Operações urbanas: mesmo esqueminha de sempre?

A Prefeitura de São Paulo desengavetou três das nove operações urbanas previstas no Plano Diretor de 2002, o que significa, na prática, promover o adensamento dos eixos Lapa/Brás, Mooca/Vila Carioca e Rio Verde/ Jacu-Pêssego.

Segundo o site da Prefeitura, os novos projetos urbanísticos “têm como metas principais integrar emprego e moradia, diminuir os deslocamentos diários entre a periferia e o Centro”.

“Serão três novos projetos urbanísticos que terão impacto surpreendente na vida da população paulistana. As regiões escolhidas, hoje degradadas, serão revitalizadas e no futuro serão fontes de emprego, receita e moradia”, disse Kassab.

Tá. Tudo bem. É desejável que áreas vazias/degradadas (e, pior, sem vegetação) ganhem vitalidade. O problema é que esses projetos, queiram ou não, fatalmente reproduzirão aquele esqueminha básico que vem funhecando a cidade há décadas: empreendimentos imobiliários de mil apartamentos. Até aí, tudo bem, mas o modelo basicão requer o triplo de vagas na garagem e, de quebra, alguns shoppings, o que por sua vez requererá uma ampliação viária – o que, de fato, não acontecerá.

Não preciso ir até a a Zona Leste pra constatar isso: no eixo de cá, na Água Branca, onde a avenida Francisco Matarazzo se liga ao Elevado Costa e Silva (o Minhocão), temos três faixas pra ir, três pra voltar. De cada lado, uma é reservada a ônibus, táxis ocupados, ambulâncias, e tal. Sobram duas faixas para os motoristas. Se acontece, como ontem presenciei, de um carro enguiçar no começo da Radial Leste, alguns quilômetros adiante do começo da Francisco Matarazzo, o congestionamento se forma em alguns minutos. Resultado: fiquei quase uma hora para percorrer um trecho que normalmente faria em cinco, dez minutos.

Acho ótimo a cidade toda urbanizadinha. Mas sinto falta de um pensar mais sofisticado para  a cidade, sabe? Algo que fuja do conceito médio de ocupação que se tem hoje aqui, em que o povo se instala e o entorno permanece, sem acompanhar o adensamento populacional.

  • Imagem: fiz uma capturinha no Google Earth pra quem não conhece: o Estádio Palestra Itália, e à direita a avenida Francisco Matarazzo.  Esses prédios grandões mais à direita são comerciais, os primeiros a ocupar a área abandonada do terrenão das Indústrias Matarazzo, ao longo do eixo da avenida. Logo ao norte deles, uma clareira onde se erguerá mais uma torre de apartamentos (com “espaço gourmet”…): Mais gente não é o problema. O problema são mais carros e a sanha terrível por mais um ou dois shoppings além dos três que já entopem a região em qualquer datinha comemorativa.

This entry was posted in Prefeitura, Urbano, Zoológico. Bookmark the permalink.

10 Responses to Operações urbanas: mesmo esqueminha de sempre?

  1. Fábio Mayer says:

    Pior é que Curitiba faz a mesma coisa e com os mesmos resultados…

  2. Leticia says:

    Pode uma coisa dessas, Fábio? Aí eles dizem “ah, mas é difícil…” Esses caras são pagos pra pensar, pô!

  3. Fábio Mayer says:

    Existe um órgã em Curitiba chamado IPPUC, que pensou o desenvolvimento da cidade até que o senhor Roberto Requião do Mello e Silva assumiu a prefeitura, quando os critérios urbanisticos passaram a ser exclusivamente políticos.

    Daí a cidade degringolou, virou paraíso de especuladores, porque político precisa de dinheiro de empreiteiros e construtores na campanha, por mais que prédios altos e shoppings destruam a paisagem urbana.

