
Ontem mâmis me confessou que tem medo que a ordem natural das coisas de inverta e eu morra antes dela. Afetos à parte, lhe sobraria um pepinão: como é que ela faria pra desmontar meu apê, com tanta tranqueira?
Já eu tenho medo de um dia virar notícia de jornal, dessas em que a vigilância sanitária invade a casa com lixo acumulado até o teto, e manda a velhinha pra um asilo. Já realizo a reportagem: meus sobrinhos (inclusive Periquito) explicando que já tinham tentado de tudo, que eu era irredutível, não queria morar com eles e seus móveis mudernos e minimalistas, e que a solução do asilo era a única possível, eu estaria mais confortável lá, etc.
Já tinha falado aqui das antiguidades mais bacanas, mas não falei da traquizomba média. Pra mim tanto faz ter algum valor ou não. Lembrando alguém ou sendo bonitinha, na estética que me atrai (ou seja, a de quarenta anos atrás pra menos), por que motivos eu jogaria fora?
O máximo que pode acontecer caso eu morra antes de Cremilda (é como chamo minha mãe) é ela ficar milionária vendendo tudo nos mercados livres da vida como ítens de colecionador. E depois se internar com estafa, tadinha.
Esse estojinho aí, cuja foto encontrei na ternét (preguiça de fotografar o meu): vi até por 120 mangos! Uma caixa de lápis de cor Johann Faber. Réguas de cálculo do meu tio. Um “contador de picotes de selos”, também do meu tio. Um copo de Coca-cola da Bienal de 96, aquele com Andy Warhol (virou porta-caneta e ficou assim, em uso, esse tempo todo).
E as xícaras? Assim: a família usa seus conjuntos de louça, e eles vão quebrando. Quando já estão desfalcados além da conta, fico com as que restaram (com ou sem pires). E minha cunhada com pratos – ela tem uma parede imensa, “cada um com sua história”, ela diz.Ah! Também não há motivo para me desfazer de bules, açucareiros e leiteiras, of course.
Detail: eu uso minhas xícaras. Adoro montar mesas com peças diferentes entre si.
Tenho, por acaso, visto tanta tralha “de colecionador” que tenho medo de começar a colecionar embalagem de sabonete.



Antes do Natal, minha mãe resolveu limpar “as louças”. Queria jogar fora uma leiteira de porcelana LINDA! Eu passei a mão nela (na leiteira), coloquei espuma de florista e espetei um monte de bicos de papagaio – artificiais, mas que droga!! – e o arranjo está enfeitando minha estante. Eu tenho um olho malvado para vidros, garrafas e afins: Outro dia, trouxe p-ara casa um vidro vazio de Eternity (Calvin Klein) e um vidro vazio da colônia Tommy, de Tommy Hillfiger. Adoro as forma. E vou colocando na estante. Fora as garrafas de vinagre (em vidro) todas redondinhas, que se tornam belos vasos, quando necessário.
Acho que eu, também, vou cair nas mãos da Saúde Pública …
Rindo aqui com a notícia no jornal.
Eu vou pelo mesmo caminho, tanto que aqui em casa torcem pra que eu morra perto do dia de S. João: a fogueira será memorável.
Mas essas traquizombas que guardamos são vendidas por aí, como item de colecionador ou memorabilia. Vide feira do Bexiga, melhor exemplodo que to falando.
O que seria um ‘contador de picotes de selos’? Ferramenta de filatelista? Bem, quem mais contaria picotes de selos?
Não sei o que me aconteceu na vida, mas há muito tempo fiquei de repente meio obcecado pela ideia de me livrar de tudo que não preciso. Nunca mais guardei nada inútil. Nunca mais colecionei nada, a não ser desilusões.
Lets
Tenho um amigo que coleciona discos de vinil. É frequentador assíduo de sites de leilão.
Certa vez nos presenteou com tickets “Authentic 1969 WOODSTOCK MUSIC FESTIVAL”. Dependendo da data do ingresso, o ticket tem um valor maior ou menor no mercado. Por exemplo, se foi no dia em que Hendrix tocou.
Ele nos contou como esse negócio tornou-se possível hoje. Relato o que ouvi:
Quando ficou sabendo do evento, um jovem americano que morava em Los Angeles partiu em direção a Woodstock. Como ele não tinha grana para comprar os ingressos, correu atrás e conseguiu um trabalho de serviços gerais com a organização do evento. Terminada a festa, os organizadores fizeram cumprir o contrato de devolver o local limpo (era um pasto em uma fazenda). Pois bem, o nosso jovem americano foi um dos catadores.
Meu amigo contou que durante a faina ele teve o insight: “isso poderá valer alguma coisa no futuro” (naquela época, para a sorte dele, não havia esse papo de reciclagem e todo o lixo seria queimado ou enterrado ou recolhido para algum lixão). Resumindo, meu amigo disse que esse cara vive até hoje de vender o “lixo” que catou em Woodstock.
Maria Edi, eu comecei uma coleção de garrafas porque um dia comprei uma moringa de vidro no Mercado da lapa, linda de doer. Daí ganhei um vidrão de perfume que tinha sido da minha avó, e aí comecei com as garrafas de azeite. Mas parei, viu? Porque, na hora de limpar isso tudo…
Ricardo, podiam fazer loucários só para acumuladores, não? A gente (Maria Edi tb.) ficava ali, fazendo escambo entre nós, e tal, e ninguém enchia a nossa paciência.
Refer, meu tio me deu nesse contexto de selos mesmo. Mas nunca usei. Ainda vou pesquisar, porque deve haver uma cultura disso, uma classificação, uma escala de valores. Agora, sua frase final foi digna do Altemar Dutra, hein? Desilusões eu guardo tb. A gente pode precisar delas um dia…
Paulo, eu ouvi história semelhante de um cara que saiu catando a demolição do Muro de Berlim. Ele vive disso até hoje. Eu tenho taras de guardar ingressos. Até ingresso do Boca Livre eu tenho, faz as contas. Minha última aquisição é (suspense…) uma entrada de cinema de Aaaaaalllllvin e os Esquilos II !!!!!!!!
Gostei da idéia de ir para um loucário.
Eu sou digna e chique o suficiente para ir para um loucário.
Vamos, Maria Edi? Antes que a Saúde Pública nos procure… É beeeeem mais elegã!
Fechado, vou pro loucário também.
Vamos todos, o último que entrar fecha a portinha.