Um “pobrema” formigal

Ainda no período carbonífero, postei sobre os pobrema dos mindingo na cidade.

Naquele post falei de uma pesquisa  da Fipe que constatou que tem (muita) gente, em cidades periféricas à cidade de São Paulo, cuja atividade é vir pra cá pedir esmola. Posso acrescentar pessoalmente, e por tabela, que tem muito cara morador do lugar X que pega seu trem, passa a semana comercial na cidade e depois volta pro seu mocó, pra gastar a grana que auferiu amolando os transeuntes.

Assim sendo, posso chegar a uma quase-conclusão de que a cidade de São Paulo, ela mesma, não tem mendigos. Eles são todos importados, semanalmente. E o problema é dos governantes das cidades que exportam as criaturas. O nosso é tentar defender nossos espaços.

Meu leitor Marcelo Simas acaba de enviar uma carta à Prefeitura e à mídia solicitando providências no entorno do edifício onde trabalha, o Oscar Rodrigues, que fica na avenida São João, já chegando no Anhangabaú. Ele se estabeleceu lá e restaurou (não reformou: restaurou) o escritório que adquiriu no prédio, e faz parte de uma comissão para restauro do prédio inteiro. Convidou-me a conhecer suas instalações, mas não pude ir até hoje. Mas ainda está na agenda, Marcelo. Me aguarde. Eis a carta:

À
PMSP – Prefeitura Municipal de São Paulo

Prezados Senhores:

Meu nome é Marcelo de Passos Simas, sou advogado, inscrito na OAB/SP sob nº XXXX, tenho escritório profissional nesta cidade, à Avenida XXXXX.
Presido a Comissão de Restauro e Recuperação do Prédio Oscar Rodrigues, construído em 1928, hoje em processo de tombamento pelo CONPRESP, e muito me empenho pela revitalização do Centro Velho de São Paulo.
Há mais de 02 anos acompanho o lastimável descaso do Governo Estadual e, principalmente, Municipal, para com a limpeza urbana e segurança na região do Largo do Paissandu, Vale do Anhangabaú e Calçadão da Avenida São João. Nessa região, nos deparamos com centenas de mendigos, homens e mulheres, a qualquer hora do dia, alimentando-se de restos de lixo e ali mesmo fazendo suas necessidades fisiológicas, a céu aberto, à vista de todos, sem qualquer constrangimento.
No Largo do Paissandu, enquanto caminhava em companhia de dois clientes, vimos um homem se masturbando enquanto admirava as prostitutas que ali fazem ponto.
Estima-se que por lá circulem diariamente cerca de 500.000 pessoas, destas muitas crianças.
No quesito segurança, deixa muito a desejar, alias, quase nenhuma. Quadrilhas de “trombadões” agem livremente, armados de revolveres ou pistolas, surpreendem pedestres, chegando ao absurdo de exigirem tirar as próprias roupas para que vasculhem a existência de dinheiro. Tal fato já foi por mim presenciado em duas ocasiões, ambas ao lado da Igreja de Nossa Senhora dos Homens Pretos. Nos últimos dois meses, duas pessoas foram baleadas, uma na avenida São João, na altura do número 284 e, outra, no Largo do Paissandu esquina com a Rua Capitão Salomão, sem desprezar as inúmeras vítimas, principalmente idosos, que, com o empurrão dos bandidos, caem e sofrem as mais diversas fraturas.
No tocante a limpeza pública, pouco se pode exigir dos garis incumbidos de sua manutenção, pois, não se atreveriam molestar a paz dos bêbados e drogados que fazem dos jardins das praças e marquises dos edifícios banheiros a céu aberto.
Verifica-se, inclusive, nos jardins do Largo do Paissandu, construções de “barracos”, isto mesmo, como se já não bastasse o fedor exalado pelos excrementos, a paisagem urbana também é desrespeitada, um grupo de vadios resolveu fixar moradia no Largo do Paissandu, improvisando ali seus barracos.
Quanto à região da Avenida São João (calçadão) entre o Vale do Anhangabaú e Largo do Paissandu, dezenas de nigerianos e outras etnias adeptas ao Reggae e tatuagens ali se instalaram para comercialização de suas bugigangas e “tattoos”, mas, principalmente, o consumo e o tráfico de drogas (crack e maconha). É pública e notória tal atividade, apesar das dezenas de viaturas da Guarda Civil Metropolitana, Policia Militar, Policia Civil e carros oficiais que por ali trafegam diariamente, não há qualquer interferência, é como se nada estivesse ocorrendo. Tal fato não se repetiria, na mesma Avenida São João, se na região do Banco do Brasil, Bolsa de Valores e BMF.
Eu, pessoalmente, por incontáveis vezes, reclamei à Prefeitura (AR-SE) e a Policia Militar providencias, contudo, ao invés de melhorar, o quadro vem se agravando dia após dia.
Desta forma, conclamo a imprensa que dê publicidade dos fatos aqui relatados e, providencias imediatas dos órgãos competentes.

