
Geisa não foi à aula ontem, como disse que ia (de calça comprida – a temperatura da cidade tem estado senegalesca).
Dá tristeza porque o botocudismo xuvenil venceu. Quando veio essa história, achei o fim a mídia achar um absurdo que o aconticido tenha partido de um meio universitário. Como se “meio universitário”, hoje, distinguisse alguém na vida.

Não distingue, não. Nem nas tradicionais, se quer saber. Meu prédio é apinhado de universitários USP/Não-USP não não têm nem a capacidade de dar bom-dia quando encontram alguém no elevador. Não que sejam mal-educados. São só botocudos. Os únicos seres universitários que cumprimentam aqui neste mocó é um professor de física, que tem dois cachorrinhos lindos que passeiam de boné, e um casal de médicos de dois metros de altura. O resto, pluft!, não sabe nem pra que serve um cinzeiro no hall.

Universidade hoje é instrumento pra arrumar um emprego de quinta. E pra dar pinta de lustro na cybermassaroca. Ponto.

Reinaldo Azevedo sintetiza o que não ando muito lá concentrada pra falar (peguei quase tudo, mas a íntegra está aqui):
Pode ser que se esteja desenvolvendo por lá uma nova civilização, temor que já expressei aqui outras vezes. Sim, claro, não se deve generalizar, não é? Certamente, entre os 12 mil estudantes, há os que não estão aptos a encarar os nossos ancestrais e não endossam aquela estupidez. Mas expresso o receio de que alguns já tenham chegado lá.
Por incrível que possa parecer, nesta terça-feira, boa parte dos, como direi?, estudantes parou suas atividades para aguardar o prometido retorno da jovem Geysi Arruda, aquela do vestido vermelho, o que acabou não acontecendo. Muitos deles posaram para fotos com nariz de palhaço e organizaram um protesto. Contra quem? A maioria estava mesmo contra Geysi. Uma das alunas filosofou: “Ela provocou. Se ela apenas sentasse na cadeira, isso não ia acontecer. Por que justamente nesse dia ela subiu pela rampa?” Como se nota, subir a rampa de vestido curto, e vermelho!!!, pode resultar em linchamento na Uniban.
Um dos organizadores do protesto exibe assim o seu pragmatismo: “Eu quero limpar o nome da universidade em que estudo. Eu não fiquei três anos sentado para conseguir meu diploma e ver ele manchado por causa de uma palhaçada”. Ele acredita que essa nova manifestação limpa o nome da faculdade…
[...] quero aqui lastimar uma entrevista do “psiquiatra e educador” Içami Tiba, colunista do UOL, que afirmou, numa entrevista em vídeo, que a roupa da Geysi era mesmo inadequada, sugerindo que ela despertou, digamos, os instintos sexuais primitivos da rapaziada, que então reagiu. No dia em que morre o antropólogo Claude Lévi-Strauss, Içami parece não ver muita diferença entre um bando de homens e um bando de chimpanzés, que costumam estuprar as macacas de outras comunidades em grupo.
Quero saber qual é o embasamento teórico do que ele diz. Os estupradores estão em todos nós? Todos somos potencialmente assassinos? Desejamos secretamente matar o nosso pai para ficar com a nossa mãe? Tivemos um medo inconsciente de que ele cortasse o nosso pirulito, antes que virasse um potentado? Pois é… Uma coisa é traduzir Freud para as massas sem lhe retirar a complexidade. Outra é transformar tudo em pílulas de falsa sabedoria. A única coisa decente que um psiquiatra tem a dizer nesse caso é o que também diria um médico, um dentista ou um padeiro: cometeu-se um crime na Uniban. E não há psicologia que possa amenizar o que lá se deu. O nome daquele crime é intolerância. Ora, o racismo também tem raízes psicológicas; a misoginia — ódio à mulher — está inscrito no inconsciente de muita gente. Ocorre que a civilização se encarrega de reprimir a besta que há em nós. Içami Tiba está é piscando para a besta. E para as bestas. Se é para falar da adequação da roupa de Geysi, que tal chamar uma consultora de moda?
