A fantasia de Arafat

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Finalmente chove nesta aldeia. Foi um tequinho de madrugada (me contaram) e mais tarde chove pra valer. Menos mal, porque estava um drama mexicano, e agora está mais fresquinho.

Por isso uma série de programinhas estão suspensos, e escrevo agora algo que estava programado para mais tarde.

Não sei se é a profissão, ou sei lá, mas insisto na ideia de que é preciso entender e dominar o mínimo da própria língua para fazer qualquer – QUALQUER – coisa.

Dominar a própria língua não inclui pequenos e comuns probleminhas, como crase, porque junto, por que separado, porquê junto com acento, por quê separado com acento,  ortografia espinhosa, alguma distração de concordância, muito menos erros de digitação ou diferenças regionais. Isso é patrimônio do nosso cotidiano, e desqualificar alguém por causa de minúcias é estupidez e ignorância das grossas.

Só que rola um limite nisso tudo, né? Reinaldo Azevedo posta aqui o comentário de uma moça que confunde alhos com bugalhos. Ela afirma com veemência que será uma boa profissional porque assim o deseja, independentemente de haver problemas X e Y aqui e ali. Concordo com ela e faço votos sinceros para que assim seja. Mas custo muito a crer que alguém que não tem noção nenhuma de pontuação consiga entender razoavemente qualquer texto fora do miguxês trivial. E mais: fico imaginando a disposição da pessoa em recusar atalhos na vida se usa tantas abreviaturas. Mais ainda: como é que conseguirá um bom emprego se não distingue o meio em que está se expressando?  Comentar em MSN é uma coisa. Em um blog conhecido é outra.

Em suma: o domínio da língua  caminha passo a passo com o treino no pensar e a capacidade de entendimento. Nem que o cara resolva estudar dinâmica de materiais. Precisa saber ler e escrever.

Outro dia Periquito Augusto, numa situação de tomar remédio, em que se viu cercado da ditadura dos adultos (e que tanto dói no coração de uma tia descompromissada), fez sobressair sua voz num indignado “Mas eu não sei o que é “efeeeeeito”!!!!! A mãe,  prática, explicou que “remédio fazer efeito” é quando ele funciona. Ponto.

Ele teve certa aflição em não entender por completo o que estava acontecendo. Por causa de uma palavrinha que ele ainda não havia ouvido, ou, mais provavelmente, ainda não tinha  prestado atenção.

Feliz fiquei. Um, por ele ter necessidade de saber o que acontece. Dois, por se interessar em detectar e desatar o nó górdio de sua incompreensão. Este é um camaradinha que merecerá, um dia, ganhar um dicionário.

Fico tão feliz  que vai crescendo com vocabulário, com entendimento das coisas mais sutis, com suas pequenas malandragens, e entendendo e adotando todos os chistes da família (que nem todo adulto alcança, ê ê!).

E rezo de joelhos para ele continuar assim. Ficaria muito desgostosa se ele tivesse de, um dia, topar com material didático das Uniqualquercoisa da vida.

Andei trabalhando com uns livros desses e, olha, vou te contar! Pagar uma nota de mensalidade pra fazer revisão tatibitati do que deveria ter aprendido no ensino médio não é precariadade do ensino. É roubo mesmo.

  • Esse texto caiu no meu colo no meio do ano. Ninguém sequer estranhou o “monte Arafat”. Nem o autor, nem o editor, nem o revisor, nem o professor, nem o aluno. Corrigi por piedade essa e outras pérolas (não fazia parte do meu trabalho; era só revisão ortográfica, casuísmo inútil que, por sinal, me deixou multimiliardária).
  • O título do post eu botei agora. É que Perikaits Augustus  gostou de uma fantasia à propos que fiz pra ele e, na hora H, a professora perguntou o que era aquilo e nem soube arrumar o lenço…  É pra desistir. Não do menino, mas do resto da humanidade.
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6 Responses to A fantasia de Arafat

  1. Maria Edi says:

    Isso, porque o pessoal gostava muito do Yasser Ararat, cê num intendji?
    Que?, O Perikitus Augustus foi fantasiado de árabe?? De palestino??

  2. Ricardo says:

    Periquito é mesmo uma figura ímpar.

    Fora isso, profundo desânimo com a humanidade…

  3. Leticia says:

    Era coisa simples, Maria Edi. Um lençol com um buraco no pescoço, um lenço estampado marromenos característico, uma faixa de papel-cartão pra cabeça e um óculos de sol. É pedir muito? A muié não entendeu nada!

    Quando nos virmos, Ricardo, te conto as coisas de Periquito Augusto.

  4. malu says:

    Recentemente, na minha peregrinação pelas “escolas campeãs” do Rio de Janeiro, em busca de uma vaga para o meu filho, deparei num livro de gramática com a seguinte frase:
    “A borboleta posa(sic) na flôr….”

    Isso para não falar da “introduçao” das redações que eram de chorar.

  5. Leticia says:

    Ah, eu tenho a minha memorável tb. Malu: “A larva do vulcão”, by professora do meu sobrinho (hoje com 22 e saído ileso, toc, toc, toc!).

  6. Maria Edi says:

    “Larva do vulcão”?
    Letícia, tu tá de má vontade, hein?
    O autor da “preciosidade” estava pensando da “lava” da borboleta …
    Caramba, que droga, tratar com gente qui num intendji!
    Beijos!!

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