Baianos, paus-de-arara e gringos

Tunguei esse vídeo lá no Reinaldo Azevedo. Mercadante dizendo que Ciro Gomes tomou o pau-de-arara na “direção errada”, e referindo-se a Nordeste como “lá” (numa entrevista, à Rádio Jornal, do Recife).

Talvez Aloisio Mercadante acredite que pegar um pau-de-arara pra São Paulo seja a direção certa, o que põe por terra todo seu discurso de que São Paulo é horrível sem o PT.

Até que eu entendo a visão de Mercadante. São Paulo continua sendo o melhor lugar para um nordestino lascado. Isso não é preconceito nem bairrismo. É uma constatação, oras!

O Nordeste é uma terra atrasada. Não oferece educação, emprego, e, em casos vários e extremos, nem comida oferece. Todo o dinheiro que o governo federal sempre pôs lá vai parar no toucador das senhôuras aristocráticas cercada de mucamas a abanar-lhe as gorduras. Isso não é culpa  individual do Genivaldo e de sua rocinha. A grande culpa é da elite nordestina, atrasada de tudo. Seus políticos são de um primitivismo admirável. Não fosse assim, o Nordeste não teria a cara que tem.

Bem fazem os nordestinos que apertam o botãozinho do foda-se e vêm pra cá peitar sua própria desvantagem. Isso é o que de mais coerente um ser humano – a quem não foi oferecido absolutamente nada – tem a fazer, e é uma atitude digna de admiração.

Rematada bobagem dizer que paulista tem preconceito contra nordestino. Se isso fosse verdade, São Paulo daria passagem de volta e não seria a maior cidade nordestina do país.

Outra bobagem, da mais escorregadia pieguice, é dizer que os nordestinos construíram São Paulo. Não poderiam, porque não chegam aqui com grandes técnicas. Quem constrói é engenheiro. Geralmente os nordestinos foram e são, isso sim,  empregados de obras, assim como foram os italianos e os portugueses, dos quais ninguém se lembra na hora de recorrer a essa babaquice.

Muito antes de os nordestinos começarem a vir pra cá, São Paulo já era uma metrópole. Para isso, foi preciso recorrer à mão-de-obra imigrante braçal e intelectual  – europeus vindos com ou sem formação – para que se começasse a construir alguma coisa nesta biboca ainda no século XIX.

Então, vamos combinar: São Paulo não seria o que é se não fosse gente de fora. Toda espécie de gente de fora. Não só nordestinos.

Sou filha de imigrantes. Sou sobrinha de imigrantes. Sou prima de imigrantes e, por que não dizer, cunhada de migrantes. Meu avô largou família e tudo em sua terra natal e veio pra cá. Não porque tenha visto num folder de turismo. Mas porque seu país estava uma porcaria. E também porque a imigração pros States estava fechada.

Veio no Cuiabá, um navio horroroso, foi roubado por um patrício já na Praça Mauá, passou a primeira noite num banco da Praça Tiradentes, foi apelidado de branca de neve pelos colegas pretos de uma forja e pagou mico na Exposição de 22, no Rio, por não trazer seu próprio serrote. Já tinha ns anos de faculdade, mas trabalhou em qualquer coisa pra sobreviver.

Meu avô foi um pau-de-arara marítimo.

A intensa migração nordestina virou um problema, sim. A cidade se desdobra, aos trancos e barrancos, pra abrigar todo esse povo, e mesmo assim não dá conta.

Quando digo com certa indignação que o caminho mais curto pra uma casa própria é vir pra São Paulo se enfiar numa favela, estou falando sério. Mas, repito, se fosse comigo eu faria a mesmíssima coisa.

Quem não quer melhorar? Essa é uma das aspirações mais bacanas que uma pessoa pode ter.

Se deve haver alguma reação à migração que ainda hoje se dá, ela tem se voltar contra os governantes do Nordeste, e não contra pessoas indefesas à procura de uma vida melhor.

Por isso não gosto de dessa coisa cretina de “baiano”. Pelo menos aqui em São Paulo, é o roto falando do esfarrapado.

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15 Responses to Baianos, paus-de-arara e gringos

  1. Fernando says:

    Lets.

