
Sempre gosto das minisséries de janeiro. São raras as que não me despertam interesse. Um porque são feitas com o máximo capricho. Dois porque o povaréu fica conhecendo pessoas e coisas do passado. Não há nada mais triste do que gente que não sabe dizer nem o nome do próprio avô, não saber de onde veio e não conhecer um mínimo das coisas de seu país, dãããã!
Prova constrangedora disso é a notinha saída na coluna Zapping, de Alberto Pereira Jr. na Folha, anteontem:
Minissérie Dalva e Herivelto gera lucros
A estreia da minissérie “Dalva e Herivelto, uma Canção de Amor” no dia 4 de janeiro, na Globo, vai disparar uma série de homenagens aos artistas Dalva de Oliveira e Herivelto Martins preparadas pelos seus herdeiros. Pery Martins, fruto do conturbado casamento dos músicos, organiza um megashow que passará por Rio e por São Paulo com o repertório dos pais. [...] Yaçana Martins, filha de Herivelto e Lourdes Torelly, lançará um livro com as cartas dos pais.
Seja lá por que motivo for, é uma vergonha que o jornalista mencione o nome de Pery Ribeiro assim. Por que “Pery Martins”? Prefiro pensar que é por ignorância mesmo.
E qual o problema de a minisserie gerar lucros para os filhos? Acho que nesse caso é legítimo e natural, não? Não me consta que tenham escolhido como meta de vida se pendurar na ociosidade, em cima do nome dos pais. Muito pelo contrário, sempre vi Pery Ribeiro homenageá-los de coração, oras…
Dalva e Herivelto, uma canção de amor estreia na Globo no próximo dia 5, contando sobre a vida do casal Dalva de Oliveira e Herivelto Martins: ela cantora, ele compositor, suas vicissitudes e glórias juntos, entremeadas de brigas homéricas, e, depois, separados. A minissérie também terá personagens contemporâneos a cada fase dos dois, como Emilinha Borba, Linda e Dircinha Batista e Dercy Gonçalves.
Dalva de Oliveira, eu adoro desde que me dei conta de que era ela a intérprete das músicas que minha mãe e minha tia cantarolavam lavando louça, na base do meio sério/meio deboche.
Tenho LPs, CDs e uma que outra coisa. Não como fã enlouquecida, mas dentro de uma razoabilidade. Como o livro da foto, escrito por Pery Ribeiro, cantor que não teve tanto sucesso como os pais, mas que – acho – todo mundo conhece. Seu repertório é meio serviçal. Mas é ótimo cantor e ótima pessoa.
Pena que a editora lhe passou uma rasteira: o livro (pelo menos minha primeira edição) é pessimamente editado e revisado. Acredito que não seja culpa dele nem se de sua ex-mulher, coautora. Mesmo assim, é de ler com interesse, porque Pery se valeu de um espírito muito elevado pra não omitir nada das baixarias na vida do casal.
Nem precisava de Pery Ribeiro pra todo mundo saber que as brigas do casal era coisa de voar cadeira pela janela. Dalva, particularmente, não era mole, não. Lembro de ter lido um episódio, no meu livrinho proibido Roberto Carlos em detalhes (sorry; ele esteve à venda e hoje se encontra em sebos), este trechinho, contado por Angela Maria:
“Eu adorava a Dalva, era sua fã, sua macaca de auditório”, afirma Ângela, que também foi trabalhar numa boate carioca, cantando ali basicamente o repertório da cantora que tanto admirava. Pois numa certa noite, Dalva de Oliveira apareceu na boate e ficou com alguns amigos numa mesa próxima ao palco. No meio do show, Ângela decidiu fazer uma homenagem a Dalva: enquanto cantava um dos sucessos da cantora, Ângela desceu do palco e se aproximou da mesa onde ela estava, curvando-se diante dela em sinal de reverência. Nesse momento, Dalva pegou um copo de gelo e atirou na cara de Ângela Maria. “Eu não esperava esta reação dela. Aquele gelo jogado na minha cara me esfriou toda por dentro”, diz Ângela. Enquanto Ângela limpava o rosto, tirando a água gelada que entrava nos seus olhos, os amigos de Dalva saíram imediatamente com ela da boate. “Mas eu continuei cantando e cantando com mais vontade. Eu deixei o microfone de lado e soltei a voz com tudo.
