Análise sintática com sujeito orkut

Vi com atenção o vídeo que Tia Cris postou com a entrevista de Demétrio Magnoli ao programa Milênio, da Globonews, sobre seu novo livro, Uma gota de sangue.

E tive, assim como a Cris, a nítida impressão de que a entrevistadora entendeu chongas do que ele quis explicar…, menos por incapacidade e mais por ter se treinado em conceitos mais simplificados da coisa.

Em resumo, Magnoli diz que políticas afirmativas são, na verdade, a reiteração de um racismo. Em outras palavras, tenho mesmo de ajudar a raça X porque, sem minha benevolência, ela não consegue ir pra frente. Mais racista que isso, impossível.

E vê com positividade o fato de cada vez menos brasileiros se afirmarem brancos ou pretos, e que o critério da gota de sangue usado pelos americanos não nos interessa e nunca interessou, naturalmente. Se há, no momento, no país, um movimento isoladíssimo (mas de grande repercussão) de querer definir uma pessoa a partir de um ascendente da raça X (o que seria impossível, porque todos nós o temos muitíssimos e variados), isso é de um racismo terrível. Se, por exemplo, tenho entre meus antepassados alemães, índios, portugueses e negros, por que justamente destacaria como critério minha ascendência negra  (para conseguir uma vaga na universidade, p. ex.) e relegaria as outras? Isto é racismo.

Será que isso é tão difícil de entender? Acho que não. Embora o linguajar acadêmico (ainda mais quando ele se tem como um fim em si) tenda a me dar sono, não posso rechaçar tudo o que ouço em linguagem acadêmica, porque há coisas na academia que me interessam, e muito.

Portanto, também considero de um “racismo” terrível essa gracinha que Moema me mandou semana passada:

Pesquisadores da USP de São Carlos estão criando ferramentas capazes de reduzir a complexidade linguística dos textos, substituindo palavras raras (menos frequentes) por palavras mais usuais e dividindo e reorganizando orações longas e complexas.

O objetivo dos programas PorSimples e Facilita é simplificar a leitura de textos em português disponíveis na internet e, com isso, facilitar a compreensão das informações para crianças e adultos em processo de alfabetização ou pessoas com algum tipo de deficiência de leitura.

Já o editor Simplifica é voltado para produtores de conteúdo (escritores, professores, webmasters, jornalistas, por exemplo) que desejam criar textos simplificados adequados ao mesmo público.

Bem, o mundo acabou mesmo. Se o próprio release tem a necessidade de explicar que palavras raras é o mesmo que palavras menos frequentes, e assume que, para um texto ser entendido deve ser escrito em tatibitate tardio, é pra esquecer tudo mesmo e se dedicar com afinco a um curso de decupagem com motivos matinais em caixinhas de mdf.

Mamãe costuma dizer, quando andamos de metrô, que logo logo aparecerá um aviso orientando o usuário sobre como deve andar – um pé na frente, o outro atrás – de tanto que há cartazes idiotas em suas dependências e nas composições: não fume; assento reservado aos idosos; espere as pessoas saírem para poder entrar; mantenha-se atrás da faixa amarela…

Essa crescente consideração de que o povo é idiota e de que os conceitos a ele apresentados devem ser os mais básicos possíveis é um precedente perigosíssimo: periga um dia ele se tornar assim mesmo.

(Desculpem a pressa e a aparente mistura de assuntos. Estou atrapalhada com o tempo.)

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19 Responses to Análise sintática com sujeito orkut

  1. Maria Edi says:

    Leticia,
    quando eu ainda trabalhava no BB (e ele ainda não era uma sucursal com dinheiro do “partido”), eu escrevia para o “house-organ” do cilindrão da Marginal, que ficava atrás do Carrefour. Certa vez, o editor do jornal me chamou e disse que eu devia escrever mais fácil, porque o pessoal poderia não entender essa ou aquela palavra. Minha resposta?
    “Não escrevo mais, se as condições forem essas. Que procurem no dicionário, oras!”
    Bem Maria Antonieta.
    SIMPLIFICAR? No estudo?? JAMAIS!

  2. Moema says:

    Como disse no email, tenho serias duvidas sobre esse programa. Tudo bem que se destina aqueles que estao no principio da alfabetizacao. Mas por experiencia propria sei que simplificar nao e´ajudar. Acho um tremendo preconceito achar que estes ou aqueles nao serao capazes de entender se o texto for mais elaborado. O que percebo em casa com meu filho concluindo a alfabetizacao e´que quanto melhor nos expressamos, menores sao as dificuldades dele. Quanto mais tentamos advinhar seus pensamentos, maiores sao as dificuldades com a transmissao de uma ideia. Foi assim quando estava aprendendo a falar e nao e´diferente agora aprendendo a compor textos. A vida e´simples, nao devemos complicar…

  3. Ricardo says:

    Ah, vai ser fantástico reler os clássicos, v.g, misturando os conceitos raciais e a “reforma” dos textos:

    Dom Quixote será um peão sem-terra, Quasímodo um portador de necessidades especiais apaixonado por uma representante de minorias perseguidas, Otelo um afro-descendente que entou na peça por causa das cotas raciais e o velho Scrouge um representante do capitalismo neoliberal. Fala sério! Ah, sim: Bentinho é corno e Capitu uma piriguete; tá bom assim?

