Joie de vivre

mafua

Uma das coisas que São Paulo tem de bom é a tendência de cuidar bem da área externa dos imóveis. Veja bem, eu disse “a tendência”; portanto não valem provas contrárias e isoladas. Também não vale recorrer à periferia da periferia, porque periferia é igual em tudo que é lugar.

Tá certo que temos exemplos rematados do dinheiro a serviço do mau gosto caprichado, como já mostrei aqui e aqui. Mas, sejamos honestos, a alma da cidade não é essa.

Sempre se vê, nos bairros “normais”, tanto em casas como no comércio, o gosto por uma pinturinha. E agora, que você pode mandar fazer a tinta no tom que bem entende, com mil novidades em texturas, materiais, técnicas e tal, é surpreendente a quantidade de resultados felizes, nitidamente estudados. E olha que, em matéria de arquitetura e decoração, nem sempre o que foi muito estudado dá certo.

Outra coisa comum de ver é o gosto pela jardinagem, um costume não muito cultivado no país. Sabe como é, adoramos um cimento, uns ladrilhos, e além do mais, “árvore suja”, não é mesmo?

É por isso que me pergunto que raios esta casa da foto está fazendo no meio de um monte de casas bonitinhas que há aqui perto de casa. Não é um momento, uma circunstância, um perrengue passageiro: ela sempre foi assim – sempre em transição, sempre reformando, sempre na bagunça, sempre aumentando…

Chego até a pensar que isso aí é uma pensão, tamanha a quantidade de puxadinhos, de gente.

E, como não podia deixar de ser, um varal cheio de roupas ao léu, assim, pra todo mundo ver. Estou para encontrar uma explicação convincente de que isso seja algo romântico, aqui ou em Nápoles.

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13 Responses to Joie de vivre

  1. Raquel says:

    Olha! e não é que tá aumentando! Pensei que já teria sido toda azulejada…

  2. Maria Edi says:

    Esse negócio de achar roupa no varal ao léu é coisa de neo-realismo italiano.
    EU DETESTO POBREZA!
    Estou com Joãosinho 30: Quem gosta de pobreza é “intelequitual”!
    Eu passeio pelos arredores do meu chatô e vejo um monte de garagens ladrilhadas até o teto e fico imaginando como ficariam bonitinhas essas garagens com aqueles pisos de cimento intercalados por terrinha e graminha. Mas você está certa: árvore dá trabalho, faz sujeita, se tem uma terrinha vem formiga, joaninha, tatu-bolinha … CREDO!

  3. Cético says:

    Moro numa rua arborizada e é muito gostoso, é comum as pessoas caminharem por caminhar. Mas sempre tem o espírito de porco que diz que muito dá bicho.
    Esta foto comprova minha teoria: pobre (muitas vezes só de espírito) adora um puxadinho, cimentado e a imprescindível churrasqueira na laje, aguarde que logo ela virá com o pagode de sábado.
    Abraço

  4. Moema says:

    Parece coisa de pensao mesmo. Pensao nao planejada, bem vrasileira na base do improviso; sobe aqui, sobe ali e fica eternamente com este ar de metamorfose ambulante.
    Odeio mortalmente estes varais – chamo de favela dos meus amrores – fico horrorizada quando vejo estes varais em varandas de predios que nao sao da periferia. Nao que sejam melhores na periferia. Mas fico pensando na minha vergonha se fosse no apartamento vizinho ao meu.
    Quando chegar no pagode com banho de mangueira na laje pode decretar o fim da urbanidade.

  5. Refer says:

    Quando SPaulo passou à urbanização pra valer, final dos anos 40 em diante, as pessoas compravam terrenos em bairros então ‘distantes’ e depois de levantar suas casas, a primeira providência que tomavam era a de derrubar tudo em volta e cimentar.

    Era uma tendência e, atenção, não era coisa ‘malvista’. Foram pelo menos 25 anos de devastação radical — até o clima da cidade mudou em função dessa barbárie. No final dos anos 60, era quase impossível ver passarinho e borboleta, a não ser em parques.

    Somente em meados dos 70, com a popularização da ecologia, a tendência inverteu e o verde passou a ser mais valorizado do que o cimento.

    Provavelmente, toda cidade que se urbaniza em ritmo desenfreado passa por situação semelhante. Um amigo me disse que São Paulo, hoje, tem proporcionalmente muito mais verde que a cidade onde ele nasceu, Belém do Pará. Ele trabalha em urbanização e não tenho por que duvidar.

    A preocupação (justa) com a devastação de florestas, bosques etc. devia se estender para as cidades, para as áreas povoadas, porque deixa marcas físicas, como a mudança de clima, e culturais até (vá tentar achar um pé de cambuci no Cambuci).

  6. Leticia says:

    Não vão azulejar nunca, Raquel. Podiam, pelo menos, pra dar um aspecto melhor. Mas qual! É gosto mesmo.

    Maria Edi, pobreza é o phim (e não tem nada que ver com falta de dinheiro). Esa nojeira toda é um joie de vivre mesmo, está na alma.

    Moema, eu tembém tenho essa sensação quando vejo uma fileira de roupas em lugar totalmente inadequado. Puá!

    Verdade, Refer. Cê dá uma olhada no Google Earth sobre a cidade: são vários graus de evolução. O primitivismo cimentou tudo, e à medida que vai centralizando na cidade, vai reaparecendo o verde. Será que dá pra estabelecer uma relação à la Dimenstein entre escolaridade e verde?

  7. Ricardo says:

    Que mimo!

  8. Leticia says:

    Você já passou aí em frente e eu não te mostrei, Ricardo. Qq. dia desses você verá ao vivo.

  9. Totonho Paixão says:

    Oi Leticia!
    Sempre que vejo uma casa dessas lembro do Luciano Huck, explico:

    - O arquiteto da atração que reforma as casas mostra como é possível fazer grandes mudanças sem muito gasto.

    Só evito lembrar muito do programa pois tenho bronca das reformas que ele faz em favelas aqui do Rio, a bronca eu tenho pois duvido que o morador, depois da reforma, tenha um relógio de luz instalado e/ou o IPTU reavaliado, como qualquer cidadão.

    Abs!

  10. Fábio Mayer says:

    Infelizmente, meu pai tem essa mania… vive construindo muito e terminando nada!

    Dizem que é coisa de maçon.

  11. Leticia says:

    Totonho Paixão, cê vê que a distinta criatura aí tem dinheiro. Nada que ver com um mínimo de gosto. Nem com limpeza. Nem com ordem. A garagem deles é um mafuá.

    Fábio, puxe as orelhas do seu pai e diga a ele que antes de ser maçom ele é teuto, oras! Um jardinzinho, uma pinturinha, vai bem!

  12. Fábio Mayer says:

    Tem jardim e fachada pintadinha bonitinha, nos trinks… o problema é o atrás da fachada!

  13. Leticia says:

    Não pode, Fábio!!!! Meu pai também tem uma tendência assim, em outros setores. Tem de tocar terror pra terminar as coisas.

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