E o público da boate me aplaudiu de pé”, diz Ângela Maria.
Daí dá pra ver o nível da coisa.
Existe, no Brasil, uma mania horrorosa de reverenciar cantoras de má-educação estudada, como se sua vulgaridade pública fosse sinal de “autenticidade” (êêê termo dos anos 70!). Elis Regina, ó, pufff!
Mas de Dalva eu gosto. Sua maloqueirice estava no DNA, mas ela segurava a onda no palco. E acho tão bonitinho noção de educação, separar o privado do público…
Vai aí um momento de sua última apresentação em público, na TV Tupi:



Caríssima Letícia,
belo post sobre esse livro e essa história. Pery recentemente gravou um CD com standards americanos em bossa nova. Muito bom. Comprei.
Obrigado pela sua companhia na blogosfera. E 2010 vem aí, quente. Eu já estou fervendo literalmente. 22h30min em Floripa e termômetros marcam 30° centigratos. Ufa! Ainda bem que inventaram o split.
Antecipo meus votos de um excelente 2010 para você e seus familiares.
Abraço e beijão do
aluízio amorim
Aluizio, Pery é tão bom cantor, não? Acho que somos injustos com ele…
Eu é que agradeço sua excelente companhia! E como agradeço seus posts, especialmente sobre São Paulo, tão argutos! (Recentemente postamos sobre a mesmíssima coisa, simultaneamente…).
Não é possível que o país inteiro esteja derretendo e nós aqui, com chuva que nos deixa um quase frescor (mas é melhor não reclamar, não?).
Grande 2010 pra você e os seus também! Bjocas!
O Peri Ribeiro tem uma voz maravilhosa, mas penso que nõ sabe escolher repertório… ele quer ser algo como o Cauby Peixoto, quando devia pensar em termos um pouco mais modernos, claro, mesclando com as musicas que canta muito bem.
Dele, ouvi pouco, mas sinceramente, não curto muito aqueles bolerões das décadas de 40 e 50 e muito menos as músicas de Dalva e Herivelto… não é que as ache ruins, só penso que os arranjadores não lhes dão o valor necessário, fica tudo com o mesmo tom original.
Mas gosto à parte para o repertório, Peri Ribeiro é um cantor excepcional!
Pery esteve na semana passada no programa do Rolando Boldrim, explicou a origem e a opção pelo “Ribeiro” em seu nome artístico, confesso, não sabia. Não entendi o colunista optar pelo nome verdadeiro, beirou o desrespeito com o artista e com o público.
Ainda bem que ele e a irmã tem essa história pra contar, se fossem depender do que se paga de direito autoral estariam numa pior. E contando a verdadeira história, sem omitir assuntos delicados, coisa que o filme de um certo alguém teve o cuidado de esconder ou desvirtuar.
Fora algumas gravações mais ou menos recentes em que Pery canta músicas de Nelson Gonçalves e ‘homenageia’ a estética de bordel de Adelino Moreira, em CDs que se o (meu gato) Bartosinho cheirar vai querer jogar terra em cima, o Pery Ribeiro é o fino absoluto; e isso vai desde o primeiro sucesso, ainda garoto, com a toada ‘Inteirinha’, e depois, na fase bossa nova pura, quando costurou um hit após o outro: as melhores músicas de Menescal e Bôscoli (O Barquinho, Vagamente, Ah Se Eu Pudesse), Garota de Ipanema (fez a gravação original), depois a fase bossa jazz, com Leny Andrade, a fase americana com o Bossa Rio.
Acho ‘Bronze e Cristais’ dos anos 70 uma das coisas mais sensacionais que já ouvi, show perfeito de voz e interpretação.