A direção da Uniban disse que, até agora, não conseguiu identificar os responsáveis pelo ocorrido. E ousaria dizer que nem vai. Nota-se que há, arraigada por lá, uma cultura da intolerância e uma relação com o curso que está mediada apenas pelo pragmatismo: “Estou aqui para pegar o meu diploma”. Posso compreender esse sentimento e até enxergar nele uma virtude: a clientela está empenhada em obter o grau para, quem sabe?, subir na vida, ter aumentado o seu salário, ser promovida.
Temo, no entanto, que boa parte das ditas universidades brasileiras esteja se reduzindo a isso, sem qualquer outro cultivo. Reitero: o respeito à inviolabilidade do outro é questão de princípio, inegociável. Geysi é uma garota pobre, da periferia de Diadema. Trabalha, ou trabalhava, num mercadinho do bairro. É visível que não tem grande traquejo social. Nota-se isso na sua fala, na sua gramática. Vem de um estrato da sociedade em que, atenção!!!, a tolerância com a diferença já não é a marca. E isso vale também para boa parte de seus colegas.
Não serei eu a combater a expansão do ensino universitário. Seria inútil. Os demagogos venceram essa batalha. É evidente que a formação técnica seria mais eficiente e barata. Mas deixemos isso para outra hora. Que se expanda, então, o ensino universitário, hoje com a ajuda do dinheiro público. Mas com que qualidade isso está sendo feito? Eis a questão. NÃO SE ESTÁ BARATEANDO A UNIVERSIDADE EM SENTIDO MAIS AMPLO?
A Uniban — e outras universidades do mesmo nível — estão proporcionando à sua clientela uma vivência estudantil que seja distinta do ambiente de onde vieram? Um ambiente nem sempre tolerante; um ambiente nem sempre respeitador das diferenças; um ambiente nem sempre voltado para o cultivo da reflexão; um ambiente nem sempre afeito a delicadezas e matizes, sem os quais não se respeitam direitos individuais…
Esse é o problema. Estamos diante de um óbvio mal-estar. E reitero que só não há uma comoção nacional porque a garota não se enquadra em nenhuma dessas minorias de manual. Se fosse lésbica e tivesse beijado uma namorada, teria sido certamente hostilizada, mas, ao menos, as lésbicas teriam corrido em seu socorro. Se fosse negra e tivesse comparecido nos mesmos trajes, teria sido hostilizada, mas lhe teria restado a alternativa de denunciar “racismo” — e a secretaria federal que cuida do assunto teria ido em seu socorro. Mas ela é só o pior tipo de desassistido que há hoje no Brasil: mulher, branca, pobre e heterossexual. Ou seja: ela é o verdadeiro negro do Brasil. E ainda usa minissaia? Aí já é demais, não é? Como diz aquela garota, quem mandou ela subir a rampa? Santo Deus!!! E antes que os chimpanzés leiam errado o que escrevi, observo: aquela manifestação é inaceitável com qualquer um: lésbica, heterossexual, preta ou branca. [...]
Houve um tempo, e havia certa ilusão naquilo, em que a universidade sonhava poder elevar o padrão de civilização das ruas; hoje, são as ruas que rebaixam o padrão das ditas universidades. “O povo é isso aí, Reinaldo”. Não lido com essa categoria, vocês sabem. O povo não me interessa. Os indivíduos, sim. Por isso, não sei se ele é assim ou assado. [...]
Da barbárie e caímos direto na decadência. Não deu nem pra sentir o gosto de nada.
- A terceira foto, e que de alguma maneira me levou a escrever novamente, tunguei lá do Betinho (Pensamento Nebuloso, links).



Se as vestes da moçoila não estavam de acordo com o que se espera em matéria de comportamento dentro de uma instituição de ensino, caberia a direção da entidade tomar atitudes para regularizar a situação sem maiores traumas para ambos os lados.
Acontece que.
Se a direção da universidade criar regras de conduta será chamada de conservadora, atrasada, truculenta, etc.
Se a direção da universidade punir a jovem barangueta, pelos seus trajes poderá ser processada por discriminação e abuso de poder.
Se a direção da universidade se faz de “morta”, os alunos “indignados” começam uma caça as bruxas e quase lincham a estudante.
Então, o que fazer?
O problema maior no caso da jovem foi o comportamento de gado que assomou os estudantes.
Algum zé mané começou o oba-oba e a maioria foi bovinamente na onda.
