O falecido…

rafaella

Uma das coisas mais terríveis do comportamento humano – a meu ver, é claro – é o que se chama pelo chiquetésimo nome de “alienação parental” – criado na década de 1980 nos EUA e que, parece, só agora chegará aqui de maneira mais ampla.

Tulio Sergio postou matéria de Martha Mendonça (Época),

O número de casos de alienação parental no Brasil e a grita dos pais chegaram a um nível tão alto que provocou o Projeto de Lei 4.053/2008, que no último dia 15 foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados. O projeto, de autoria do deputado Régis Oliveira (PSC-SP), define e penaliza a alienação parental: o genitor que tentar afastar o filho do ex pode perder a guarda e, se descumprir mandados judiciais, pegar até dois anos de prisão. Há outros sinais de inquietação da sociedade com o assunto. Desde abril está sendo apresentado por todo o país o documentário A morte inventada. O filme, do cineasta carioca Alan Minas, de 40 anos, revela o drama de pais e filhos que tiveram seu elo rompido após a separação conjugal, além de apresentar a opinião de especialistas. Jovens falam de forma contundente e emocionada sobre como a alienação parental interferiu em sua formação. Pais dão testemunho sobre a dor da distância. Diante do inferno em que se transformaram suas vidas e da impotência diante disso, muitos desistiram – o que costuma ser o pior desfecho.

Sei não. Será que resolve com uma simples lei? O civilizado termo joga um spray dourado num comportamento relativamente comum nos casos de separação (separação, divórcio, o que for) de casais: um dos cônjuges faz a caveira do outro junto aos filhos, a ponto de lhes gerar mágoa, ressentimento e ódio, às vezes pela vida inteira.

Cansei de ver casos assim – e todos casualmente com mulheres, o que creio ser o mais comum.

Bem, simplesmente não entendo: uma noite você dorme com o home da sua vida e no dia seguinte ele se transforma automaticamente num cafajeste.

Não que as pessoas devam ter uma bola de cristal na primeira paquerinha. Mas, se o parceiro conseguiu desenvolver uma estrutura de confiança e intimidade com o outro a ponto de ter filhos, a questão vai além de um simples engano, decepção, raiva por um eventual abandono: significa que é prática comum se jogar de boca aberta na relaçã e ter filhos com o primeiro par de belos olhos que encontra pela frente.

E também significa que o fato de ser mãe não dá poderes mágicos a ninguém de adquirir valores acima do mero egoísmo.

Dirão os homens: mas eu não sou mau-caráter, aquela mulher é que é louca!

Verdade. Para cada dez cafajestes – os de fato – há dez ex-maridos inocentes, que tiveram sua imagem virada na de um monstro no ambiente doméstico que sobrou daquela família: a ex com a guarda dos filhos, o arranjo comum em casos de separação.

Dirão as mulheres: mas ele mudou de comportamento, não dá dinheiro pra isso e aquilo…

Também é verdade. Há os que veem os filhos como etapas queimadas. Mas também acredito que o boicote vem, muitas vezes, depois de todo um histórico de chantagem financeira-emocional, acomodação doméstica, do tipo “não vou me mexer pra nada, agora ele vai ver, não vai lhe sobrar dinheiro pra manter uma piranha, e blá-blá-blá.”

Sou muito caxias com essas coisas. Primeiro, saber se realmente quer filhos. Não naquele durante o romantismo dos lençóis; na vida mesmo. Segundo, saber se ambos os conjuges têm condições de bancá-los. Em pleno 2009, considero no mínimo inconsequente que qualquer pessoa – homem e mulher – resolva botar uma vida no mundo sem estar individualmente estabelecido, com um mínimo material. E terceiro, separação não é grid de largada para a pessoa se lambuzar na barbárie, no pior do ser humano.

Aos cônjuges que, mesmo com o eventual o mau-caratismo oposto, ainda consegue manter um ambiente civilizado junto aos filhos, meus sinceros parabéns, porque não é fácil passar por cima de mágoas naturais, mas que nada têm que ver com a goiabada filharal.

Aos “ex” profissionais, que criaram filhos como inimigos dos pais, num bordadinho muitas vezes safado, diário e incansável, não há lei que não possa ser driblada. Mas que é um comportamento pavoroso (mesmo que argumentos haja de sobra), ah, isso é!

  • Foto (da matéria do link): Rafaella, exemplo do estrago que se pode fazer na cabeça de um filho: aos 29 anos ela percebeu a manipulação da mãe. Sorte dela. Há os que passam a vida comprando o egoísmo alheio, e adotam, com relação ao pai, a referência clássica usada no título deste post.
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8 Responses to O falecido…

  1. Fábio Max says:

    É fato, é o que pode acontecer com quem faz filhos sem pensar, e isso, Lei nenhuma altera.

    Minha experiência forense me leva a crer que tem muita gente que vê no filho, uma parte do relacionamento que virou fumaça e por isso, tende a esquecê-lo (o filho) e tentar tirá-lo de sua vida. Isso explica pais e mães que somem e deixam o filho sob a guarda do que sobrou, negações exaltadas em pagar pensão alimentícia e perseguições por ela, indo todos os dias no forum pedir a prisão do pai ou mãe que não a paga.

    Hoje em dia, o conceito de familia está mudando. Antigamente o fator genético era preponderante, hoje, a relação afetiva está tomando esse lugar, de tal modo que, com aquelas pessoas sensatas envolvidas, é possivel que um padastro ou madastra consiga até pátrio-poder, por ter um relacionamento melhor com o menor, que o pai biológico.