Fábio, ele canta muito bem. Mas, confesso, não tenho muito interesse na ducentésima nona interpretação da Garota de Ipanema. Agora, os bolerões eu curto. Não que goste e me emocionem, não. Só curto. Acho rasgados, cafonões… Mas entre a cafonice de hoje e a de ontem, prefiro a de ontem. Pelo menos não pago mico de cantar “É isso aíííííí….” com a alma.
Verdade, Akira. Conte pra gente por que ele escolheu o “Ribeiro”.
Nessas nossas terras ganhar dinheiro honestamente e´quase uma ofensa. Mas se voce rouba, desvia verba, ai´voce e´o maximo e tem grande chance de ser reeleito e ganhar qq coisa so´porque e´esperto.
Tenho um pouco de dificuldade de separar o profissional do pessoal. Para mim e´meio esquisofrenico. Ate´porque na minha seara, isso em geral significa que o camarada trata bem os pctes particulares e com casca e tudo os publicos.
Sem duvida, ela tem uma grande voz, o Pery tambem tem, mas a carreira dele nao decolou como a dos pais. Fato que aqui todo comopsitor virou interprete o que quase acabou com a funcao.
Vale a pena conferir.
Refer, seu comentário caiu aqui depois. Eu também acho Pery o fino, mas sempre me dá aquela ideia de intérprete de sucesso certo, entende? Não curto seu repertório, não. Não entendo necas de música, mas não tem uma música cantada por Pery que eu lembre: essa gravação é do Pery. Aí dificulta…
Moema, é uma ofensa meeeesmo! Deve ser um inferno viver assim, como deve ser também achar uma coisa em casa e outra no trabalho. Essa diferença de tratamento com pacientes é nojenta! Os médicos a que vou, por mim ou por meus pais, eu sempre olho: a maioria deles recebe particulê, convênio e SUS. E são bons no que fazem. É pra lá de nobre isso!
Não aguento ouvir Garota de Ipanema na voz de ABSOLUTAMENTE NINGUÉM…ahahahahahaha!
Tem uma versão de “Luciana” na voz do Peri Ribeiro que é lindíssima… ganhei um LP do Banco do Brasil com interretações nacionais de músicas com nome de mulher, esta interpretação se destaca.
Há cantores no Brasil que pel qualidade vocal são discriminados. O Peri Ribeiro é um deles, outro é o Emílio Santiago… fazem menos sucesso do que merecem.
A Moema matou a tacape! Os “jornalistas” acham que ganhar dinheiro com isso é “vergonha”. Ora pipocas, Pery está falando dos seus pais! Nada mais justo. Aliás, noto que ele abandonou de vez aquela coisa beeeeem jeca de “numerologia”, quando escrevia seu nome mais mou menos assim: Rybeyrriio (era uma coisa assim) E, em termos de descoberta de voz, estou na fase Simonal. O cara tinha uma voz excelente!
Nem eu, Fábio. “Luciana” é linda de morrer.
Parece que hoje a criatura tem de plantar bananeira, mostrar os peitos (isso então é patético, já que toda mulher tem peitos) e terminar a música com um “porra”.
Numerologia, Maria Edi? Ai, Jesusinho Cristinho!…
Com relação à Bossa Nova, chega de saudade!
Então, Pery disse que no final da década de 50, quando trabalhava na Tupi e começou a cantar, usava o nome de Pery Martins. O Boni, que na época também trabalhava lá e tinha esse dom marqueteiro, lhe disse que não soava bem como nome artístico.
Em 58, Pery soube do falecimento de Almir Ribeiro, um cantor que admirava e estava no auge da carreira. Pouco depois, encontrando-se novamente com Boni, este lhe sugeriu o “Ribeiro” por soar melhor e como uma pequena homenagem ao grande cantor. Não lembro de Pery ter citado o nome de Cesar de Alencar, a quem se afirma ser o autor da escolha.
É isso.
Tô achando que o Fábio anda incorporando um lulês, hahaha! É m… pra tudo quanto é lado.
