Prometi outro dia falar mais de roupas em varais. E agora é a hora, já que estou me esforçando pra alienar do ambiente eleitorístico.
Não custa nada ensinar aos mais novos ou aos desatentos aquilo que a gente aprendeu na marra, não? O tema não é instigante e ameaçador, mas é nesses detalhes que a gente exibe todo o nosso aplomb, urbanidade, finesse e civilidade. Se não para os outros, para si mesmo.
Em um ambiente urbano como São Paulo (geralmente apertado, geralmente sem ventilação ou sol), a gente não pode pendurar roupa como se pudesse finalizar tudo com um pedaço de bambu elevando o varal no terreiro, não é mesmo? Praticidade e discrição são as palavras-chave.
Quanto maior o capricho em dispor as roupas no varal, menos trabalho posterior haverá, inclusive para as que serão passadas.
Primeiro, você tem de levar em conta o espaço onde mora. Se há uma área de serviço onde dá pra colocar um varal de teto, ótimo. Se não – se você tem de se virar no banheiro, por exemplo -, é melhor comprar um desses de parede. Há vários modelos, e muitos são escamoteáveis. Escolha o mais adequado para seu caso.

Eu tive um desses, e fui muito feliz com ele. Já rodou a família toda, e agora está com minha irmã (sem nunca ter soltado qualquer vareta!). É bonzinho até pra colocar lençol, desde que você dobre o bichinho direitinho, em quatro, longitudinalmente, pendurando-o como se estivesse pronto pra passar. Isso vale para os tradicionais e os de elástico. E para as fronhas também. Os tradicionais permitem que você ajeite até as bainhas, que saem todas amarfanhadas da máquina. Os de elástico…. bem, cada um com seus pobrema. Mas dá pra ajeitar da melhor forma possível também.
Aliás, todo tipo de roupa molhada deve ser disposta para secagem visando a hora do ferro ou não. Um porque passar roupa é um saco. Dois, que quase toda roupa hojindia não precisa de ferro. Três, que prendedores de roupa só são úteis em pouquíssimos casos.
Começe comprando, no 1,99, uma bela meia dúzia de cabides. Desses de plástico, mas sem saliências nos ombros. E prendedores. De madeira. Porque duram muito mais que os de plástico.
Nos cabides, a serem pendurados nas laterais pantográficas, você coloca tudo o que se presta a um cabide: casaquinhos, blusas, camisas sociais e até mesmo as camisetas de malha. Sempre cuidando para que a costura dos omoplatas se encaixe no formato do cabide, fazendo conta de chegar nos ombros. Assim você evita “calombos” na roupa, tanto no ombro quando nas mangas; e também dobras fora de lugar. Além de economizar espaço nas varetas, a serem usadas para peças mais espaçosas, o cabide pode ir direto para o guarda-roupa quando a bichinha estiver seca. Quando não, facilita muito na hora de passar.
Roupas íntimas. Calcinhas, cuecas e meias, eu costumo pendurá-las do avesso, com o fiofó ao léu, arejando. É obsessão médica mesmo. Nossas partes íntimas nasceram pra ficarem fresquinhas, sem tecidos sintéticos ou abafamentos. Por isso mesmo, elas devem estar absolutamente secas quando entram em contato com nosso corpinho.
Calças sociais – que geralmente têm um componente sintético – pendure-as já dobradas pelo vinco, direitinho. Se preferir dobrar as pernas, faça-o com um desses cabides com vareta mais grossa. Se não tiver um cabide adequado, improvise, forrando a vareta com uma espuma fininha – dessas que vêm nas embalagens de eletrodomésticos -, para evitar as marcas de dobras no joelho. Ou então pendure inteira, pelo cós, colocando os prendedores estrategicamente em locais discretos – onde o cinto vai cobrir, por exemplo.
Se houver calças jeans, e se a ventilação for zero, escolha sempre deixá-las na frente. É chato, mas não tem outro jeito. Senão elas não secam de jeito nenhum.
Com qualquer peça, é necessário batê-las no ar antes de estender. Tira a maior parte das dobras.
Não há lei no mundo que determine que TODAS as roupas devam ser estendidas em posição vertical, de vestir. Portanto, se você não vir inconveniente (tipo de tecido, risco de esgarçamento) em pendurá-las ao contrário, manda bala. Um coletinho de algodão, por exemplo.
Malhas de tricô grossas são meio chatinhas. Se você as tiver lavado à mão, coloque-as numa cestinha vazada, dessas que a gente acha no 1,99. Quando a água estiver bem escorrida, e dependendo do peso da peça, arrume um jeito de secá-la em repouso: ou em um apoio, ou usando várias varetas do varal. Jamais penduradas. E muito menos com prendedores.
