
Não posso deixar passar: o federalíssimo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan – que a gente, imbecilmente, chama de Ifan, porque, “veja bem”, p + h = f) resolveu embargar a obra do Metrô no Largo da Batata só porque as escavações deixaram aflorar uns casos de louça por lá. (Folha de S. Paulo, p/ assinantes).
Pra quem não conhece, Potato’s Square sempre foi uma ilha de atraso cercada de urbanidade por todos os lados: de um lado, a pontinha bonita do Alto de Pinheiros. De outro, a Faria Lima. De outro ainda, um rastro de maloqueirice capitaneado pela Cardeal Arcoverde e Teodoro Sampaio, mas que fica pianinho na Doutor Arnaldo, lá no Hospital das Clínicas. E, finalmente, a parte (também jerereca) que vai terminar na Marginal, onde prédios importantes já se implantaram e trataram de espantar o estigma risível de que estação de trem tem de ser esculhambada, encardida e cheia de lixo.
Se no dia a dia a gente não liga nem pros bibelôs de nossas avós (se bobear, eles vão parar na Benedito Calixto, tradicional feirinha de antiguidades em Pinheiros), quando surge uma coisa assim, ainda mais vinda do Iphan, paralisamos o escambo cotidiano e rendemos loas à arqueologia elevada.
Se o Brasil tivesse, de fato, um setor de arqueologia, teríamos vários trabalhos acontecendo aqui em São Paulo, não? Sim, porque não há lugar no país com mais obras que aqui. Você se lembra, aqui em São Paulo ou em qualquer outro aglomerado urbano do país, de algum arqueólogo renomado? Como é o urbanista Cândido Malta, o médico David Uip ou a corretora Valentina Karan?
Não. A arqueologia (infelizmente) é um ofício esquecido, desprestigiado, e só lhe resta mesmo a bacia das almas do setor público. E no setor público, como se sabe, as mentes criam quatro patas e um lombo cascudo.
Você imagina a cena: a prefeitura/governo de São Paulo chega no Iphan e diz: Daqui a nove meses vamos começar as obras do Metrô no Largo da Batata. Vocês querem, até lá, fazer um levantamento do solo no local? Ou aproveitar as escavações para tanto?
O Iphan responderia: Não, não temos pessoal nem dinheiro para fazer isso. Se quiser, contrate arqueólogos. Não vamos agregar valor às suas obras.
Fico surpresa que nenhuma obra do PAC, por exemplo, tenha sido embargada por topar com ossadas de qualquer coisa. Será porque as obras do PAC inauguram geografias? Ou sejá que elas não usam retroescavadeiras? Sei lá.
Só sei que velharia, no geral, é ótimo pra jogar na lata do lixo, em caçamba ou, como disse, tentar descolar uns trocados no brechó. Mas ela pode adquirir um valor histórico incomensurável se estiver penduradinha na retroescavadeira do inimigo.
- Foto (Hélvio Romero, AE): Lula inaugurando obra do Pac em Fortaleza, setembro de 2009. Em Fortaleza, lamento informar, as pessoas comiam já no século XIX. Não acharam nem um copinho de estanho amassado durante as obras de fundação? Ou será que não há fundação?…



Restos de garrafas, copinhos e pratinhos furrecas (ou jererecas – adorei a expressão!) interessam a quem, mesmo? For sure, a quem está interessadíssimo em atrapalhar:
1 – o desenvolvimento da cidade
2 – que esse desenvolvimento esteja sendo feito por outro partido que não o partidão.
Ou será que é preciso desenhar …??
Lembrei-me de uma situação mostrada, se não me engano, no filme Roma (Fellini) que dizia que a construção do metrô na cidade anda a passo de lesma, literalmente, porque a cada metro escavado descobre-se um novo sítio arqueológico, com o agravante da burocracia italiana, muito mais presente e complexa que a brasileira.
As vezes torço para que chova muito nalguns lugares paras estas velharias caiam, que enxurradas levem, e que novos prédios se ergam.
Será que resolveria se conseguissem argumentos para dizer que ali é um aterro, e que o IPHAM deve procurar a origem e não ali?