Ceis acreditam que tem numerologia até pra nome japonês, é o fim!
Leticia,
Acho que é só um caso de geração. Como sou supermaisvelho (como se dizia nos anos 90, lembra?) associo o Pery a pelo menos dez músicas clássicas do repertório nacional.
A música que mais gosto dele, ‘Samba do Dom Natural’,não é famosa, mas é uma pérola, acho que escrita por Marcos Vasconcelos (não tenho certeza, não estou com saco pra pesquisar) que Pery gravou com o Som 3 — Luis Carlos Vinhas, Tião Neto e Edison Machado. BTW o cara que aparece no começo do clipe da Dalva que vc postou é o Vinhas.
O Pery arrepia em Samba do Dom Natural, ‘surfa’ no ritmo como só os grandes (Elis, Lucio Alves e olha lá!) sabiam fazer. A letra é risqué no sentido racial — hoje, com a praga da correção política, ninguém é macho pra escrever uma letra assim.
peloamordedeus, ouça:
http://www.zshare.net/audio/70581206964ac232/
Ah, verdade, Akira. Isso está nesse livro, não? O Fábio (acho que não neste post) está numa fase de catarse pré-2010. Eu também fico assim às vezes. Particularmente, acho palavrão, desde que usado com moderação e na hora certa, algo libertador.
Refer, tenho essa noção. Não que eu seja tão mais nova, mas sei que ele tem uma carreira de respeito.
Ouvi. Outra coisa, não? O tempo da humanidade já passou.
Almir Ribeiro estava destinado a ser muito grande.
Bonito que nem o Belafonte, ele seria a escolha natural para Orfeu Negro, ainda mais com a experiência de ator que já tinha. A voz era semelhante à de Roy Hamilton e o carisma era ducacete. Carreira internacional, fácil, fácil.
Curiosidade para paulistanos: o Almir Ribeiro é nome de rua em SPaulo, fica entre a Dr. Arnaldo e a Av. Sumaré.
Pois é, essa história foi contada no programa do Boldrin e eu ainda não li o livro. Tô tentando baixar o mp3 que o Refer disponibilizou e estou confiante que trata-se de uma pérola.
Não posso opinar sobre o Almir Ribeiro, já que não tenho nada dele.
Como tenho boas referências e o Refer as endossa, creio tratar-se de caso ímpar. Tentarei conferir.
abraços a todos.
Refer, eu morria sem saber dessa rua Almir Ribeiro. Entre a Doutor Arnaldo e Sumaré? Só se for uma ladeirona…
Akira, o livro anda por aí. E certamente há em sebos. Se quiser, veja antes de a minissérie cmeçlar, porque daí some tudo!
Akira,
Assista ao filme Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte, em que Almir Ribeiro aparece cantando a premonitória Onde Estou?, de Vicente Leporace (onde estou, meu Deus?/ será que a morte abreviou os dias meus?).
‘Subi’ a música pra vc. Eis o link:
http://www.zshare.net/audio/70676106ee4d6d88/
Leticia,
Não é ladeirona não; ao contrário, é uma ruazinha. Passei algumas vezes lá de carona com a patroa. Descobri a rua há muitos anos, ao acaso.
Que vozeirão, hein, Refer?
Refer, agora que as coisas acalmaram aqui em cada, vou ver no Google Maps pra me situar. Thanks!
Refer! Não é na Doutor Arnaldo com Sumaré. É pertíssimo da Pompeia, da rua Paris. Cinco minutinhos a pé daqui de casa.
Letícia, pra vc ver a minha falta de direção.
Eu não dirijo e, pra mim, nesse pedaço tudo é entre a Dr. Arnaldo e a Sumaré. Sei que passei nessa rua algumas vezes de carona, indo comprar ração no Laicão, que fica no Sumaré (ou na Pompéia)
Laicão é na Desembargador, Refer, perto da Pompeia…
Uau! Realmente o cara cantava muito! Pena que não seja tão divulgado. Valeu Refer…