A hipocrisia é tamanha entre os alunos que chega a ser patético, um aluno assistir aulas bêbado ou drogado pode, de mini saia não.
Fazem vistas grossas para o consumo desenfreado de maconha nas instituições, nas esquinas, nos banheiros, nos pátios, mas fiscalizam uma mini saia.
Os valores estão invertidos e os estudantes mostram o quanto o futuro do BRAZIL está em boas mãos….
Agora, quanto aos bons dias e boas tardes nos elevadores, balcões, recepções, no dia a dia…isso é reflexo do comportamento da média do brasileiro, eu estou cansado de dar bom dia, e etc, agradecer por alguma coisa e ficar no vácuo, sem resposta, e muitas vezes sem ao menos ser olhado pela pessoa que me atende.
Isso é arrogância, uma doença crônica no Brasil, quanto mais pobre ou ignorante, mais arrogante.
O povo só quer ter, e não ser.
Aí, cansei dessa gente, Fernando. E note que nem falo de pobres ou ricos, nem nada. A botocudice é geral. Ando tão sem paciência com gente chinfrim que nem bate-boca vale mais a pena. Corto, ignoro e pronto. Ah, vão todos pro inferno…
Universidade? Isso não existe mais…
…universidade era no meu e no seu tempo, quando existiam em Curitiba 3 cursos de direito e 3 de odontologia e 3 de medicina, e em São Paulo, no máximo 5 de cada. Depois da reforma universitária de FHC e caterva de bandidos universidade virou piada, qualquer pascácio consegue esse título contratando meia dúzia de doutores e passa a arregimentar todo tipo de escumalha para distribuir diplomas.
Universidade em qualquer lugar decente é espaço para elite intelectual, gente que vai para lá de regra para estudar e uma meia dúzia que vai para fazer política.
Hoje no Brasil, universidade é como colégio, todo mundo cursa, todo mundo sabe que será aprovado no final de cada período, ninguém mais se preocupa em estudar, até porque nos colégios vige há muito tempo a regra: se é público, tem que aprovar o aluno porque ele é carente e não tem culpa de ser burro, se é privado, tem que aprovar o aluno porque os pais dele pagam a mensalidade e não têm culpa de ele ser burro.
Quandoeu digo que no Brasil não há mérito, ou seja, quem se esforça é otário de carteirinha, é justamente porque quero dizer que isso é uma fábrica de botocudos e do jeito que as coisas andam, não dá muito tempo estaremos trocando uga-ugas uns com os outros e vivendo em cavernas, que o que acontece quando se dá direito demais a idiotas!
Com todo respeito (o assunto já passou para a minha página 5), que belas mulheres temos na primeira foto, hein?
Odete Lara, Tonia Carrero, Eva Wilma, Cacilda Lanuza … A esquerda tinha seu charme, então …
Hoje? CREDO!!
Não consigo parar de ter nojo com esse papo de “traje inadequado”, como se esse fosse o cerne da questão. Mas insisto: numa sociedade cada vez mais nhambiquara, o que eu posso fazer é, egoísta e arrogantemente, com muito orgulho, querer distância dessa gente. Vou terminar só, mais enfiada em casa do que já sou. Hirc! Hirc! Hirc!
É, Maria Edi, deveria ter passado pra mim tb. Mas continua me incomodando, porque a garota, pelo jeito, perdeu seu direito de ir à aula, por estar em meio a um monte de trogloditas. Não me conformo nem com isso, nem com o geralzão dessa coisa que o RA falou, essas pequenas gotas de sabedoria de autoajuda de programa vespertino pra donas de casa tapadas.
E foi isso mesmo que quis mostrar nas fotos: um charme que nem bem veio, já se foi. A vocaçção do Brasil é ser Cucamonga mesmo…
Se alguém tinha alguma dúvida sobre o tipo de cidadão que se forma com uma educação que estimula, cobra e promove o pensamento e o crescimento do indivíduo, e o tipo de cidadão que se forma com o sistema onde só é necessário marcar presença, esta é a resposta.
E o resultado é rápido. Apenas 15 anos da minha geração pra esta e ja colhemos os frutos.
E essa gente está prestes a reproduzir. Sim, porque eles acham lindo esse negócio de quartinho cor-de-rosa e quadrinho de MDF na porta da maternidade.