Mas, o governo do DEM e do PSDB não usam estes meios… o que é legal!
Esses botocudos não acharam ossadas nem no Araguaia e nem em lugar nenhum… provavelmente devem ser ossadas de coxinhas que eram vendidas num boteco por lá… o atraso atrasa.
Feliz Natal, Letícia!
Existem leis federais e estaduais que preveem buscas arqueológicas a cada escavação. Não sei como isso funciona na prática, nem para os responsáveis pelas obras, nem para o pessoal do Iphan.
Um engenheiro da Emurb afirmou que a preocupação, a noia a cada obra, é ambiental. É fácil descobrir o motivo: o governo federal atual não deixa barato arrancar qualquer mato aqui em SP.
Só sei do seguinte: vestígios de bebedeiras do século XIX não são importantes pra história alguma. O Refer mencionou no caso da Itália, e a gente pensa o que realmente faz sentido nisso tudo. Exacerbar esse resgate todo traz o risco de a crosta terrestre um dia ficar exposta numa redoma de museu.
Ainda mais com essa possibilidade que o Adão levantou: esse entulho todo pode não ser dali. São Paulo, desde o início, é uma movimentação de terra só…
Nesse caso, há política e grana envolvidos. Porque escavação dá dinheiro, e porque o Largo da Batata vai ficar um acinte de bacana. E tem gente que gostaria que ele continuasse o fiofó que é.
Feliz Natal, Fábio!
No tempo da Erundina foi o mesmo método, o uso histórico para atrapalhar e quem sabe o que mais, ontem os casarões da Paulista hoje o Largo da Batata. Para sabotar não se precisa de muita inteligência.
Abraço
Largo da Batata sítio arqueológico?
Mas era só o que me faltava!
Logo vão dizer que ali deve estar o “elo perdido”, talvez o Homo ignacius…
Homo ignatius. Amei. E vou usar!
Lembrei desse post quando assistia a essa reportagem no JN de 05/01. Ouça bem o que a “bunitinha”, ronnievonianamente falando, diz aos 5 segundos… Batata!
Mas continuo adminirando a beleza dessa menina.
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1185958-7823-TECNICOS+AVALIAM+O+QUE+PODERA+SER+RECUPERADO+EM+SAO+LUIZ+DO+PARAITINGA,00.html
Ronnievonianamente falando é ótimo, Akira!
Coitada! Todo mundo fala “Ifã”, fazer o quê?
Ah, ela é linda de doer! Ontem, no JN, percebi que davam uns closes gigantescos nela, coisa a que Fátima Bernardes nunca teve direito.
Fora o tal de “Condefaat”, essa também é dura de ouvir.
histórico e patrimonial que até pouco tempo atrás não se era exigidoDeixe-me entender.., vcs não querem ser um país de primeiro mundo? Em países de primeiro mundo existe uma valorização do processo no Brasil. Quando, finalmente um governo seja ele qual for, PT ou PSDB começa a exigir essa valorização, que trata principalmente da nossa história, lê-se nossa, a história de todos os brasileiros, o que inclui todas as sociedades indígenas que aqui já viveram, vcs vem com um discurso sem fundamento nenhum aonde cacos e tigelas não fazem a menor diferença. São esses cacos e tigelas que podem contar a trajetória do desenvolvimento de um povo que hoje reconhecemos como brasileiro.
Tania, a valorização histórica e patrimonial é algo que não está sendo discutido neste post. É claro que devemos valorizar nossa arqueologia, e isso vem sendo feito desde antes de haver Iphan e Condephat, por iniciativas particulares e solitárias.
O que se discute aqui é a radicalização e o jogo de poder que adveio dessa institucionalização. Ou será que a gente ouve falar de outras obras embargadas pelo país afora por conta de achados arqueológicos?
O objeto em discussão aqui é a caça de um argumento para paralizar as obras do metrô em ano de eleição. Espero que tenha me feito entender agora.