Agora vamos à estética: na última vareta, mais escondidinha, próxima a parede (ou ao lado mais reservado do varal), comece por pendurar calcinhas, sutiãs e meias. Aquelas coisinhas que você não gostaria de exibir para uma visita-surpresa nem para a janela vizinha. Na vareta seguinte, disponha as peças que secam mais rápido ou que podem ser finalizadas ainda úmidas, com ferro (fronhas, por exemplo). Mais pra frente, as peças mais chatinhas de secar. E por último, finalize com aquele lençol ou toalha de banho. Mesmo dobradinhos, eles secam melhor assim, esticados, além de taparem toda aquela intimidade pendurada atrás.
Também é interessante você fazer uma inspeção algumas horas mais tarde: inverta, pendure algumas peças de cabeça para baixo (porque a água “desce” pela tessitura, certo?), e virar ao contrário o lençol dobrado quando a parte de fora já estiver meio seca. Agiliza o processo.
E aviso pras meninas, em especial: pendurar calcinhas e sutiãs assim, expostos, pro vizinho bonitão ver, NÃO é sexy. É só vulgar. É coisa de menina tonta, sem experiência. Em vez de arrumar um namorado, você atrairá um gigolô. Nem preciso falar do hábito de andar pelada pela casa (vale para homens também, enfim).
Seja parcimonioso no uso de prendedores. Porque prendedor dá dois trabalhos: 1) colocar; 2) tentar tirar sua marca no ferro. Prendedor se presta a calças jeans, roupas sem muita importância (as que você usa em casa, sozinho) e peças leves que podem voar pela janela. Em peças mais importantes só atrapalha.
Observe também a altura do varal. Se for de parede, não o fixe muito acima de sua altura. Se for de teto, instale e dê os nós retentores nas cordas de modo que não fiquem ainda altos ao baixar. Isso por um simples motivo: quando a gente estende roupa com os braços muito esticados, exigindo muito dos músculos, aquilo vai irritando e você acaba pendurando as coisas de qualquer maneira, o que não é nosso objetivo aqui.
Também não gosto de usar aquelas alcinhas que já vêm com certas confecções. Se pendurar por elas, e dependendo do tecido, a tendência é formar esgarçamentos, tanto no varal quanto no guarda-roupa. Não servem pra nada, na verdade.
Outra coisa: evite acelerar a secagem de roupas no calor dos eletrodomésticos alienígenas: atrás da geladeira, em cima da tevê, essas coisas. Planeje-se para não ter de lançar mão disso. Se você se organizar, poupará uma surpresa do tipo “a geladeira pifou” e terá sempre suas roupas à disposição para sair.
Outra coisa boa na máquina de lavar é que ela não aceita só roupa. Você pode reservar uma leva final para os panos de chão. Aproveite e coloque os calçados que se prestam à água: tênis (inclusive os de couro branco), crocs, sandálias havaianas. É óbvio que aquele sapatinho de verniz não irá junto, senão sairá desmilinguido. Mas o resto? Puf! Observe bem se o material se presta a isso e manda ver! Se linguetas houver, como nos tênis, disponha-os para secagem pousados nas varetas do varal, com as bichinhas para fora, escancaradas.
As necessidades variam, e o gosto pessoal também. Uma coisa é certa: pendurar tudo com prendedor, espremendo as roupas pela gola, todos juntinhas, ali, como se estivéssemos em Nápoles, dá trabalho ao cubo. Às vezes a gente precisa repensar os hábitos de família. Monte os seus e ensine para sua mãe.
Bem, o que estava na memória de momento esgotou. Se tiver uma pergunta sobre algo que não mencionei aqui, esteja à vontade.



ahahaha, fantástica sua aula! O lance do bambu eu me rachei de rir.. Quando morava em Santa Catarina tinha um terrenão enoooooooooooorme nos fundos que batia muito sol, então era uma festa. Agora aqui o jeito é lavar roupas a prestação, mas minha área de serviço tem uma vantagem. É bem ventilada.. E juntando com esse clima quase desertico de SP, ê beleza, seca tudo rapidinho ehehehe.. Aliás, ponto pro clima quase desértico de SP… Em SC a umidade do ar beira aos 100%, então só com sol mesmo, e quando chove direto… só com secadora. Aliás, até trouxe a minha de lá, e está aqui mofando tadinha…
Agora, pendurar calcinha exibindo pro vizinho é fim de carreira hein ahahaha! Bom, tem tanta gente sem noção nesse mundo que não duvido que seja algo digamos… corriqueiro por aí…
[]s
Denise, acho que quase todo mundo tem um passado de bambu. Aquele terrenão, aquele sol, botar roupa pra quarar… Até aí, normal. O ruim é quando a pessoa resolve trazer os hábitos campônios para a densidade urbana. Aí a coisa vira um Crusp, com roupa pendurada até no friso da veneziana…
Aqui em casa, além de ventilar, tem um sol lascado de manhã. Foi um dos motivos pelos quais olhei o apê pela primeira vez e pensei: é meu, é meu, é meu!
