Você é “o cara”?

o cara

Como você reage internamente a um elogio?

Talvez seja meio lugar-comum dizer que um elogio é coisa a deixar contente o elogiado. Mas a verdade é que… depende. Depende do elogio, de quem o faz, da intensidade e de quando o faz.

Temos, para começar (e para descartar da discussão), o elogio sincero. Detectá-lo ou não é quase questão de casco: você precisa ter vivivo muito e ter muita cancha para aceitá-lo de bom grado, como algo realmente honesto.

Mas há também – e são maioria – os elogios instrumentais,  aqueles que servem, em primeiro lugar, ao emissor, como parte de vários tipos de estratégia que visam a um objetivo bem prático. Dou nomes por dar, mas as classificações se misturam. Vale a numeração e pronto:

1) O elogio político/diplomático: exemplo típico é Barack Obama ter chamado Lula de “o cara”. É aquele elogio descabido, que pega até o próprio elogiado de surpresa. Lula acredita não acreditando, assim como a imprensa, e no meio do caminho ocorre como que uma confirmação de que “realmente, Lula é o cara, veja a ascenção do Brasil, blá-blá-blá”. Até que o governo americano manda um fax botando “o cara” no seu devido lugar.  Daí você percebe que aquele elogio teve uma função específica, que fez efeito por vários meses e cumpriu seu papel. E não interessa que nosso prezimente esteja consciente de todas as entranhas da diplomacia. O primitivismo do cerumano fez que, em algum momento- travesseiro, Lula tenha realmente, pessoalmente, intimamente acreditado nisso.

2) O elogio negocial: antes de dizer que não há verbas, o cara te diz que você é um excelente profissional, e pá e coisa. Vai lhe massageando o ego até você ter a plena certeza de que a firrrrma não pode viver sem você, e no final forma-se um quadro de que você, justo você, com sua infinita capacidade e inteligência, é o cara talhado para encabeçar a nobre tarefa de impedir que a brava empresa não vá pro buraco.

3) O elogio prematuro e abundante: geralmente não envolve dinheiro nem poder em suas acepções tradicionais. Normalmente vem de uma pessoa que você mal conhece. Na minha experiência, posso falar de mulheres que acabam de me conhecer e já se derretem em excessos. A primeira experiência foi lá pelos 15 anos: a criatura virou minha “fã” enquanto corroía minha imagem entre amigos. Assimilei para sempre o tipo e, desde então, tento evitar. Se não dá pra rolar um afastamento, tento ser cordial ao máximo. Mesmo assim, o resultado é o mesmo: a criatura vai minando suas amizades até ter a ilusão de que conseguiu sua derrocada. Nem ela mesma sabe se te ama porque te odeia, ou te odeia porque te ama. Esse tipo de agente é bem salutar, porque lhe faz o favor de descartar amizades de baixa qualidade – aquelas por cuja cabeça não passaria o expediente de apurar a fofoca a fundo.

4) O elogio caipira: é detonado por outras demandas intergêneros, e tem de ver com ideias de poder, de situação social e geográfica. Por exemplo: o cabra capcioso chega a um novo e melhor ambiente que o seu de origem, e tudo lhe deslumbra. E você, que está inocentemente instalado naquele ambiente, não sei por que cargas d’água mentais se fixa na mente do cara como um símbolo prenhe tudo isso.  A criatura te considera o suprassumo daquilo (ou da urbanidade, ou da felicidade familiar, ou do profissional de sucesso, ou da pessoa que tem “acesso ao poder” (nem que seja cruzar com a Kátia Fonseca na rua), enfim…, pode escolher a neurose. E aí lasca: sua casa é muito bonita, você é muito chic, confio no vinho que você escolheu, seus pais são muito fofos, sua opinião é brilhante (nem que você tenha dito uma obviedade). Vai ver o que acha, no fundo, de você…

5) O elogio para se enturmar: uma “sonsa” aparece do nada com cara de pobrinha e começa a te bajular para ganhar sua simpatia ou, pelo menos, sua pena, e assim poder entrar no seu grupo (para depois lhe passar a perna, é claro). Veja bem: a pessoa não se crê uma depenada. Ela apenas usa do elogio com o mesmo distanciamento emocional com que escova os dentes. Ela monta no seu cangote para queimar uma etapa, e só.

6) O elogio social: a criatura te elogia constrangedoramente, apenas porque aprendeu que isso faz parte da etiqueta.  É um conceito de educação tapuia muito questionável.  Você não precisa elogiar para gostar de ninguém, nem fazer que aquela pessoa goste de você. Nesse caso, mesmo que não haja perigo, também é bom descartar o ente, porque ele é, por princípio, um desonesto funcional.

7) Elogio de internet: depende muito: tem as pessoas que fazem elogios sinceros, e elas sabem que  eu os aceito, implicitamente ou não. Agora: elogios manuais só pra divulgar brógui, anunciar barraquinha e, pior, extrair informações particulares, pode ficar esperando sentado…

O elogiômetro é um dos bons instrumentos pra avaliar sinceridade nas pessoas: descarte aquelas amizades cheias de quais-quais-quais melosos.  Porque as intensidades emocionais perenes, falsas ou verdadeiras,  estão ali, pau a pau com pobremas di pobremas freudianos.

