimar os indivíduos a fazer calçada, limpar terrenos abertos, não jogar lixo na rua, cuidar das fachadas, preservar estacionamentos, etc… sob pena de multa.

    Uma blitz… leva trocentos fiscais e trocentos PM(s), multa meio mundo, fecha o que tem que fechar, apreende o que tem que apreender e voilà… em alguns dias a situação melhora substancialmente.

  9. Ricardo says:

    Por volta de 1870, se não me engano, a Câmara de S. Paulo lançou um novo código de posturas, que proibia as portas que se abriam diretamente pra rua (e não para dentro do imóvel).

    Isso porque o cidadão vinha pela calçada e subitamente levava uma portada na cara, sem mais aquela. Pois haja multa, brigas, o diabo pra implantar a tal lei, levou quase 10 anos.

    Semana passada a prefeitura daqui teve que entrar numa casa em que morava uma velhinha com 40 gatos e 30 anos sem botar lixo fora.
    Os vizinhos pegados aplaudiram; os outros, que não sentiam a fedentina, acharam “abuso de poder” e tome confusão. Cada um puxa brasa pra sua sardinha.

  10. Leticia says:

    Fábio, yes! Aliás, está nos meus planos fazer um libelo contra a buzina aqui. Farei um anexo sobre o excesso de velocidade….

    Ricardo, sabe que passei por um portão assim ontem? Na própria João Passalácqua. E com um avisinho no próprio portão: “Cuidado, essse portão abre para fora”. Ou seja, quem tem de tomar cuidado com ele é o pedestre, que só vai enxergar aquilo depois que levar um tóin na testa. O dono mesmo se dá o salvo-conduto de abrir aquilo com a violência e rapidez que quiser.

    Pena que estava sem a máquina…

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