Tania, a valorização histórica e patrimonial é algo que não está sendo discutido neste post. É claro que devemos valorizar nossa arqueologia, e isso vem sendo feito desde antes de haver Iphan e Condephat, por iniciativas particulares e solitárias.
O que se discute aqui é a radicalização e o jogo de poder que adveio dessa institucionalização. Ou será que a gente ouve falar de outras obras embargadas pelo país afora por conta de achados arqueológicos?
O objeto em discussão aqui é a caça de um argumento para paralisar as obras do metrô em ano de eleição. Espero que tenha me feito entender agora.
Existem obras sendo embargadas em todo o país, de empresas privadas e públicas inclusive da propria Petrobrás, como por exemplo aconteceu no ano passado em Caraguatatuba, na qual foi encontrado um sítio arqueológico dentro do canteiro de obras da UTGCA. A liberação só ocorreu depois de um salvamento do sítio realizado em abril de 2009. Um exemplo de empresa privada que teve a obra embargada ocorreu no norte do MT por conta de um sítio arqueológico gigantesco na região de Aripuanã, aonde estava sendo construído uma AHE. Após o salvamento do sítio, a area foi liberada. Acredito que as pessoas deveriam se informar mais a respeito do trabalho dos arqueologos em todo o país. Não se trata de politicas partidarias, mas sim, de valorização do patrimonio. Obras são embargadas e atrasadas em todo o mundo em prol do conhecimento, e isso não ocorre apenas dentro da cidade de São Paulo para paralizar obras em ano de eleição, basta se informar melhor.
Tânia,
Você insiste que todos aqui têm uma visão contrária ao trabalho dos arqueólogos. Não é isso, e acho que meu post não está dúbio. O que se questiona aqui, além do evidente cunho político da ação, é até que ponto a cidade pode parar por conta de pesquisas que jamais seriam feitas se não houvesse… obras.
Até pela legislação existente, é natural que se aproveitem as obras para pesquisas arqueológicas. Mas, melhor seria se houvesse um espírito de colaboração, não de antagonismo entre arqueologoa X desenvolvimento.
Eu disse no post, e repito: “Não. A arqueologia (infelizmente) é um ofício esquecido, desprestigiado, e só lhe resta mesmo a bacia das almas do setor público.”
O meu ideal é que os arqueólogos tivessem um mercado de trabalho tal e tão prestigiado que pudessem ter atentado para possíveis patrimônios no Largo da Batata antes, quando era um lugar hostil e tomado de camelôs. Mas não foi. Agora, o bom senso manda que, pelo menos, se leve em conta que lá há uma obra importante para os moradores da cidade.
Leticia, como voce mesmo disse:
“Existem leis federais e estaduais que preveem buscas arqueológicas a cada escavação. Não sei como isso funciona na prática, nem para os responsáveis pelas obras, nem para o pessoal do Iphan.”
Fica claro pelo seu tom e pelo seus argumentos que voce é totalmente leiga no assunto.
Continue se curvando ao Coliseum,ao Parthenon, a Botticelli, Caravaggio, etc….que é isso que voce deve conceber como História!!!
Além disso, o seu PRECONCEITO e MENOSPREZO pelo patrimonio e identidade de “nosso” país, que isso SIM, minha cara, são o que constituem o atraso de uma nação….
Olha, Fabiana, negócio seguinte:
Vou repetir: não se trata de menosprezo ao trabalho de ninguém. Já expliquei pra sua amiga, embora o post não deixe margem a dúvidas. Não vou continuar me esgoelando aqui. Ainda mais porque você já chegou com um tom autoritário e ofensivo.
Não sou cara a você, e você, pelo tom acintoso com que se dirigiu a mim, também não tem chance nenhuma de me ser cara. Se pudesse contribuir com informações técnicas úteis ao tema, vá lá. Mas preferiu o linguajar não especializado, leigo e geral, coisa que, sinceramente, não acrescenta nada.
O que se quer mesmo saber é se o material achado no local é, de fato, relevante historicamente. Isso, pasme, é de interesse legítimo de leigos também.
Generalizações, como se houvesse campos de saber absolutos em detrimento das demais atividades humanas, são perniciosas a qualquer sociedade.