Cura-te pela enfermidade

dilma-e-franklinSomos um país não exatamente católico, mas carola. Mas nossa carolice e pieguice diante de certas coisas só se comparam à falsidade com que passamos a amar a Susan Boyle de paixão nos próximos 15 minutos.

É óbvio que o que vou dizer aqui não me transforma numa pessoa estúpida, e ninguém aqui vai achar que sou insensível aos problemas das pessoas.

Me comovo, sim: me comovi quando vi esta semana, na tevê (sem link), a insensibilidade do INSS com uma velhinha que mora no interior de São Paulo, pobre de tudo, sobre cuja cabeça algum funcionário idiota bateu o martelo dizendo que ele a deveria se despencar até Alagoas pra resolver um problema em sua aposentadoria, que foi suspensa sem mais aquelas. Chorei copiosamente com o bebê que sobreviveu após ser arrastado por um quilômetro. Não resisti quando o vi enfaixadinho e com a carne exposta. Com o João Hélio foi a mesma coisa. Então, não sou uma pedra.

Mas não me comovo meeeeesmo com doença à propos de pessoas que dependem, em maior ou menor medida, da simpatia popular ou dos humores do Judiciário. Eliana Tranchesi, Celso Pitta, Paulo Maluf e até o mais fubá dos deputados pego com a boca na botija logo anunciam uma doença, uma dor de estômago, um ai-iu na coluna, quando se veem em maus lençóis.

Em todos esses anos, só me tocaram dois: Mario Covas (eu estava correta: afinal, ele morreu disso). E do vice-presidente José Alencar, como já disse aqui, porque não o considero exatamente um pérfido e seu problema é, evidentemente, sério e renitente.

O câncer tem várias, formas, vários estágios, várias gravidades, fatalismos; e, sobretudo, várias classes sociais, se for detectado a tempo (me corrijam os médicos se eu estiver errada). E muitas vezes ele é tratado tão pá-buf que não dá nem tempo de ninguém ficar apreensivo.

Hoje leio nos comentários do Reinaldo Azevedo uma espécie de suspende tudo porque Dilma tem câncer.

Não suspendo tudo, não! Nunca tinha visto entrevista coletiva de médicos com a paciente junta, toda arrumada e bem disposta e fleumática, serena, digna.  Tanto ela como os médicos têm as melhores perspectivas para a cura em pouco tempo. “Esse tratamento não implica que eu tenha que me retrair ao deixar de comparecer à minha atividade. Acredito até que vai ser um fator para me impulsionar.”, disse a ministra.

Tenho certeza de que ela acredita nisso. E sei também de que esse linfoma e a quimio – por mais chata que seja – são uma bobagem, levando em consideração que este país é o que é, e que ela tem a sorte de poder contar (sei lá quem paga isso) com uma saúde de ponta  no dia a dia e com  um dos melhores hospitais do país pra se internar a qualquer hora. Nesse ambiente, tratar um foco de câncer é quase como fazer uma operação plástica, mal comparando.

Fatalismo, fatalismo mesmo é quando você tem um câncer de qualquer tipo, tem de se tratar na rede pública  e não tem uma população inteira acompanhando, numa corrente de orações do bonde do suspende tudo.

E é aí que está a solução da equação de segundo grau esquizofrênica: o câncer de Dilma está para o câncer do pobre assim como o Hospital Sírio-Libanês está para o Hospital Geral de Cacuí das Antas. Se tudo der certo e o pobre olhar para o câncer de Dilma assim como olha para seu próprio destino, ela está feita. Se cura rapidinho e ainda leva os louros porque – li no RA também – foi digna (outra palavrinha que não aguento mais).

Pronto, falei. Espero que vocês me entendam.

  • Foto (Felipe Rau, AE): Dilma e Franklin entrando no HSL: dois jovens idealistas aproveitando tudo do bom e do melhor que o Estado burguês tem a oferecer.  Por essas e outras é que eu me comovo com José de Alencar: ele chega nesse saguão com familiares, e não personal stylists.
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14 Responses to Cura-te pela enfermidade