    Eu como euro descendente de olhos verdes, corroboro em suas afirmações de que Sampa já existia como metrópole muito antes dos nordestinos descobrirem o Pau de Arara.
    Foram Italianos, espanhóis e Portugueses que deram essa identidade para SP. Depois vieram os outros, Árabes, Japoneses, etc..
    Os nordestinos vieram por falta de opção e se tornaram a mão de obra barata e farta para os empresários.
    Dizer que eles construíram a cidade é de uma mediocridade sem fim, pois, além de só ajudarem na mão de obra, atrapalham a cidade com seu crescimento desordenado, favelização, e violência. Veja que o índice de oriundos dos estados do Nordeste nas prisões do estado ultrapassam os 80%.
    Não tenho preconceito contra os nordestinos, mas não sou tolo a ponto de ter pena deles.
    São inocentes úteis, ignorantes e ignorados pelo poder público dos estados de origem, servem apenas para votar. Veja o bolsa família.
    Muito dinheiro foi aplicado nos mais variados planos governamentais para “alavancar” o pogreço naquela região, o dinheiro sumiu, e o povo ficou na mesma fugindo da seca e da fome.
    Tiveram que migrar para SP em busca de uma melhor qualidade de vida, ou um melhor TER, e muito poucos querendo um melhor SER.
    Veja que tem os que moram há 30 anos no Jardim Pantanal e continuam na mesmice, mas as TVs de plasma e os Celulares de última geração estão lá ostensivamente apresentados como forma de ascensão social.
    Eles esquecem que para subir na vida tem que trabalhar, estudar, e crescer, e não ficar sentado de papo para o ar esperando a próxima enchente para poder por a culpa no poder público e ficar esperando pela tão sonhada casa “de gratis”.
    Os imigrantes europeus vieram trabalharam e uma grande parte até enricou, mas todos conseguiram de alguma forma melhorar de vida.
    Enquanto isso, nossos irmãos do nordeste estão aí, muitos vivendo na indigência, ou em condições piores das que tinham quando moravam lá. Passam décadas trabalhando continuamente sem conseguirem dar um passo adiante na evolução humana. Apenas conseguem melhorar de condição economica, mas na escência continuam precisando do paternalismo do governo, são incapazes de andar pelas próprias pernas e sairem da mesmice, eles não se esforçam e não tem perseverança, o dinheiro deu para umas cervas e pagar a prestação da Bahia, tá tudo certo.
    A indolência desse povo e o coitadismo são a marca registrada do migrante, alguns trabalhadores de primeira qualidade, mas a grande maioria, espertos e preguiçosos e assistidos de carteirinha.
    Nunca vão à luta, sempre esperam o governo dar. E os governantes dão em troca de votos e assim vai caminhando a mediocridade.

  2. Leticia says:

    Fernando, acho que todos os migrantes e imigrantes aportam em algum lugar por falta de opção… Com meu avô foi assim. Ele não veio num ato de benemerência oferecer suas técnicas civilizadas a um povo botocudo. Veio porque precisou mesmo…

    Não acho que justo dizer que os nordestinos sejam preguiçosos. O que pode acontecer é que alguns (de lá e de outros lugares) vêm desprovidos do senso comum que há no sul sobre responsabilidade como cidadão, etc.

    E, de maneira geral, as pessoas vêm, ralam à beça e conseguem seu lugar ao sol. Se há casos como o do Jardim Pantanal, aí eu concordo com você.

  3. Fernando says:

    Lets, não quero polemizar, mas só trabalhando com alguns deles para ver e sentir como pensam, e olha que eu já tive 80 deles sob minhas ordens.
    Tinha dias em que eu gostaria de ter em mãos um lança chamas….
    Os meus avós também vieram da Itália em busca de melhores condições e atrás de comida.
    Hoje olho para meus familiares e tenho orgulho de até onde eles conseguiram chegar. E olha que os imigrantes eram ignorantes, analfabetos, famintos, com o agravante do idioma, e conseguiram.
    Mas falta de opção não é desculpa para indolência e preguiça, isso é coisa de brasileiro que nunca passou por guerras ou fome de verdade.
    Só sabem reclamar do governo, não pagam um tostão de impostos, são os que mais usam os serviços públicos, e vivem de festas, futebol, fazer filhos e cerveja.
    Nem todos, mas a grande maioria.

