
Achei meio bobo – por parte do Helio de la Peña – pegar pelos cabelos um dizer de Danilo Gentili no CQC:
“King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”
e jogar no ventilador twitterístico:
“Não tenho problemas com piadas de qualquer natureza, desde que elas sejam engraçadas. Não foi o caso”, escreveu La Peña. “Associar o homem preto a um macaco não é novidade no anedotário e causa desconforto aos homens pretos.”
(“Homens pretos”. Taí, gostei do despojamento. Mas a gente só pode falar assim se for nome de irmandade ou se a gente mesmo for afrodescendente, não?)
Bem, se não é novidade no anedotário, pra que o furdunço? Tá certo que não é o ideal do mundo piadístico, mas Danilo Gentili adota um perfil gentil (ai, ai, trocadilhos também enchem o saco!) e não costuma se sair com esse tipo de coisa. Aliás, justamente o contrário: suas entrevistas no Congresso (via CQC), são muito bem-vindas em meio a um “anedotário” tradicional que inclui o pior de Chico Anysio, Pânico, Zé Simão, um troço internético chamado Kibe Loco e, de resto, nós todos.
Já ponderei uma vez por aqui (e aqui) que o repertório nacional só é capaz de fazer a gente rolar de rir se incluir qualquer coisa de sexo, pum, anão e viado.
O problema de fundo está não tanto no que incomoda como no que não incomoda. Se a mulherada como um todo não vê problema em fazer piada com o traseiro das traseirudas, é porque conseguiu isolar o gênero. É como se houvesse subdivisão entre mulheres X e mulheres Y. As Y são oferecidas a todo tipo de chacota, em como não me presto a ser Y, aceito e até incentivo, apesar de pertencer ao gênero como um todo. Então, ao dividir, eu me isento de qualquer tipo de combate à esculhambação de gênero.
Fábio Marton falou sobre a encheção do filme Jean Charles. É mais ou menos o mesmo raciocínio. A gente considera a coisa destacada, porque ela não requer nenhuma atitude nossa. Trocando em miúdos: pra que, como cidadão, eu tomaria alguma atitude com uma injustiça interna (dessas que nem aparecem direito nos jornais) se é bem mais cômodo e rende mais mídia pegar um qualquer lá fora, onde eu posso acompanhar, iradíssima, o andamento da coisa pelos jornais? E, de quebra, posso chamar os outros de racistas e xenófobos. Mas nem te ligo se isso acontece aqui, no meu próprio elevador, porque aí daria muito trabalho, teria de convocar uma assembreia, falar na cara das velhinhas do condomínio, fazer o chato papel de tentar impor normas internas, e tal.
Não que a piadinha de Gentili tenha muito o que explicar, até porque se rendeu ao basicão doméstico. Mas, mais uma vez, fica evidente que a luzinha vermelha da dignidade nacional só acende quando rende algum espaço na mídia, ou uma indenização (o que não é o caso de Helio de La Peña).
O nosso racismo cotidiano é muito chato, anônimo e sem graça. Então, continuemos vigiando a TV, o Twitter, o outro lado do Atlântico.



Nao podemos esquecer da indignacao geral da nacao no episodio de odio racial que depois verificou-se tratar apenas de surto de maluquice!
Por que nao nosindignamos mais com os desmandos do nosso Congresso? Do Senado? Do Chefe mor?
Se o problema eh piada facil, por que o Casseta continua a avacalhar o nosso Molusco em exercicio?
Sei la´acho que estou mesmo de TPM, achando que a saida e´o Aeroporto!
PS: Melhorou do pe´?
Obrigada, Moema, o pé está fantastique! Só não tem andado mais porque a cidade está uma poça. Não para de chover aqui…
É mesmo, nem lembrei da louca que simulou a gravidez… Todo mundo verdadeiramente tocado com a situação da criatura, mas a indignação murchou quando se percebeu tratar-se de antiga prática nativa – igualmente reprovável, mas como é coisa nossa…
Não fique chateada: Sarney logo logo sai. Mas por recomendação da família, porque está na base do calmante! Jamé por clamor popular.