As calcinhas debulhadas pra todo mundo ver… olha, nem precisa entrar na seara sexual. É horrível em QUALQUER circunstância, uma tosquice sem fim.
É, tem muita gente que acha que morar em apartamento é a mesma coisa que morar em casa, o que complica e muito.. Bom senso é bom em qualquer situação, pena que a maioria do povo não tem… ehehehe..
Sobre o bambu eu ri exatamente por isso, lembrei dos meus tempos de terrenão e bambu, claro.
[]s
Denise, quando meus pais ainda moravam em casa com quintal e jardim, pouco antes de virem pra cá, eu e minha mãe promovemos uma sessão Senzala & Casa-Grande, e botamos TODAS as colchas de família pra quarar na grama. Foi um lerê só! Imagina: uma das colchas é de crochê de barbante, pesadíssima quando molhada; e a outra de filé, quase se desmanchando (foi do casamento da minha avó!). Branqueamos todas, deixamos secar dois dias, eu refiz pontos arrebentados, passamos e guardamos, para todo o sempre, em seda azul. Estão sepultadas no armário da minha mãe, e acho que nunca mais verão água novamente.
Lets
Perfeito. Eu acrescento apenas que é possível centrifugar blusas pesadas de lã na máquina. E se for máquina que lava “por tombamento” (as que têm porta e não tampa e sem aquele “troço agitador” dentro), pode-se lavar com toda segurança, preferencialmente utilizando sabão para “roupas finas e delicadas”. Sempre lavar do avesso para evitar o “pobrema dos pelinhos”, pois pode acontecer de alguma peça soltar “pelos” que fatalmente se enroscarão nos “pelos” das outras. Normalmente lãs de boa qualidade não soltam “pelos” e não formam as malditas “bolinhas”.
A dica é esperar a água escorrer bem (ciclo “cestinha vazada 1,99″) antes de iniciar a centrifugação e só depois acionar a máquina, cuidando em dispor as peças de modo que as mangas fiquem em paralelo e justapostas com o “corpo” da blusa. É importante acomodar longitudinalmente (acompanhando o sentido da curvatura do cilindro) e cuidadosamente as peças dentro do cilindro. Não pode “embolar”.
Recomendo centrifugar duas peças por vez para não desbalancear o conjunto. Mas com a prática a gente vai percebendo como fazer para ganhar escala, acomodando um número maior de peças em uma mesma operação. A má disposição das peças no cilindro provoca aquela horrível trepidação durante a rotação (é o mesmo princípio do desbalanceamento das rodas dos automóveis).
Deve-se controlar o processo (ficar de olho) e não é necessário deixar correr o ciclo completo da centrifugação. A lã não retém a água como o algodão, então uma centrifugada de um minuto (pouco mais, pouco menos, isto é, o que baste.) é suficiente para deixar a blusa bem levinha e só úmida, ou seja, na condição ideal para ser pendurada para secar. Mas é a experiência e a máquina de cada um que enfim estabelecem o tempo de cada etapa desse processo.
PS: Nas máquinas que lavam “por tombamento” é melhor não mexer nas peças. Depois que a máquina esvaziou a água com sabão, deve-se desligar a máquina ANTES DO INÍCIO DA CENTRIFUGAÇÃO). Aí, é deixar quieto e esperar que a água escorra como na função “cestinha vazada 1,99″. Então, religa-se a máquina para que o excesso escorrido seja drenado antes começar a centrifugação. As operações de enxágue obedecem o mesmo protocolo.
Importante é sempre acompanhar e ficar de olho porque se der algum “tilt” é preciso desligar a máquina no ato.
PS1: Ambos os gêneros podem valer-se desse conhecimento para insinuar um convite. Mais ou menos assim. Alguém diz, “é horrível lavar roupa de lã em casa”. Aí, se houver algum interesse afetivo e sexual (não necessariamente nessa ordem e nessa conexão) de outro alguém nesse “alguém” é só emendar com um “que nada! É moleza”. Depois, finge que não consegue verbalizar o processo dizendo que é “preciso ver fazer para bem aprender”. Bom, pelo menos isso me pareceu melhor que escandir calcinhas ou cuecas em varais devassados.
há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há há…..
Hahaha….muito bom seu tutorial do varal, perfeito.
Tem coisa mais medonha do que um varal cheio de roupas?
Abracos
Não Elizabeth. E como as pessoas esbugalham aquilo, como se fosse bacana, como se estivessem arrastado suas sandálias havaianas na praia…
Ah, faltou o quarador. Tia Nastácia dizia que o que lava roupa é sabão e sol, e lá no Picapau Amarelo todo mundo andava limpinho.
Ótima a dica do Paulo, boa técnica de “aprôuchi”.
Sabão e sol, que beleza! Só uns poucos podem se dar ao luxo…