O operariado vai aos céus

Depois de dois anos em reformas, a cobertura do Edifício Martinelli reabriu à visitação pública esta semana.

Se antes a visitação ocorria durante o horário comercial do prédio, junto com o guarda mas sem maiores salamaleques, agora a cobra fumou: somente às segundas, terças e sextas-feiras, entre 9h30 e 11h e 14h30 às 16h. Aos sábados, somente entre 8h30 e 13h. E só podem subir 10 pessoas por vez. Durante 15 minutos, e só.

O Edifício Martinelli foi projetado pelo empresário italiano Giuseppe Martinelli, que chegou aqui no século XIX como açougueiro, enriqueceu e fundou a companhia de navegação Lloyde Nacional. Depois resolveu investir na construção civil, e aí está: mais de 600 ceresumanos trabalharam na edificação de seu prédio, ao longo de cinco anos. A inauguração dos 12 andares iniciais, em 1929, causou certo terror à população, que nunca tinha visto algo tão alto. Pudera: foi o primeiro arranha-céu da América Latina. Anos depois, já contava com 30 andares. Para provar que aquilo não cairia, a própria família Martinelli construiu uma villa no último andar, onde dava festas de arromba, para horror da patuleia sem-elevador.

Tempos depois, Martinelli se mandou pro Rio e lá construiu inúmeros prédios, quando o termo “arranha-céu” não era mais novidade.

O Edifício Martinelli também teve papel importante na Revolução de 1932, quando instalou-se em seu terraço uma bateria antiaérea contra os ataques getulistas.

Durante a construção, Martinelli ficou sem grana e foi obrigado a vender uma parte do empreendimento ao Istituto Nazionale di Credito per il Lavoro Italiano all’Estero, do governo italiano. Foi o que bastou para o ditador Getúlio Vargas tungar o prédio, durante a Segunda Guerra. Apenas em 1975 a prefeitura paulistana o desapropriou, e desde então o prédio vem abrigando secretarias municipais e estaduais, além de entidades ligadas à vida pública, como partidos e sindicatos.

Tenho duas fotos relativamente grandes do Martinelli, tiradas pelo meu avô a partir da avenida São João, em 1929. Pena que não posso mostrar aqui. O motivo não é ligado a direitos  autorais nem nada. É por ciúmes mesmo. Quem sabe um dia eu venço essa criancice e mostro…

  • Fotos: Acima (Caroline Hasselman/G1): visão desde o Martinelli da parte mais feia da cidade, cujo símbolo é o edifício Mercúrio, esse verdinho bem no centro da foto. Abaixo (edm via Wikipedia): o terração. Bacana ele, mesmo antes da reforma.
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2 Responses to O operariado vai aos céus

  1. Ricardo says:

    ah, que maldade! Divida com a patuléia, vá!!

  2. Leticia says:

    Com meus leitores eu divido sem problemas. O enguiço é o resto… Um dia, quem sabe! (Até parece que você nunca viu…)

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