Retornando ao Brazil, apos 5 anos, estou ainda em estado de choque mas me recuperando. Nesse primeiro mes por aqui posso com certeza dizer, no Brazil NAO existe preconceito racial o que existe aqui e eh muito pior eh o preconceito social.
Estou muito triste com o que estou vendo, vivendo e desanimada porque vejo que as pessoas ja se acostumaram com a situacao.
Outro dia ouvi um Sr. dizer diante da manchete dos jornais que o Lula defendia o Sarney que o que o presimente queria dizer era “Que o Sarrney SO roubou la no Congresso a maioria, roubou, matou, estrupu, traficou…”
Que tristeza.
“Devaraguinho” assim que me instalar direitinho aqui no Rio te passo meu phone e endereco.
p.s. ignore todos os e-mails enviados pelo outro endereco “erie” alguem “roubou” o endereco e esta enviado e-mails como se fosse eu ate eu recebo e-mail de mim mesma.
Kisses.
Lets
Não acompanhei a pendenga e não sei dos detalhes. Quer dizer, intuitivamente concordo com as porradas endereçadas ao humorista. Acho educativo e melhor que a censura do Estado e a do politicamente correto. Se livremente falou o que quis, agora tem que aguentar ouvir o que não lhe agrada.
Sei lá se pelo nosso indiscutível parentesco, eu gosto dos macacos. Me encanto com a dignidade e a gentileza que observo nos vegetarianos primos gorilas, injustamente associados a generais golpistas. Não me sentiria ofendido se fosse comparado a um gorila.
O problema é que invariavelmente as piadas que envolvem as pessoas pretas e os macacacos são repetitivas e sem graça, além de indisfarçável cunho racista. São injustas com as pessoas e os macacos.
Letícia, o humor se alimenta do politicamente incorreto. Já imaginou sobre o que seriam as piadas sem : as louras burras, anões, bichas, cornos, portugueses, caipiras, mineirinhos, pretos, surdinhos, campineiros, pelotenses, argentinos, e, last but not least, “curintianus”?
O mundo seria muito mais sem graça!
Viva o senso de humor!
Abaixo o politicamente correto.
abs
Malu, você nem vai acreditar que hoje, procurando por algo nos meus e-mails, vi o seu e me perguntei: “será que ela já chegou?”. Recebi e-mails fake, mas o nariz aqui ainda funciona. Nem abri!
E no mais, felicíssima por você estar mais pertinho da gente. Estou pra ir ao Rio (nem Moema nem ninguém acredita mais, de tanto que adio!) e a gente vai se conhecer pessoalmente, ah, vai!
Grande beijo e seja bem vinda de volta, ao Brazil-il-il e ao Flanela!
Paulo e Frodo, sou partidária daquele lance de perder o amigo mas não a piada – embora ache que tudo deva ter um nível.
E acho também que a piadinha do Gentile foi bem leve em comparação com as grosserias que a gente vê por aí.
As reclamações com a do La Peña me parecem muito contraditórias com o comportamento geral, e me soam a chatice de fachada, uma quase obrigação.
De resto, toda solidaeriedade aos macaquinhos e aos corinthianos, que também adoro e cujas idiossincrasias em comum não nego.
Fazer piada de preto : não puóde.
Piadinha de viado : puóóóde.
Humpf !
Jôka: de viado e de bilau, compartimentado em raças, de preferência.
Vc me conhece, sabe que tb perco o amigo, mas não a piada. Toda essa história é muito chata, porque na verdade o preconceito não é na piada, mas sim na preferência entre dois candidatos a emprego (um branco e um preto), ao medo instintivo na rua, à desconfiança do segurança da loja e tantas mil coisas que ninguém discute como deveria, não é?
Esse politicamente correto de fachada me enerva.
Exactly, Ricardo.