Isso aqui vai numa desabalada carreira ladeira abaixo, Lets. As pessoas perdem o mínimo de civilidade, ao ponto de quem diz “bom dia”, “Obrigado”, “por favor”, “com licença”, ser a exceção.
Veja no ponto da Dr Arnaldo a turba que toma o ônibus pra USP: nunca cedem a passagem para um idoso, uma mulher mais velha que eles, uma pessoa com embrulhos ou sacolas. O negócio é ser “ixxxpééérrto”, como o célebre comercial.
Ricardo, sabe como é entre os semiarborícolas: o eleito da família que estuda, ou o que trabalha, tem prioridádji…
Eu já fico pasmo ao corrigir testes para estágio (uma singela “redaçã”) dessas criaturas de “Uni-qualquer-coisa-basta-pagar-que-o-canudo-vem”, devido a coleção de pérolas, por exemplo, “atravéz”, “aja o que ouver”, “meus pais ‘luta’ até hoje para ‘mim’ ter meus estudos” e coisas do naipe. Mas este episódio é algo que beira o surrealismo. Pra mim, mais surreal ainda foi o tal “protesto” dos “universsotários” indignados com a ausência da menina, afinal Geysi e seu microvestido do mal mancharam o sacrosanto nome da “universidade” e do futuro “deproma” pago em suaves prestações via Fies. Essa gente não deveria nem ter saído do ensino fundamental, embora educação, respeito, traquejo social não se aprende só na escola, mas, principalmente, em casa, com a família.
Esse “comportamento” não é e jamais será restrito, infelizmente, a essas “Univerçidades”.
Em 1978 uma de minhas irmãs formou-se professora e entrou em Pedagogia curso noturno na UFSCar em São Carlos, arrumou um emprego como professora substituta na prefeitura e assim como suas colegas de curso trabalhava muito durante o dia todo e iam a faculdade a noite.
Ela e algumas amigas motaram uma bonita república, limpinha, arrumadinha, vestiam-se bem para o padrão “bicho-grilo” e muitas vezes iam direto do local do trabalho para a escola, já que o campus era fora da cidade e com pouquíssimos ônibus a noite.
O “pissoal” da greve não se conformavam que elas estavam lá para estudar e seguir uma carreira, elas sofriam todos os tipos de humilhação, tiveram a sala de aula várias vezes invadida, meus pais na época decidiram mudar para o interior para garantir a “integridade” física e moral de sua filha.
Depois fui aluna essa “instituição” deixei o curso por perceber que a maioria estava lá para garantir suas “bolsa-aluno-profissional” e nem um pouco interessada em estudar.
A falta de educação e geral, morro de rir quando vejo propaganda por aí dizendo que o “brasileiro é um povo amigável, recepitivo, aberto…”, já viajei muito e pretendo viajar mais, nunca estive num lugar onde as pessoas são tão maltratadas como aqui no Brasil.
p.s. no outro post deu a impressão que a só a moça estava precisando de pais para ensina-la a se comportar nos lugares. NÃO essa não é minha opnião, todos precisam.
Se meu filho ou algum dos meus sobrinhos praticarem atos iguais a esses que os “UNIBAN-didos” praticaram contra essa moça, pagarão o maior mico. Vou buscar pelas orelhas.
Marcelo, “…educação, respeito, traquejo social não se aprende só na escola, mas, principalmente, em casa, com a família”. Quem tem tem, quem não tem é muidifícirr… E falando em “aja o que ouver”, logo logo posto um flozô que recebi esses dias.
Malu, universidádji, principalmente as UF e PUCs da vida, é classe social. Não se liga necessariamente a um troço chamado estudo, que desembocaria em trabalho.
Pois é… a menina acabou sendo expulsa… que final mais ridículo pra isso tudo. Tomara que ela consiga uma mega reparação $$$ na justiça…
Richard, tomara mesmo que ela se vingue por essa via, e não outras…
Antevendo a manifestação, ela foi readmitida. Mas foi engraçado ver a manifestação contra a intolerância com pessoas completamente despreparadas para discursar para uma platéia hostil. Eu diria que foram muito intolerantes ao microfone.
Ai, eu também achei, Eduardo! Quando você acha que sabe por que a pessoa está ali, protestando, vem essa vergonha alheia… Não dá nem gosto de postar sobre, acabo pulando…