Invejinha das coisas de Deus

Tenho evitado o tema “chuva comparada” pra não dar uma de chata. Mas o caos que atinge o Rio de ontem pra hoje merece uma análise sociológica, não?

Até agora, treze 83 mortes. O Prefeito Eduardo Paes pede à população que permaneça em lugar seguro e que não ligue pra Defesa Civil por causa de alagamento (é inútil). Deslizamentos e desabamentos a granel. Aulas suspensas. Todas as principais vias de tráfego interrompidas. Todos os acessos à cidade inviabilizados, inclusive o aeroporto Santos Dumont. O Tom Jobim opera por instrumentos, o que não é lá grandes vantagens, porque a pessoa chega e vai pra onde por terra? Difícil.

Não vai aqui nenhuma crítica à  atitude das autoridades cariocas. Pelo contrário.

A própria Prefeitura do Rio assumiu a responsabilidade pelo caos que assola a cidade há mais de 15 horas. O secretário de Conservação (isso dava piada, mas não cabe aqui), Carlos Roberto Osório, reconheceu a premência de reformas nos sistemas de drenagem da cidade: “Não há sistema de drenagem que dê jeito à chuva que caiu no Rio desde ontem, mas precisamos de algumas reformas estruturais.”

Tenho pra mim que natureza avassaladora é natureza avassaladora e pronto. Não fosse assim, cidades de todos os pontos do mundo, ricas ou pobres, estruturadas ou não,  já teriam se livrado das tragédias naturais linchando suas autoridades.

Mas  este é um flagrante da diferença – até mesmo cultural – para situação análoga em São Paulo. Primeiro que, aqui, chuvas horrorosas, alagamentos e trânsito entupido são entendidos como uma falha do prefeito de plantão. Dependendo da conjuntura política, a culpa é também do governador.

Em São Paulo faz parte das atribuições municipais e estaduais evitar qualquer tipo de transtorno, nem que um dia a cidade sofra um terremoto.  A ida e vinda do trabalho é encarada (pelo menos pelo “superego” da cidade) como um direito que está sendo tolhido pelo governante, e ele deve ser punido por isso.

Deslizamentos e mortes não são, de modo algum, fatalidade para o paulistano. Ocorreram porque  a Prefeitura deixou de cumprir seu papel de prevenção. Quando a Prefeitura o faz através de despejos, enfrenta um setor da crítica que  recorre àquela coisa de “meu chão, meu cantinho”. (Aliás, sejamos justos: no Rio, Sandra Cavalcanti carrega até hoje um estigma imenso por ter criado a Cidade de Deus.)

No Rio o caos tem tom apocalíptico; aqui, é discurso político.

No Rio, assume tons de tragédia compartilhada; aqui, flagrante da “inépcia” do Prefeito/Governador.

Lá, tratamento solidário que pode definir uma eleição; aqui, pano pra manga nas eleições presidenciais.

  • Com dados do Estadão, Folha e G1.
  • Foto: Aprendam, engravatados: Carlos Roberto Osório, no RJTV (captura de tela), vestido comme il faut: “Trabalhamos a noite inteira”, disse (com direito ao clássico “houveram vítimas”).

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13 Responses to Invejinha das coisas de Deus

  1. Da C.I.A. says:

    O Prefeito teve um momento épico agorinha na GloboNews: Pediu aos moradores que não saissem de casa de jeito nenhum. Aí, papo vai papo vem, ele diz “Se você mora em área de deslizamento, saia de sua casa”. Uma coisa é uma coisa e vice-versa!

  2. Ricardo says:

    Ridículo o cidadão de capa de chuva.

    Mas, como te disse, deve ser culpa do Kassab tudo isso.

  3. Fábio Mayer says:

    Há uns 20 anos, mais ou menos, Curitiba sofreu uma cheia que deixou bairros inteiros desabrigados. Ficou famosa a imagem de uma mulher com o filho no colo fechando o barraco prestes a ser ilhado, que depois foi filmada também na volta.

    Depois daquela ocasião, a prefeitura o estado fizeram obras, tiraram algumas pessoas de áreas ribeirinhas e NUNCA MAIS houve enchentes naquele local.

    É certo que as enchentes em São Paulo continuam ocorrendo por vários fatores, como os municípios vizinhos, as populações que não aprendem a manejar o lixo, a falta de permeabilidade do solo, etc… mas tanto em SP quanto em Curitiba, a cada enchente seguem novas obras de escoamento de contenção de águas, mas o fato é que o poder público é visto combatendo o problema.