A melhor amizade do mundo é aquela em que os elogios não fazem parte da infraestrutura da coisa. Porque amizade não tem muita coisa que ver com admiração total e irrestrita: seu melhor amigo é seu melhor amigo e ponto, mesmo que você brigue, se irrite, se encha, discorde, fique séculos sem se falar simplesmente porque não está a fim.

Elogios ao léu me irritam. Gosto muito mais de ações elogiosas, se quer saber. E de elogios, claro. Desde sejam certeiros, na hora exata, daqueles que você sabe que merece, e feitos com parcimônia,  honestidade e responsabilidade.

  • Foto (BBC): Você é isso, essa beleza imensa, toda recompensa…

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16 Responses to Você é “o cara”?

  1. Fábio Mayer says:

    Fico com pé atrás quando recebo elogio de quem não conheço… minha primeira suspeita é que pretende me passar para trás…

  2. Leticia says:

    Ôpa! O problema pode ser ELE te conhecer.

  3. Betinho says:

    Esse texto me lembrou muito os meus tempos de noite onde o mesmo sujeito que entrava na cabine e dava tapinhas nas minhas costas elogiando meu trabalho, logo em seguida dava tapinhas nas costas do dono da casa tentando roubar o meu lugar.
    Na internet é a mesma coisa. Já teve gente que visitou o bloguinho e me parabenizou pra depois sair me chamando de lunático.
    Ainda bem que este lunático ja aprendeu que elogio sincero não precisa de laço de fita.

  4. Fernando says:

    O que ninguém notou é que o presidente Obama chamou o Sebento de “O CARA” nas entrelinhas estava implícito o restante da frase…
    Este é “O CARA” que vai me dar trabalho na Amérdica do Sul.
    Fiquem de olho nele que em breve ele vai fazer bobagem…
    Elogios devem ser recebidos com muita cautela para não inflar demais o ego do elogiado.
    Vide o caso do nosso pequeno timoneiro, ele já está se achando um semi Deus…

  5. Leticia says:

    Betinho, a gente fica com as costas em carne viva de tanto tapinha de cara que quer espalhar sua buzanfa no lugar alheio, e acho particularmente divertido o pós: a criatura perde toda a compostura que levou anos para construir a duras penas.

    Fernando, quem infla com qualquer coisa é uma toupeira. Lula se inflou com uma gracinha de Obama. Logo…

  6. Leticia says:

    Fernando, a propósito, sabe que não consigo comentar no seu blog, né?

    Então, deixo meus parabéns aqui, e pergunto, batendo o pezinho, quando será sua vinda para cá.

  7. says:

    Na verdade o queniano disse “that MY man”, que é o equivalente a “esse é meu chapa”. Alias os americanos usam “my man” até para o cachorro de estimação.

    O resto é a imprensa querendo garantir sua boquinha no governo

  8. Leticia says:

    Exatamente, Zé. Investe-se na versão mais cômoda, certo?

  9. Moema says:

    Sou pessima com elogios. O melhor que recebi foi do diretor do hospital dizendo que nao podia voltar a chefiar do servico pois eu era muito correta! E ele ficou achando que estava me depreciando.

  10. Raquel says:

    Moema, você é “dimais”!

  11. Raquel says:

    Leticia,

    meu querido Mr. Collins adoraria esta aula de elogios! Aguarde que explicarei no meu Jane.

    PS: Este post está ótimo. Isto não é um elogio. É só uma constatação.

    PS2: ja twittei uma vez “Quando o elogio é demais eu não desconfio. Tenho certeza.”

  12. Leticia says:

    Meninas, vocês duas são magníficas!!!!!!

    Obrigada pelo elogio, Raquel. Sei que você gosta sinceramente. Eu lembro desse teu twitter. Nada mais verdadeiro! (exclamações, exclamações!!!)

  13. Fernando says:

    Lets
    Não sei o que acontece não consigo te linkar.
    E não bata o pezinho…tenho vindo diariamente de um jeito ou de outro….he he
    TKS pelos parabéns..fiquei “cheio de sí”…

  14. Betinho says:

    Toda essa história de elogios me lembrou deste site que eu tenho certeza deve ser o preferido do Lula…

    http://www.sprite.com.br/reidoelogio/

  15. Ricardo says:

    Elogio bom é aquele que fazem sem que vc saiba: não afeta o seu ego e melhora sua imagem perante os outros.

    Elogio de sopetão, aqueles com platéia, então, tô fora.

    Ah, perfeito o número 3, ri à beça.

  16. Leticia says:

    É, Fernando, tem algum tererê entre nossos mocós… De qualquer modo, estou aguardando sua vinda. Você será incorporado ao grupo assim, na marra…

    A apresentação é divertida, Betinho…

    Ricardo, gente gratuitamente simpática, blargh!

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