  1. Maria Edi says:

    Eu comentei lá no blog do Reinaldo que torcia para que a pessoa Dilma se curasse dessa doença, e que torcia para que TODOS os brasileiros tivesse o mesmo tipo de tratamento que ela terá – tanto médico como o carinho dos médicos e enfermeiras. Mas a simpatia termina aí: ela continua sendo uma terrorista, uma bandida que queria trazer para o Brasiol o tipo dem governo que a gente vê em Cuba, na China, essas coisas. Parece bobinho, mas é isso mesmo. Pena que, atualmente, o pessoal está engolindo essa pílula sem espernear.
    Susan Boyle: eu ouvi a voz da mulher antes de ver no Youtube. Eu desandei a chorar! QUE VOZ! Lembrou-me Sarah Brightman.
    Estou com o caso dessa criança, daquela que o pai matou para não ficar longe dele, de João Hélio, entalados na garganta.
    E, olha, esse papo de “dignidade”, de jeitão de “mãezona” da crocodilma, já ouvi faz bastante tempo. Acho que tem uns quatro anos que já ouvia falar nessa “adocicação” da pessoa da crocodilma. Os caras não perdem tempo!

  2. Ricardo says:

    Como sou um grandessíssimo FDP, assim que vi a notícia, soltei um “ganhou uma pancada de votos”.

    Curioso: já que ela diz que o Brasil melhorou taaanto, pq nao se trata num hospital público qq? Pq logo num dos redutos da elite-branca-paulista-capitalista-sírio-libanesa opressora?

    Entendi perfeitamente sua posição, e assino embaixo.

  3. Leticia says:

    Xi, Maria Edi, como não gosto do style Sarah Brightman, também não curto o futuro repertório de Susan Boyle. Mas seria vizinha de ir fofocar de vez em quando, com repaginação ou não. O problema é que ela só valeu pela sua feiura extrema, e isso é muito cruel. Já passou pela pinça e logo logo será mais uma. Espero que não, mas…

    Quanto à Dilma, acho que ela andou empunhando metralhadora errado, sabe? (esa é podre, mas não pude evitar).

    Ricardo, e o Covas se tratou no Incor. Nada que seus descontos mensais da vida toda não cobrissem.

  4. Tambosi says:

    A entrevista dos assanhados médicos me lembrou o fatídico episódo do Tancredo Neves, lá no final dos 80. E já estou duvidandoque a Dilmona tenha feito plástica.

  5. Ricardo says:

    Olha só:
    “Petistas e palacianos estão eufóricos com o desempenho de Dilma ao anunciar a doença; candidatura está mantida”

    http://uolpolitica.blog.uol.com.br/arch2009-04-26_2009-05-02.html#2009_04-26_13_18_17-9961110-0

  6. Myrian says:

    O RA fala isso pq a petralhada escreve chamando de canceroso e perguntando qdo ele morre. Tudo bem, cada um pensa o que quiser.
    Eu repito que teria muita pena se ela não fosse quem é.
    E é claro que está lá se tratando às nossas expensas ou então de graça que a gente sabe muito bem o que esses médicos não fazem por publicidade gratuita.
    Adorei as reticências em tudo que se perguntava de mais explícito.
    Queria ver a comunista se tratar em hospital público, junto com o povão, perto daquelas pessoas que passam 2 a 3 horas na condução, levam lanche em saquinho e esperam 5, 6 horas pra serem atendidas.
    Mas aí é aquela história, né? Comunista divide duas fazendas, dois tratores, duas colheitas mas não dois cavalos, porque dois cavalos ele tem.
    Na hora do vamos ver eu uso todas as mordomias e avanços proporcionados pelo capitalismo.
    Então tá!

  7. Leticia says:

    Tambosi, só está faltando o Wagner Tiso, o compositor do necrotério, compor algo especialmente para a ocasião.

    Ricardo, Lula (tá lá no link que você passou) telefonou para Dilma cumprimentando-a pela maneira com que anunciou o imbróglio. É o fim da picada! Isso suplantou o episódio do top-top do Marco Aurelio Garcia.

    Pois é, Myrian, eu me referi mesmo aos comentários do pessoal. O RA não vale, porque o assunto é delicado pra ele. De qualquer maneira, duvido que, estatisticamente, os detratores de Dilma digam essas coisas horrorosas que os petralhudos dizem ao RA até hoje com relação a seus tumores.

    O fato é que a Dilma pessoa não merece isso, assim como nenhum zé-ruela de Fiofó do Mato Dentro. Mas para a Dilma candidata, é inegável (e monstruoso) que o fato tenha se tornado sopa no mel pra alavancar sua fria candidatura. Repito: ficou pior que o episódio Marco Aurelio Top-Top.

  8. Tambosi says:

    Lets, quem foi o pobre jornalista morto pela Bia Berna? Perguntei lá em casa, mas tasco aqui de novo.