    Agora, infelizmente, sempre vai haver aquele homem ou aquela mulher a DESPREZAR os filhos de relacionamento anterior, isso nem a lei nem a jurisprudência mudam, só se combate impedindo que animais assim gerem prole, ou, pelo menos, tentando ensiná-los a usar contraceptivos.

  2. Leticia says:

    Que coisa complicada, hein, Fábio? O que me lembra outra face da questão, o culto marial que ex-maridos frequentemente prestam à mãe de seus filhos. Mais aí já é outro post…

    Mas, cá pra nós, ex profissional e mater dolorosa-pedinte é um saco!

  3. Fábio Max says:

    Eu nunca mais peguei caso de alimentos, desde qua uma mulher exigia de um cliente meu dinheiro para pagar a melhor escola de Curitiba, o melhor curso de inglês de Curitiba, a melhor academia de capoeira de Curitiba, etc… para o filho, porque a intenção dela era acabar com a vida do pai da criança, que era fotógrafo, pagava a pensão que podia e queria ter acesso à criança, o que a mãe negava peremptoriamente.

    E os juízes (mais especificamente juízas) da causa, deram tudo o que a mãe pediu e mandaram o rapaz para a cadeia duas vezes, mas fizeram vistas grossas quando ele queria ver a criança.

    A coisa se resolveu com a morte repentina da mãe. O pai ficou com a guarda e descobriu não ser pai biológico logo depois…

    Vou te dizer, hoje em dia, se fala em famílias multi-nucleares, ou seja, famílias em que há varios pais e mães, em virtude de casamentos e divórcios sucessivos e do reconhecimento das relações de afeto às quais me referi anteriormente.

    Uma pessoa pode casar e ter um filho, separar, o padrasto ou madrasta se afeiçoar pela criança, separarem, a pessoa casar de novo, e o novo padrasto ou madrasto se afeiçoar de novo e no final das contas, todo mundo receber algum pátrio-poder ou alguma obrigação alimentar. É difícil de acontecer, mas segundo a atual jurisprudência, possivel!

    Agora, o fato é que o problema está na forma com que as pessoas decidem ter filhos. Se elas não decidem por isso e fazem do mesmo jeito, as chances de haver problemas são enormes, porque no íntimo, no íntimo o filho é não querido, não foi feito num momento adequado da vida ou foi feito por besteira mesmo.

    E no Brasil ainda há a cultura machista. O cara paga pensão para o filho e pensa que é da ex-mulher que está com a guarda. Daí acha que ela não pode namorar outro, porque, afinal, “ele banca”, ela é sua propriedade. É outro aspecto triste da DRAMÁTICA falta de cultura e discernimento.

  4. Leticia says:

    Que caso, Fábio! O cara também, na hora de escolher…, parece que achou o bilau na lata do lixo, hein!

  5. Ricardo says:

    E vc acha que (mais) uma lei vao resolver a questã? Nunca. Fora as mães/pais que fazem o filho de “detetive”:
    - Onde vc foi passear com a mamã? Tinha mais gente?
    - Papai comprou TV nova, daquelas grandes?

    E por aí afora, jogando sua miséria e osmerdinice nas costas de uma criança, que ao crescer provavelmente seguirá a mesma trilha mesquinha dos pais.

  6. Leticia says:

    “- Papai comprou TV nova, daquelas grandes?”

    Estou rindo aqui…

  7. Marco "João da Penha" says:

    Estou separado judicialmente desde 2001. O fim do meu casamento se deu pela insistência da ex-esposa em abrigar em nossa casa o pai, triplo-homicida condenado, fugitivo, o primeiro assassinato tendo como vítima a própria esposa, que nem cheguei a conhecer como sogra. Até o ano passado não tinha problemas com duas filhas, de 7 e 9 anos, quando estabeleci outro vínculo conjugal. O relacionamento das filhas com a nova companheira e a filha dela é ótimo. Sequer estamos morando juntos, mas o relacionamento estável encontra-se consolidado. Sempre tive homologado um regime de visita amplo, com garantias de finais de semana e feriados. Hoje sofro já há oito meses com a alienação por parte da ex-esposa. Minhas filhas já demonstram pavor quando “têm” que me encontrar, por força de liminar e multa, em caso de descumprimento, conseguidas na Justiça. Na prática pude constatar que os caminhos civilizados e legais nada podem – ao contrário, aumentam o problema – contra a perversão de incutir pavor nas filhas (a mãe diz que se elas me visitarem, não precisam voltar para casa, pois ela “desaparecerá”); e eu, pacifista e conciliador por natureza, só conto com o tempo e um “final feliz”. Atribuo esta hipocrisia a uma Justiça pouco laica, de índole católica, que detém na imagem da mãe um ser eternamente sofredor, carente, hipossuficiente e de “bom caráter”: não é o caso da minha ex-esposa, que recebe três vezes o que ganho, é profissional liberal, médica com pós-Doutorado na Europa, apropria-se, em nome das filhas, de 30% do meu salário bruto – cerca de R$ 6mil mensais (sou funcionário público federal com dedicação exclusiva) – e deixa faltar roupas, uniformes, assistência, livros e lazer, atribuindo esta “pobreza” a mim. Lamentável. Também, em um país onde há uma lei que atribui gênero (“o agressor”, no masculino, de uma certa Maria da Penha), todos homens são canalhas…Exceto quem não é…

    Minha pergunta é: antes de agradecer aos congressistas, o Projeto já é Lei?

  8. Leticia says:

    Que horror, Marco!
    Pelo que você conta, acredito que suas filhas pelo menos têm consciência do que está acontecendo! Continue pacifista: tenho certeza de que, quando elas crescerem, perceberão o que se passou.
    Quanto ao projeto de lei, está tramitando no Congresso e, sabe como é: eles têm tantas outras coisas internas com que se ocupar…

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