Epistemologia do deslizamento

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Estava eu hoje pela manhã realizando coisas grandiosas em prol do meu lar e a tevê estava ligada. Na Band, cobertura ininterrupta dos deslizamentos de ontem: em Osasco, acharam hoje os corpos das três crianças cuja mãe já tinha sido achada ontem. Sobe assim para seis o número de vítimas fatais da chuva de ontem.

E é bom de ver essas coisas porque você analisa. Os entrevistados falavam coisas mais ou menos assim:

– É, a gente ficou preocupada ontem – eu não dormi essa noite -, fui com as crianças pra casa da minha sogra.

– É, porque a gente aqui, a Prefeitura não olha, não tem nada aqui, a gente é que fez esse asfalto, porque antes era uma lama.

– A gente espera que a Prefeitura tome uma providência. Inclusive eu queria agradecer ao vereador fulano de thal pelo envio da cesta-base, e blá blá blá.

Detail: esses barracos já haviam sido condenados pela Defesa Civil. Há uns meses os moradores foram aconselhados a sair dali. Um conjuntinho para abrigar não sei quantas daquelas famílias já está em construção, por iniciativa da Prefeitura (de Osasco ou Barueri, não tenho certeza).

Mas os barracos que foram esvaziados depois do alerta da Defesa Civil já tinham sido recentemente reocupados por novas famílias, vindas não sei de onde.

Já disse uma ou outra vez: sou completamente contra a expansão da infra-estrutura em grandes cidades para atender novas levas de migrantes.

Acho muito bonito que São Paulo seja uma metrópole pujante, e tal, feita com o trabalho de pessoas que vieram para cá ter uma vida melhor. Mas daí a coisa virar uma indústria, não dá.

A gente morre de pena de ver mortes assim? Claro, ninguém é de pedra.  Mas um pouco de raciocínio e menos pieguice vai bem: o problema não está na dificuldade que as Prefeituras de grandes cidades têm em abrigar toda essa gente, que, sabe-se de antemão, não tem nada a oferecer em troca. O problema é saber que raio de vida o Estado ofereceu a elas em seus lugares de origem a ponto de elas se submeterem a vir pra cá viver nessas condições.

E, diga-se de passagem, aqui em São Paulo, virar um reclamante profissional – muito bem assessorado por políticos sem-vergonhas – dá muito mais retorno do que clamar no meio do deserto, em lugares  de origem em que, sabe-se, o Estado não liga a mínima para a pobreza alheia.

Lá, de onde essas pessoas vêm, elas não ganham um tijolo sequer. Aqui, com jeito e bem encaminhado nos meandros da tensão política, você consegue casa, auxílio-isso, bolsa-aquilo e leve-leite, com a vantagem de estar bem perto de tudo o que uma cidade grande oferece, sem ter de dar nada em troca.

Então é isso: São Paulo dá um caldo, e é para lá que eu vou. Na maior parte das vezes, vale a pena.

  • Foto: (Felipe Araujo, AE): viver na pirambeira é ótimo na maior parte do ano. Um trampolim para um CDHU básico, sem mover uma palha.

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8 Responses to Epistemologia do deslizamento

  1. Fábio Mayer says:

    Se estavam condenados pela Defesa Civil e teve gente que invadiu de novo, essa gente é a responsável.

    Se morreu um filho de qualquer um deles, os pais devem ser responsabilizados criminalmente por homicídio culposo.

  2. Fábio Mayer says:

    E mais, se os juizes dessa m… de país não fossem uma m… além de condenar criminalmente impunham multa no valor dos estragos que essa gente causou para a cidade.

  3. Leticia says:

    É uma droga esse vai-não-vai, né, Fábio? A gente sabe que as pessoas são espertinhas, mas no fundo são umas trouxas. Em matéria de punição, o que me vem na cabeça é a cara do Sarney e seu condado que deliberadamente não vai pra frente.

  4. Fernando says:

    Você foi brilhante na análise.

  5. Leticia says:

    Obrigada, Fernando.

    Ando tão atrapalhada que só posso creditar o elogio a sua gentileza.

  6. Ricardo says:

    Por mais triste que seja ver essas cenas, não dá pra simplesmente deixar que a emoção encubra a análise real da coisa, assim como vc fez.

    Pois é como falamos: os imigrantes que fugiram da miséria de sua terra natal não chegaram aqui invadindo terrenos nem botando fogo em bondes. Na verdade, chegavam devendo até as ceroulas, pagavam aluguel, economizavam o que podiam na Caixa até poder comprar sua casinha (as vezes a primeira de muitas).

    Nao tiveram bolsa, nem financiamentos nem casa de presente. Trabalho, esforço, privação.

    E falo isso com conhecimento de causa.

  7. marcos says:

    Para o Sr. fábio
    Vc fala assim porque certamente nunca passou fome, nunca morou debaixo de uma ponte. Vc é doente, hipócrita e sarcástico e digo mais , vc ao analizar algo tem que sair do seu estado de conforto e passar a viver o que esses retirantes passam. Eles passam por tudo : humilação, fome, sede mas não conseguem passar pelo crivo da língua maldosa daquele que só encherga o seu EU. Aqueles assim com vc

  8. Leticia says:

    Ich! Declaro oficialmente aberto o final de semana…

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