Marcelo de Passos Simas

Há uns padres e umas assistentes sociais que defendem um espaço público tungado por uma minoria. Eu já penso diferente, sabe? Se o espaço é público, até o papa teria o direito de passar por lá na boa. Mas estamos na teoria. Na prática, ainda estou esperando que a Prefeitura faça no começo da São João, naquela região dos Correios e em todo o Anhangabaú, o que está tentando fazer na Luz: incentivar empresas grandes a se aboletar lá em em outras regiões citadas pelo Marcelo. Enquanto existirem espaços convidativos, bancos e canteiros dando sopa, aqueles buraquinhos vendendo churrasco grego, roupa em bacia e sei lá mais o quê (cê não acha que eu pesquisei, né?), não dá.

E, já que estamos falando nisso, acho que a única solução pra Praça da Sé (lembra dos bancos anti-mendigos? Pois é, não deram certo) é erguer um big-prédio, desses poderosos, bem no meio daquilo. Só assim, quem sabe, eu poderei cruzá-la pela primeira vez na vida.

Tungar por tungar espaço público, fico com aqueles que trazem junto banheiros, portarias, seguranças e faxineiras.

This entry was posted in Urbano. Bookmark the permalink.

11 Responses to Um “pobrema” formigal

  1. Tambosi says:

    Detefon em cima dessa bugrada! Ah, mas agora eles tá no pudê!

  2. Letícia, querida, vim através do blogue da Raquel, uma querida, também. Vi que acha meu nome bonito. Eu também gosto dele. Por lá respondi onde era o sebo do nonno. Só pedi para você não levar meu Valmont, está bem? ;)

    Beijos!

    PS: gostei muito do seu blogue. Posso lincar lá no meu “Letras”?

  3. Quando eu era criança pequena lá em Barbacena*, havia uma mendiga lendária que sempre fazia ponto em frente ao Banco Real. Depois de anos dando esmolas àquela (aparente) senhora destituída, a população soube pelo jornal local que a velha tinha família, casa própria em uma cidade vizinha e, vejam só, recebia até pensão do INSS.

    *Na verdade, Macaé, mas adoro referências à Escolinha do Professor Raimundo.

  4. Cfe says:

    Letícia,

    Teu nome é lucidez.

    PS1: Esse texto e principalmente o outro para onde remete são ótimos. Gravei o outro nos “favoritos”

    PS2: Inicialmente inclui o ps1 no texto mas achei iria macular a frase.

  5. Leticia says:

    Tambosi, as minorias mandando ver…

    Tourvel, seja bem-vinda (com hifen ainda). Claro que pode lincar… logo logo te linco também, ok?

    Raquel, agora que sei o que é Ri-do-rato…

    Elaine, acho que já contei aqui de um jornalista que conheci cuja mãe fugia de casa pra pedir dinheiro no largo de Santa Rita, lá no Rio. Isso pode ser um esporte…

  6. Leticia says:

    Ô, CFE, thanks! Nem sei se é lucidez, mas tenho certeza que mendigo também tem pudores. Se não vê um ambiente amigável, nem lhe passa a ideia pela cabeça. É mais ou menos como o comportamento no trem X no Metrô. Se os homens de preto do Metrô não existissem…

  7. Marcelo Simas says:

    Letícia:

    Primeiramente, parabéns pela apresentação do blog, está muita bonita, a montagem muito bem elaborada.
    Bom, o problema na região do Anhangabaú continua, só foi mascarado. A Prefeitura preferiu cobrir com tapumes o “atrium” do vale. É uma pena.
    Quanto às obras em nosso prédio, correm em ritmo lento, o dinheiro anda curto, mas sem perder o foco.
    Letícia, por favor, na carta que você publica na íntegra, quero pedir-lhe que oculte o seguinte trecho: inscrito na OAB/SP sob XXXXX, tenho escritório profissional nesta cidade, à Avenida XXXXXXXX.
    Ocorre que, por razões obvias, posso ser vítima de represálias de alguns desafetos.
    Obrigado e mais uma vez parabéns!
    Abraço.

    Marcelo

  8. Leticia says:

    Oi, Marcelo,

    Obrigada!

    Lembro que na época eu até te perguntei se não havia mal em reproduzir na íntegra. De qualquer forma, seus dados estão omitidos, no texto e no seu comentário.
    Abraço,

  9. Marcelo Simas says:

    Oi Letícia!

    Obrigado.
    É verdade, você perguntou e eu respondi que não havia problema.
    Ocorre que, de um tempo pra cá, qualquer caboclo tem acesso a internet. Os bandidos estão atualizadíssimos.
    Forte abraço e obrigado.

  10. Leticia says:

    “Caboclos stalkers. Se você ainda não tem um pra chamar de seu, retire em qualquer ponto de distribuição…”

    Eles vêm aos quilos e com toda a disposição, Marcelo.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>