  4. Maria Edi says:

    Gosto dos nordestinos em geral (em particular tem alguns que eu, como o Fernando, gostaria de tratar a lança-chamas … Vocês sabem de QUEM eu estou falando). Trabalhei com um pernambucano que mal abria a boca para falar, mas que construiu, em sua cidadezinha, um salão-com-apartamento e, com seus braços magrinhos, ajudou a cavar um poço artesiano para o sítio de sua mãe. Quando ele casou e foi pai,viu que não dava para viver em São Paulo e se mandou para casa, com sua mulher e a filha. Quando eu vejo aquele programa do Gugu, “De volta para minha terra” (acho que é isso) vejo que São Paulo não é para iniciantes:
    ou você trabalha feito um cão, à sério, ou os lobos vão bater à sua porta. E eu fico extremamente feliz quando vejo um deles, ou muitos deles, vencem com o seu próprio trabalho. Afinal, quem vive de bolsa-esmola não vence, pois não?

  5. Leticia says:

    Fernando, você não é o primeiro que ouço a estar numa situação dessas. É difícil mesmo. É que geralmente a pessoa vem de outra mentalidade, é difícil tentar enquadrar. Se tivessem tido educação e trabalho…

    Agora, “isso é coisa de brasileiro que nunca passou por guerras ou fome de verdade”, concordo inteiramente com você. Hoje se falou muito da paralisação do trem sob o Canal da Mancha; o que aconteceria se fossem brasileiros. Botavam fogo na composição, pra começar… Essa coisa de se resignar com certos eventos depende de discernimento, coisa que nós aqui não sabemos bem o que é.

    Eu também fico feliz, Maria Edi. E quando vejo que o cara está lá, com vontade de vencer, faço o que posso pra ajudar.

    Agora, “aquele” de quem você fala, nem num palácio de ouro ele evolui.

  6. Cético says:

    São nestas pequenas e singelas palavras que se vê a arrogancia, soberba e até despreso, vindo dele não fico chocado. Chocado fico quando leio que este mesmo senhor é o favorito para reeleger-se.

    Concordo com o Fernando, mas com um adendo, eles os nordestinos vem para cá sem nenhum senso social, ético-moral, só que com a convivência a coisa vai mudando (muda ou se ferra) e de geração para geração esta mudança é mais significativa ainda que sobre muito da malandragem e da percepção limitada, mesmo estas “qualidades” de geração em geração vão diminuindo e um senso de civilidade vai surgindo.
    Uma vez ainda na década de 80 eu fui conhecer uma escola municipal em que uma amiga trabalhava lá nos cafundós de S.Amaro. Comecei a conversar com uma menininha que não devia ter mais de 8 anos tipo de “baianinha” ( desculpe-me Letícia) e ela me contou com alegria que os pais eram nordestinos mas ela era são-paulina. Apesar da mentalidade, incivilidade, etc ela já tinha uma cabeça melhor que a dos pais, com o tempo São Paulo sempre vence.
    Abraço e um Feliz Natal

  7. Moema says:

    Sou neta de imigrante por todos os lados. Meus avos viveram a gloria e o inferno em terras tupiniquins, mas em comum eles trouxeram uma mentalidade de que so´estudando e trabalhando se vence. Isto está impresso no meu codigo genetico.
    De alguma forma somos todos estrangeiros. A menos que estejamos falando de descendentes de indios.
    Nao posso acreditar que um camarada vai sair da sua zona de conforto em Enhem-enhem de Dentro e ir para SP ou mesmo Rio – segunda opcao – pra ficar de papo para o ar. A maioria totalmente desqualificada, acaba mesmo dependendo das bolsas esmolas distribuidas por politicos que so´fazem reforcar a mentalidade brasileira que deposita nas costas – ou nas tetas – do estado todo o poder para resolver os problemas. E isso e´, na minha humilde opiniao, um problema de doutrinacao. Fomos e somos doutrinados a acreditar que o Estado deve nos prover. Dessa forma votamos e acreditamos que aquele fulano que nunca nos viu, vai nos defender com unhas e dentes. Vai melhorar nosso acesso a emprego, saude,e ducacao e tudo mais que prometeu. Ficamos esperando os aumentos de salario minimo em ano eleitoral que continuarao sendo pouco para quem recebe e muito para quem paga. Claro que nao sou ingenua de achar que eles se estapiariam pra pagar imposto. Mas todos querem ganhar mais (de preferencia sem fazer esforco), mesmo que isso implique em pagar imposto. Esse modo de pensar tupiniquim (crie uma dificuldade que eu te vendo uma facilidade) abre uma avenida enorme para que os mensaloes e dinheiros em meias e cuecas transitem por nosso pais.