    Pior que esses avisos do metrô estão cada dia mais tatibitate, e não adianta. As pessoas precisavam, antes de mais nada, aprender duas coisas: assimilar avisos e praticar o velhíssimo conceito de que meu espaço termina onde começa o alheio. Fora disso não há salvação.

  4. Leticia says:

    Maria Edi, até onde sei pra entrar no BB precisa de concuuuuurrrrrso. Então, se era pra simplificar o HO pro povo entender, fico imaginando pra quê o concuuuuuurrrrrso…

    Moema, ontem o Periquito ligou pra mim por conta própria, me contou uma coisa relativamente complexa, falou de algumas outras coisas, tudo com vocabulário adequado, se despediu e desligou. Criança não é idiota. Sou completamente contra essas idiotizações pedagógicas. É claro que tem de começar do começo, mas privar as crianças de desafios normais da vida, isso é o phim da picada!!!!

  5. Leticia says:

    Ricardo, educação é em casa. Depois disso, fica muito difícil, e o Estado gasta uma dinheirama inútil com esse beabá.

  6. Raquel says:

    Ricardo! adorei Otelo e as cotas raciais… onde se enquadraria dear Iago?

  7. Raquel says:

    Letcia,

    se acabou-se, indeed!

  8. cardoso says:

    Está instaurada a Idiocracia.

  9. Cassiano says:

    Não consegui ler o texto sem lembrar do clássico Admirável Mundo Novo… Parece que Huxley tinha razão…

  10. Ariadna says:

    Olá, Letícia!

    Bom artigo! Precisamos assistir a tudo isso que vem acontecendo impassíveis? Por Deus! O que vem acontecendo no Brasil é um “emburrecimento” coletivo, uma “idiotização” em massa! Algo, como diria o nosso ilustre Presidente, jamais visto na história do Brasil…

    Mas não sei por que me surpreendo, afinal, em que pesem os acertos que ele fez, especialmente nas finanças do país (O Brasil pagou o FMI e foi o país menos abalado pela crise econômica mundial, talvez porque já vivêssemos em crise mesmo) elegemos um presidente semi analfabeto, que tropeça nas letras, derrapa nas palavras e se orgulha do seu pouco estudo…

    Ele, porém, não tem nada de burro e nem de idiota, pelo contrário, afinal chegou à Presidência da República! Ora, se ele consegue dirigir o país, por que, então, subestimar a capacidade das pessoas em entenderem aquilo que lhes é transmitido de forma tradicional?

    É um paradoxo: Um semi analfabeto tem competência para dirigir um país, mas um aluno principiante não tem capacidade de aprender palavras pouco usadas? O que é isso? É para isso que existem dicionários, ou querem também acabar com algumas palavras só por que são pouco usadas? E mais: Pouco usadas onde? Quais os critérios? Há palavras pouco usadas no sul que são muito usadas no nordeste e vice-versa;

    Ora, valha-nos Deus! Tirem esses fabricantes de débeis daí, antes que nossas crianças sejam transformadas em adultos autômatos, incapazes de pensar e agir, assim como estão transformando-nos em racistas ao cuspirem e pisarem no artigo 5º da Constituição Federal sem que nada ou quase nada façamos para impedir. É revoltante!

  11. Leticia says:

    Cardoso e Cassiano, lembra quando a gente reclamava das edições ricamente ilustradas?…

    Ariadna, cá pra nós, o Lula só conseguiu pagar o FMI (intempestivamente, diga-se de passagem; poderia ter deixado pra depois) porque o governo anterior preparou o terreno.

    O emburrecimento coletivo nem é culpa isolada do Lula, não. É o continente a caminhar…

  12. Creio que poucos entenderão o que Demétrio Magnoli está querendo dizer. Inclusive creio as opiniões dele serã mal interpretadas. Faz alguns meses ele esteve em uma mesa redonda na Band e foi difícil ele se explicar para alguns participantes, uma pena…

  13. denise bottmann says:

    “pessoas com algum tipo de deficiência de leitura” – se não tinham, vão passar a ter.

  14. Juliana says:

    As pessoas tendem a se acomodar quando as coisas são faceis de mais.

  15. Leticia says:

    Evandro, acho que vi esse programa. Naquele caso, não sei o que seria pior: os caras não terem entendido mesmo ou terem fingido que não entenderam. Projetinho de poder…

    Conceito amplo, né, Denise?

    Concordo, Juliana. Se acomodam e se retardam.

  16. Maristela Guedes says:

    Quem tem filho pequeno que cuide dele… O que as escolas estão fazendo é isso aí: facilitando e empurrando com a barriga.
    A meninada tem muita ocupação e pouco conteúdo. Estão cansadas de tanto compromissos, imagina isso!
    Parece que vem uma ordem “de cima” que diz: “povo burro é povo bom”. Grosseiras palavras, mas, como traduzi-las com delicadeza??

  17. Leticia says:

    Tem razão, Maristela. É tanta atividade lúdica que a coitada da criança não tem tempo pro essencial.

  18. Fernando says:

    Leticia, achei inacreditável que uma pesquisa dessas tenha saído da USP…
    Fiz um post sobre o assunto e até pus seu comentário por lá, que achei demais.
    Espero que vc não veja inconveniente nisso.
    Abraços
    Fernando

  19. Leticia says:

    Fernando, fique à vontade. Imagina, nem precisa pedir, oras, você é de casa!

    E, mais uma vez, obrigada por seus elogios!

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