  9. Leticia says:

    Respondi via e-mail, Tambosi.

  10. Fábio Max says:

    Repito o comentário que tenho feito por aí… uma pessoa doente, continua doente, mesmo cercada de marqueteiros e gênios da política.

    Essa doença não humaniza a candidata Dilma, nem lhe agrega votos. Pelo contrário, uma pessoa com câncer não aguentaria uma campanha desgastante como a de presidente, e sua imagem de doente, não agregaria votos, pelo contrário, perderia-os.

    Dilma conta com o melhor “handicap” que um candidato poderia ter, o apoio de Lula, que é um presidente popular e em alta. SInceramente, ela não precisa de uma doença para lhe aliviar a imagem, até porque doença e política não se dão bem.

    O único candidato doente no Brasil que foi eleito com larga votação, foi Mário Covas, mas muito mais pelo espetacular governo que praticou e pela figura impoluta do que pela doença. Doença em campanha política significa fraqueza, e fraqueza é algo que leva a uma perda de votos que não se compensa pelos malabarismos do marketing.

    Sinceramente, torço para que a ministra Dilma passe logo pelo tratamento e queira Deus que saia curada dele! Não desejo um câncer na família de ninguém e duvido que mesmo o mais destrambelhado petralha esteja festejando uma coisa dessas com vias a ganhar uns votinhos…

    Agora, é um fato bem assinalado: os políticos brasileiro, TODOS eles, não sujeitam-se a um hospital público e ao SUS, eles sabem que sua incompetência faz do sistema algo disfuncional e incompetente!

  11. Leticia says:

    Fábio, a candidatura de Dilma está meia-boca, apesar de toda a popularidade de Lula. Como se sabe, o brasileiro é esquizofrênico e não junta A + B, nem para o bem, nem para o mal.

    Depois, o PT está vendo vantagem nisso, sim. Tanto é que Lula (veja o link que o Ricardo forneceu) a cumprimentou pela maneira com que anunciou a doença. E ela deu uma coletiva. E compareceu a ela acompanhada do Ministro das Comunicações e não dos familiares.

    Outra: a detecção precoce do seu câncer – assim como foi o de minha mãe – foi fundamental pra transformar um drama num procedimento pá-buf que lhe trará a cura em 4 meses. Garanto a você que ela está menos apreensiva do que eu. Ela mesma diz que a quimio não afetará seu trabalho. Quanto mais a campanha, que teoricamente começa ano que vem.

    O ser humano é uma coisa, e deve ser respeitado. Ninguém aqui está torcendo por bobagens que só ocorrem às mentes estúpidas. Ponto.

    A maneira como foi conduzido o anúncio e tudo que ocorre em volta é que é podre, igualzinho ao partido ao qual ela pertence.

  12. Leticia says:

    Ops, em tempo: Mario Covas se tratou no Incor. Mais público que isso, impossível. A diferença é que é gerido (há décadas) por políticos de bem.

  13. Moema says:

    Lets, tenho muitos defeitos. Entre eles uma dificuldade ENORME de separar a pessoa do personagem. Nao no cinema. Na vida. Para mim, uma pessoa de bem, vive um personagem de bem a vida toda. E o inverso e’ verdadeiro. Odeio quando ouco algo como: Fulano e’ otimo tecnicamente. Isso para mim quer dizer que como pessoa o fulano nao presta. E desse tipo de pessoa quero distancia. Claro que em sa consciencia nao desejo que ela morra. Mas ouvi de uma pessoa proxima, que se Deus for brasileiro, ela nao sobrevivera’pois nos brasileiros nao merecemos este castigo. E nao sei se discordo totalmente. Claro tambem que o que me deixa mais desconfortavel e’ o fato dela ter tratamento de primeiro mundo e o resto do povo ter tratamento da idade media. Isso certamente nao e’ justo. Se’ ela e’ tao favoravel a socializacao dos bens, de ela o exemplo e va’ para a fila de triagem conseguir matricula em hospital publico e tratamento idem. E o mais irritante e’ que eles vao achar um jeito de tirar partido politico da situacao.

  14. Leticia says:

    Moema, entendo você. E também vejo com certa frieza, justamente porque ela está com tratamento de ponta e a gente sabe que é só questão de tratar que resolve pá-buf.

    A mesmíssima enfermidade no sistema de saúde real do brasileiro, como sabemos todos, é sentença de morte dada e carimbada, sem direito a exceção, urgência, caso especial ou compaixão de quem quer que seja.

    Isso é o cruel.

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