  8. Leticia says:

    Cético, a que ponto chegamos, não? A garota tinha orgulho de nascer aqui, como se nascer no Nordeste fosse uma desvantagem. É isso que os coronéis fizeram com aquela terra. Horrível!

    E concordo com você: a pessoa vai transformando seus conceitos depois que chega. É a isso que acho necessário dar crédito.

    Moema, é essa a mentalidade (dependência do Estado) reinante. Se é ruim de extirpá-la da classe média geral do país, imagina de gente sem estudo, que no fundo não se beneficia dessa estrutura?

  9. Da C.I.A. says:

    Perfeito, perfeito! Provavelmente o melhor post que já li por aqui, meus parabéns amiga. E Feliz Natal!

  10. Leticia says:

    Ângelo, já disse que você é um especial companheiro de blogosfera?

    Bom ter te conhecido este ano, e espero que haja novas reuniões ao vivo.

    Um Feliz Natal pra você também e para suas três sereias (com a esperança de em 2010 eu poder conhecê-las!).

  11. Refer says:

    Nordestinos não construíram SPaulo, mas são eles que mantêm a cidade funcionando. Vá ver quem pega no pesado na área de serviços, na construção civil e em todos os lugares onde é preciso muita dedicação e mão na massa. Isso acontece porque é uma gente muito boa de trabalho. Não se pode pegar como exemplo os pobres-coitados que só conheceram a miséria mais torpe; desses, é desumano exigir que tenham um mínimo de civilidade.

    A região Nordeste brasileira é das mais ricas do planeta; lamentável que as oligarquias, as famílias donas da região que vêm coladas no poder desde tempos imperiais não permitam seu desenvolvimento de forma a contemplar a população com empregos, educação e saúde. Acho que isso somente se resolverá quando houver um poder central capaz de se afastar dessa elite nordestina perversa e criminosa.

    O pior preconceito que o povo nordestino sofre é o de suas próprias elites que tudo faz para condená-lo à miséria. Muito ruim que os próprios nordestinos não percebam isso.

    O pronunciamento de Mercadante (que pra mim rima com purgante) foi um ato falho.

  12. Leticia says:

    Refer, seu comentário está redondíssimo.

    No país da colocaçãozinha pública, eu admiro todo e qualquer indivíduo que se disponha a vencer na vida com trabalho e empenho – em qualquer nível.

    O problema não está nos nordestinos, e concordo com você que só uma intervenção federal pra dedetizar a área e prover desenvolvimento ao Nordeste. Do jeito que o povo de lá é tinhoso e trabalhador, aquilo tem tudo pra virar uma área riquíssima.

    Enquanto isso não acontece, que venham para cá mesmo e larguem uma banana pros Sarneys da vida.

  13. Refer says:

    A situação perene no Nordeste é a mesma desde quando aquilo começou a ser habitado: quando há chuva, a natureza responde, explode, há grande fartura, pois a natureza ali é supergenerosa (é onde mais se produz frutas no mundo, tudo para exportação). Quando há seca há penúria, desespero, ambiente de Graciliano Ramos. Ora, comparativamente chove menos no interior da França do que no Nordeste do Brasil e a gente jamais houve falar em ‘retirante francês’.

    A seca devia deixar de ser desculpa para as Sudenes da vida extorquirem verbas federais que param no meio do caminho e se desviam beneficiando somente as oligarquias.

  14. Refer says:

    ahnn…, quis dizer ‘ouve falar etc.’

    desculpem.

  15. Leticia says:

    Já pensou? Retirantes franceses aportando aqui? Nada! O europeu usa o cérebro até onde pode.

    Cê viu a paralisação do trem no Canal? Acho que eles fariam tudo, menos começar a berrar por providências!

    Essa história de seca no Nordeste conta com inúmeros estudos e soluções. Só não aplicaram ainda porque aí o coronel perde sua razão de existir. Essa dinheirama toda – repito a alegoria – vai toda pro toucador da senhôura encalorada.

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