Loções de cultura geral

Gilberto Dimenstein na Folha, esta semana:

Muito pior do que enchente

Cerca de 40% dos professores temporários da rede pública de São Paulo não passaram no teste de conhecimento. O resultado só não foi pior porque parte da nota é composta por tempo de serviço.

Mesmo assim — e por falta de alternativa — muitos deles vão dar aulas. Essa notícia é pior (muito pior, diga-se) do que enchente. As enchentes vão e voltam, mas o professor sem capacitação fica, causando danos diários.

Não poderia deixar de reconhecer que merece apoio a decisão do governo estadual de fazer a prova, enfrentando o corporativismo. Até compreendo o anúncio de que os professores reprovados vão continuar dando aula –é isso ou nada. Melhor isso.

A prova toca na questão mais grave do país. Não há pais civilizado sem boa educação — e não há boa educação sem bom professor.

Poucas coisas são mais relevantes do que tentar atrair talentos para dar aula nas escolas públicas, valorizando o papel do professor, com melhores salários e condições de trabalho.

Se a população visse na péssima qualidade da educação uma enchente diária, causando danos por todos os lados (e, pior, na cabeça das crianças), haveria uma revolta permanente.

Então. A prova tinha oitenta questões, e esses 40% não se viram capacitados a acertar nem metade delas. E muita gente só conseguiu pontuação maior porque o sindicato forçou a barra pra incluir na pontuação o tempo de sillllviço. São números imensos. Só de candidatos, 182 mil. Faz as contas: se o estado dispensasse essa gente assim, pá-buf!, ficaria sem 88 mil professores.

Segundo o secretário de Educação, Paulo Renato Souza, há a “atenuante” de que as questões da prova eram “complexas e longas”.

Traduzindo para o flanelês, exigem um conhecimento difuso que não se resolve com apostilinha de concurso.

Eu acho é que a a máquina pública atrai, produz e aperfeiçoa um rebotalhismo sem par, que só se mexe na hora de indignar. Baixos salários atraem baixa mão-de-obra. É isso.

Não dá pra resolver de uma vez, e por enquanto o governo tem de se virar com esse povo mesmo.

Quem sabe, nos próximos concursos gerais, a Secretaria de Educação de São Paulo aplica provas sangrentas, na contrapartida de um salário e condições de trabalho bem melhores. Pode ser que assim, aos poucos, dá pra melhorar a educação no estado.

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9 Responses to Loções de cultura geral

  1. Fernando says:

    Lets.
    Cada povo tem a escola que merece.
    Um povinho que destrói a unidade escolar, enfrenta o professor, chegando até as vias de fato, quer o que?
    Ensino de qualidade?
    Impossível.
    Ser professor de rede pública hoje no Brasil não tem mais o “glamour” nem a qualidade de outros tempos.
    Hoje, um professor da rede pública tem uma série de benefícios que causam transtornos à grade curricular. faltas abonadas, licenças prêmio e outros, benefícios que eles usam sem a menor cerimônia e com isso perdem a identidade com o aluno. E se os professores não estâo nem aí, porque haveriam de estar os alunos?
    Mudanças na gestão e na lei são fundamentais para melhorar o ensino, só que isso ninguém quer. É melhor fazer de conta que ensina, e os alunos fingirem que estão interessados.
    E assim caminha o Brasil dos BBB, e festivais de verão.
    Afinal, “Sabê nóis num sabe, nóis só qué os diproma”

  2. paulo araújo says:

    Lets

    Não sei se já contei aqui. Sabe como os alunos de uma escola estadual vizinha ao prédio em que minha mãe reside comemoram em sala de aula o aniversário de um coleguinha?

    É possível ouvir que na comemoração, na hora do antigo pique-pique, a mistura de vozes adolescentes de meninos e meninas em grande algazarra:

    É pica, é pica, é pica, pica, pica.
    É rola, é rola, é rola, rola, rola.
    No seu cu!

    Depois, costuma vir o “com quem será”, que também deve ter uma versão do tipo.

    Minha mãe refere-se a esse aglomerado que lhe é vizinho como “Carandiru”.

    Fico imaginado onde estariam e o que estariam fazendo nesses momentos de confraternização os professores e a diretoria da escola.

    O problema do alto índice de reprovação no exame dos professores temporários talvez seja apenas a pontinha de um imenso iceberg.

    Agora, francamente, a explicação do Paulo Renato com base na “atenuante” das questões “complexas e longas” é típica do que conhecemos por aqui por petralhismo. São essas e outras que evidenciam que há sim um grau de parentesco (primos) entre petistas e tucanos. Aliás, o petismo e o tucanismo paulofreiriano e com seus variados matizes predominam há décadas nas Secretarias de Ensino e Faculdades de Educação. O resultado está aí.

  3. Raquel says:

    Paulo Araújo,

    é o présinho (prézinho?)da Febem ou o Enem do antigo Carandiru…

  4. Leticia says:

    Fernando: filhos vândalos, pais idem. Sinto muito. Não adianta dizer que “não sabia” e que são as más companhias. As más companhias também têm pai e mãe. Então, filosoficamente, o corpo discente é uma enorme e tremenda má companhia.

    Paulo, estou rindo de sacolejar da musiquinha… De resto, é o que você diz: o ensino virou uma coisa tão não-me-toques que o resultado está aí.

    Raquel, é o prezinho geral. Quem dera essa gente toda coubesse na Fundação Casa…

  5. Leticia says:

    Aliás, eles crescem e começam a dirigir. Ontem um estafermo capotou em frente à estação Vila Madalena, às 6 da manhã. Não sei porque cargas d’água o trânsito ficou prejudicado até o meio-dia. Pensei comigo: “bom, pela demora ele morreu”. Nada! Foi levado não sei pra onde com ferimentos leves.

    Não tanto pela legislação frouxa, mas pelo fato de mamãe e papai acha:rem uma pena desperdiçar sua juventude, nem bem as feridas formem casquinha ele estará dirigindo um zerinho.

  6. Refer says:

    Quando Paulo Renato foi candidato a deputado federal alguém do comitê dele ligou aqui em casa. Gostei por não ser um mensagem gravada.

    Depois de uns dez dias, o próprio Paulo Renato me ligou. Seria alguém se passando por ele? Achei que não. Conversou comigo uns 5 minutos, falou de propostas para a área educacional. Deu certo. Votei no homem.

  7. Leticia says:

    Também voto, de olhos fechados. Não tenho nada contra, apesar dos latidos petistas de décadas!

  8. DD says:

    Não apenas a administração estadual deve dispensar os 88 mil fracassados, como deve mostrar as portas da rua aos alunos que não estiverem interessados em estudar.

  9. Leticia says:

    Concordo, DD. Embora seja difícil, no sistemão público, em que um suspiro já vira direito adquirido.

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