O crime da mala

O Caderno Aliás do Estadão traz a narrativa do famigerado Crime da Mala, ocorrido em São Paulo em 1928 e que mobilizou a opinião pública durante anos.

José Pistone, imigrante italiano chegado ao Brasil para trabalhar na casa de secos e molhados do seu primo, matou a mulher, Maria Mercedes Fea, sufocando-a com um travesseiro. Pistone tinha 31 anos e Maria Fea, bonitinha e vaidosa, estava no auge dos seus 20 e poucos aninhos. Eles haviam se conhecido em um navio rumo à Argentina, em 1925, casaram e mudaram para São Paulo, instaland0-se em um apê na hoje rua Casper Líbero.

Há duas versões sobre o motivo do crime: uma – a do réu – de adultério por parte de Maria. E outra – a da polícia – a descoberta de uma carta à sogra em que Maria revela, indignada, toda a verdade sobre  os pedidos de dinheiro que Pistoni fazia à mãe – fazer sociedade com o primo para depois dar-lhe um golpe.

Dois dias se passaram. Pistoni resolveu comprar uma mala em estabelecimento da Rua São João.  O corpo de Maria Fea já estava mais que rígido. Com uma navalha, seccionou os joelhos da moça e quebrou-lhe o pescoço para que o corpo pudesse caber no compartimento. Despachou-o à Estação da Luz e, de lá, para o Porto de Santos, remetendo-o, com nome e endereços falsos, a algum lugar de Bordeaux, na França.

O Fedex não se aguentou em si mesmo. Já no Porto, desconfiou-se do tremendo mau-cheiro e do líquido que escorria quando de seu içamento.  Aberto, foi encontrado o corpo de Maria Fea,  junto a algumas saias, meias, camisolas e luvas, seu chapéu, seus apetrechos de toucador e um feto de seis meses de gestação.

Pistoni tentou fugir, mas não deu. Pegou 31 anos de Carandiru, pena mais tarde comutada a vinte anos, descambada depois para condicional. Por ordem de Getúlio, terminou em liberdade, como zelador de prédio em Taubaté, onde se casou e morreu – de morte morrida -, em 1956.

O corpo de Maria Fea foi enterrado em um cemitério em Santos,  e sua desgraça se presta a todo tipo de customização religiosa. Desde ex-votos, passando por pedidos a San Gennaro e a Santo Expedito, até promessas de casamento.

A mala? Está em exposição no lúgubre Museu do Crime, da praça Benedito Calixto, em Pinheiros.

  • Acima (Arquivo da polícia): O malévolo José Pistone ao lado da catita Maria Fea. Abaixo (Estadão): O pessoal do Porto de Santos em volta da mala. Ao que parece, ainda fechada.
This entry was posted in Memória. Bookmark the permalink.

9 Responses to O crime da mala

  1. Moema says:

    Esse e’ o tipo de foto “eramos jovens e bonitos” e agora somos so’ “e”.
    Acho curioso como o povo um crime, nada mais, como tantos outros e resolve “glamourizar” – nem sei se existe essa palavra. E para completar ainda vem um Presidente a ajuda ainda mais a aumentar a impunidade.
    Mas fato e’ que tal crime ficou famoso e ja’ ganhou status no imaginario popular. E assim vamos vivendo de dar valor ao malandro, bandido e toda a corja.

  2. Leticia says:

    Papai me contou que esse crime foi comentado por séculos, até porque coisas assim aconteciam de quando em muuuito quando.

    Acho que, nesse caso, foi porque ela estava grávida.

    Tenho fascínio pela narrativa policial-escabrosa, sabia? Uma coisa meio Nelson Rodrigues. Mas só pelos aspectos de texto…

  3. Ricardo says:

    Lets, esse aí foi o “segundo” crime da mala; o primeiro foi nos anos 10(?) e envolvia dois libaneses e uma italiana. O assassino tentou jogar a mala do navio, mas foi impedido e descobriram o crime. Tenho em algum lugar a história, vou achar pra vc.

    Claro que foi o mais famoso, pelo fato dela estar grávida.

  4. Ricardo says:

    Apaga metade do comentário anterior!

    O sírio Elias Faraht, comerciante à rua 25 de Março, casou-se em 1892 com Carolina, filha de italianos, gerando certo desconforto na família e na colônia. Por conta do ciúme excessivo, Elias mantinha a mulher em quase cativeiro, proibida de visitar parentes ou sair à rua.

    Em 1905 Elias conhece Michel Traad, patrício que viria a ser seu sócio e frequentar sua casa.

    Vendo o martírio da pobre Carolina, Michel se apaixona por ela e resolve acabar com aquele sofrimento.

    01 de setembro de 1908: Elias, sem séria dificuldades financeiras, vai se encontrar com Michel. Este, num momento de distração da vítima, toma de uma corda e estrangula Elias.

    Em seguida, colocou o corpo numa mala que despachou para Santos, para ser embarcada no “Cordillere”. Michel Traad iria acompanhar a mala no navio até o Rio de Janeiro, primeira escala, onde iria jogá-la ao mar.

    Impedido por carregadores, Michel tentou fugir, ameaçando a todos com um punhal, mas foi preso e condenado, etc e tal.

    (isso está em “Retalhos da Velha São Paulo”, Geraldo Sesso Jr).

  5. Leticia says:

    Ai, que história linda! Ando atulhada de serviço, mas tentarei fazer uma fotonovela ilustrada! Amei o lance dos dois sírios…

  6. Ricardo says:

    Rindo aqui com sua fotonovela…

  7. Leticia says:

    A pesquisar, Ricardo, a pesquisar…

  8. ivanildo gonçalves dantas says:

    estive a procura do local deste crime pareçe que agora e um hotel no numero 40 rua casper libero

  9. Leticia says:

    Ivanildo, não faço ideia se a numeração da rua mudou. Provavelmente, sim, e mais de uma vez…

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>