    Nesse caso aí, é inevitável o afluxo adicional de pessoas. Mas então eu faria o seguinte: transformaria grandes áreas vazias em parque urbano e modificaria a ZR para adicionar prédios residenciais de poucos pavimentos. O afluxo adicional de veículos não teria tratamento, as pessoas morariam em um bom bairro e em troca de ficar mais 30 minutos diários no trânsito, morariam em um lugar de melhor qualidade de vida.

    E shopping? Nem pensar! Eu gosto do modo americano de pensar em grandes shoppings: eles vão para os cafundós do judas, o povão que corra atrás deles!

  4. Leticia says:

    P´redios co poucos pavimentos? Aqui? Nem pensar! Isso só existe numa certa trend, de altíssimo padrão. Pra gente “normal”, só essas torres imensas mesmo.

    Eu também preferiria essa área com um parcão imenso. Se ela é, de fato, meio deserta, por outro lado não precisa de mais gente.

    Aqui, cada vereador, um corretor de imóveis, Fábio. Tem jeito, não…

  5. Ricardo says:

    Uma pena que não se aprende com os erros do passado. Todo mundo critica o Prestes Maia por ter voltado os olhos para avenidas ao invés de incrementar o transporte público, mas de lá pra cá o que mudou? Pouca coisa: metrô ainda incipiente para uma cidade do porte de Sampa, ônibus sempre problemáticos e carros, carros e mais carros.

    A região central, já cansei de dizer, poderia ser totalmente remodelada, o que iria gerar moradia/trabalho conjugados. Conheço um monte de gente que mora na ZL ou ZN e trabalha no centro, mas que iria voando morar perto do trabalho se houvesse uma política séria de revitalização.

    Tenho um amigo que há 3 ou 4 anos se empolgou com a Nova Luz e quase, quase comprou um apê ali na rua Helvétia, hj transformada em Cracolândia.
    Sorte que nao caiu nessa, pq infelizmente a coisa não andou.

  6. Leticia says:

    O que é uma pena. Tenho tanta vontade de ter um apê no Centro…

  7. Ricardo says:

    Pena mesmo, ali é uma região tão interessante, com tanta coisa boa escondida pela sujeira e abandono.

    Mas acabo de ler que Kassab declarou que o Minhocão será demolido. Desde criança ouço isso, mas não acredito que irei ver isso.

  8. Leticia says:

    Eu ia falar dos apartamentos charmosos à volta do Minhocão, mas a notícia do dia me impede…

    Muito estardalhaço essa notícia, talvez uma torcida nos fatos. Falarei about mais tarde, depois que sair do tronco.

  9. Fábio Mayer says:

    Eu entendo a questão dos prédios mas, penso que é necessário quebrar paradigmas.

    Porque prédios altos exigem grandes áreas subterrâneas paa estacionamento e fundaçoes e isso implica em que? Em impermeabilização do solo, a água não tem para onde ir, a terrafunciona como esponja em uma chuva e, substituindo-a por estacionamentos, ela tem que i para algum lugar.

    Por isso que defendo prédios baixos, porque eles não adentram demais ao solo…

    EM Curitiba existe um bairro chamado Campina do Siqueira, que as construtoras rebatizaram na marra de Ecoville. Está virando uma paisagem paulistana: prédios altos, avenidas, shoppings e nenhuma área verde… ao mesmo tempo, está experimentando enchentes e concentrações de água que inexistiam há 5 anos.

    A construção de prédios é inevitável mas pode ser organizada de modo a compor interesses ambientais e sociais.

    É óbvio que o problema de SP é político, tem gente querendo ganhar muito dinheiro e se lixando para o estado da cidade, até porque, vive em Miami ou pretende vivér lá…

  10. Leticia says:

    Entendi e concordo com o que você diz, Fábio. É que texto escrito não tem entonação… O padrãozão aqui jamais aceitaria prédios pequenos, o pessoal ia chiar. Com três pavimentos, só aqueles tipos de altíssimo padrão, que mostrei aqui: http://flanelapaulistana.com/?p=4895

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>