    NO Rio, cidade maravilhosa contra a qual ninguém pode dizer nada, o que se vê é o poder público fazendo escadarias em favelas, creches e quadras esportivas… mas obras de efetiva contenção dos problemas da cidade, pouco se faz. Há favelas no Rio que pelo tamanho já deveriam estar extintas, mas não, glamuriza-se a comunidade, pouco importando se ela causa mal ao resto da cidade.

    O problema do Rio é que é um polo de mídia como São Paulo, mas ao mesmo tempo é a capital cultural do país e NINGUÉM admite efetivamente seus problemas, preferindo relativizá-los.

    Junte-se a isto o fato de que é governada por populistas de esquerda, ligados a entidades civis radicais, gente que usa a pobreza, a miséria e os problemas da cidade para se auto-promover.

    Daí a diferença de tratamento entre SP e RJ…

  4. Moema says:

    Cada vez mais tenho a sensacao de ter alma de paulista. Estou revoltada com o Governo local – Sr. Eduardo Paes, que impossibilitou minha saida de casa para o meu sacrossanto trabalho. Acho uma falta de respeito inominavel saber que tem gente que passou por volta de 13h tentando chegar em casa. Sim, sei reconhecer uma chuva torrencial que nao para ha’ mais de 14h. Mas, desde que o mundo e’ mundo, nos vivemos numa area tropical e … e nada, pois quem foi que fez alguma obra para melhorar a drenagem da cidade? A Pc da Bandeira enchia quando eu era crianca e continua enchendo. Sei que ela esta abaixo do nivel do mar, mas nao consigo acreditar que nao haja nada que possa ser feito. Claro que sei que diante da quantidade de agua que caiu, nem mesmo o melhor sistema de drenagem resolveria. Acho que minha revolta e’ em muito porque nao vejo NADA sendo feito no dia-a-dia da cidade para evitar tragedias anunciadas. Somos culpados quando jogamos o lixo no chao. Sim, eu nao jogo, mas se meu vizinho joga, entao nos jogamos. E’ estatistica. Vamos olhar em volta. Terremotos nao dao aviso, mas o Chile se preparou para isso. A tragedia nao deixou de ocorrer, mas nao teve o grau de destruicao que teve no Haiti. Chuvas torrenciais acontecem, alagam. Paralisam cidades. Mas a destruicao pode ser minorada com acoes – a isso chamamos de plano de contingencia.

  5. Leticia says:

    Angelo, que dilema, rá!!!!!!!!!!!!!!!

    Ricardo, algo me diz que o Kassab será um pouco deixado de lado. A culpa é do SEEEEEEEEERRA!

    Fábio, nem esmiúço muito os motivos desse caos no Rio. Basicamente, são sempre os mesmos em qq. cidade br. O que me causa espécie é que, quando a coisa é em SP, a imprensa volta seus olhos injetados para o DEM-PSDB. É pessoal, e é com os caras DAQUI.

    Moema, aqui é o que há a criatura chegar em casa às 3 da manhã, no dia seguinte… dependendo de onde mora.

    Até achei legal o Eduardo paes dar a cara a tapa e mandar todo mundo ficar dentro de casa. Mas…

  6. Pão com Manteiga says:

    O Jânio de Freitas, colunista fofolete, que é do Rio, vai dar um jeito de culpar o Serra. Quem quer apostar?

  7. Leticia says:

    Pão com Manteiga, o que espero dos editoriais de amanhã é absolutamente NADA sobre culpas. mas não duvido que isso aconteça.

  8. Moema says:

    Tenho uma pergunta que nao quer calar: Onde esta a/o Cacique Cobre Coral?

  9. Leticia says:

    Sei lá. Deve estar em alguma solenidade legislativa…

  10. akira says:

    A imprensa aqui em sp culpará o dem/psdb se cair um meteoro na sé, mesmo porque o todo poderoso faz parte da elite dos céus.
    Parte da imprensa que fez festa quando o rio foi escolhido pra sede de olimpíadas e copa desvirtuará boa parte da notícia, tenho certeza.
    Não duvido e surgirá um esforço nacional para a recuperação dessa parte do estado, ou seja, mais recursos pra garantir os eventos e mais desvios etc e tal.
    Viu que o problema de ocupação dessas cidades, somado aos aspectos geográficos isentam os administradores de lá?

  11. Leticia says:

    É coisica de uma semana. Artigos bem-postos analisando a topografia da cidade na base do veja-bem. Daqui uma semana todo mundo esquece e volta a glamourizar favela.

  12. akira says:

    Letícia, olha só o que o Aluízio Amorim postou, acho que vou jogar na megasena…
    http://aluizioamorim.blogspot.com/2010/04/asteroide-se-aproxima-muito-da-terra.html

  13. Leticia says:

    Milagre, milagre! Outro dia meus pais viram um meteoro aqui, no cair da tarde. Podia cair em Brasília mesmo.

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