Para ler com um tico de boa vontade

fhc

O horror que se nutre até hoje por Fernando Henrique Cardoso, já expressei isso aqui, é o único trabalho eficiente do petismo e seus badulaques esquerdistas.

Sinceramente, é de se dar os parabéns por trabalho tão benfeito, tecido a pontos de formiguinha durante anos a fio. Deu supercerto. Aquelas claques de vaia, que seguia o ex-presidente a tudo quanto é lugar, deram frutos robustos.

O que se tem a dizer sobre FHC? Tudo. Tudo que seja moldado a partir de fantasmagorias assim, superficiais, de graça e irresponsáveis. Goebbels fez escola: enquanto houver gente na face da terra, o método será eficientíssimo.

Privatizações? Essa é uma das preferidas. Pra falar mal de privatizações, o ponto inicial, que muita gente não percebe, é que você tem de carregar consigo o dogma de que o Estado é bacana pra cacete e os empresários são mauzinhos. Eu já não acho. Por nossa própria cultura de preguiça e possessividade colonial, nosso Estado tradicional é, por definição, um Midas às avessas, um Midas com disenteria.  Alguns lugares, algumas cidades e estados já tentam mudar isso, mas é difícil. Se o próprio povo almeja um serviço público “pra amarrar o burro na sombra”? (negue se for capaz. Ninguém faz concurso numas de “eu quero servir à nação”). Ah, tá, os empresários. Tem muito que não presta ainda. Só vai entrar nos eixos na marra quando tivermos de fato uma cultura de concorrência. Iniciativa privada é, em si, um conceito ótimo. Tanto é que torço para que um dia privatizem o governo federal.

Outra falácia, muito boa, é o caso do Proer, coisa que qualquer governo faz quando necessário. Os críticos, naturalmente, prefeririam que a bomba estourasse na mão dos correntistas. Prefeririam ver um Haiti monetário a ajudar banqueiro, essa coidodemo. Tudo discurso. Se a gente odiasse banqueiro mesmo guardava dinheiro debaixo do colchão. Esse pessoal não conhece o conceito de mal menor. Quer tudo de bandeja, em perfeito estado, e phoda-se a forma de conseguir isso. É mais ou menos como as enchentes em São Paulo: o  país inteiro quer a cidade impermeabilizada e infraestruturada pra quando ele  trouxer sua bunda gorda no vaivém de escambo de sempre. Mas gralha aos quatro ventos quando a chuva é muita.

Mil problemas, crises, conjunturas econômicas, tudo o que tem em qualquer governo que atue no planeta Terra. Mas, no caso de FHC, tudo foi culpa dele, de sua sociologia e de sua “vaidade”. Até aquela topada que levantou a unha do meu mindinho em 1995, foi culpa de FHC e do neoliberalismo.

Todo esse prontofalei é pra indicar, e sugerir que se leia com atenção e boa vontade, o artigo de Fernando Henrique saído hoje no Estadão. Não gosto de tungar texto na íntegra, mas este é exceção, por ser  “enumerativo” e didático:

SEM MEDO DO PASSADO

Fernando Henrique Cardoso

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês…). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado.

Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país.

Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010. “Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”.

O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

  • Foto: FHC: eu era feliz e sabia.
  • This entry was posted in Eleições. Bookmark the permalink.

    3 Responses to Para ler com um tico de boa vontade

    1. Téia says:

      Perfeito Letícia , eu também era feliz e sabia.
      Abraços

    2. Leticia says:

      Pois é, Téia. Eu sabia; e aproveitei. Conjuntura como aquela, acho que nunca mais.

    3. Ricardo says:

      Eu lembro da inflaçao galopante, dos mil planos furados, das trocas de moeda, do corte de zeros, de tudo isso.

      O FHC que mudou isso é lenda, todos sabemos que foi só qdo Molusco subiu ao trono é que o Brasil ficou o paraíso na terra.

    Leave a Reply

    Your email address will not be published. Required fields are marked *

    *

    You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>