
O governador Mário Covas era um homem simples. Não bebia (apenas tomava guaraná) e não dava bola pras artes. Mas sabia que ele era um, e o interesse do povo era outro. E foi por isso mesmo que São Paulo experimentou, no seu governo, um salto cultural histórico com inúmeras iniciativas, cujos destaques são o tapão definitivo que seu deu na Pinacoteca e o convite para que John Neschling digirisse a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).
Antes de Neschling, a Osesp era praticamente uma repartição pública em que se tocavam instrumentos. A coisa era muito ruim. Não pela presença do Maestro Eleazar de Carvalho, mas porque o corpo de músicos era simplesmente um braço fubá da Administração Pública. Quase como uma conclusão, os caras eram ruins pra caramba.
Lembro que, ao chegar, Neschling cometeu uma ofensa inominável ao ufanismo tapuia: dedetizou a coisa e chamou músicos de fato bons – estrangeiros, muitos deles órfãos do Leste Europeu pós-Muro -, numa equação entre não gastar os tubos e obter um trabalho de ótima qualidade. O pissoal chiou: afinal de contas, nós brasileiros somos maravilhosos em tudo. E foi Neschling também que exigiu uma casa decente para a orquestra. E teve: a Sala São Paulo.
O maestro, além de ser fodão e exigente, tem toda a pinta de ser vaidoso até. Na minha humilde opinião, tem pouquíssima gente que pode se dar esse luxo, e Neschling é um deles. Na opinião de outros, mais vale uma orquestra meia-boca, mas só de gentchiboa, dessas que dá pra chamar pra feijoada lá em casa. Ponto de vista.
Isso fez que bocas espumassem eternamente pelos corredores e coxias. E certamente foi um dos donos dessas boquinhas crispadas que gravou esse vídeo, em que Neschling desce o pau em Serra.
O episódio, aliado ao fato de, na Virada Cultural de 2005, Neschling ter se recusado a se apresentar com a Orquestra ao ar livre por falta de condições técnicas, formou a fofoca toda para que o maestro anunciasse, em meados deste ano, que cumpriria seu contrato até 2010, e só.
Hoje no Estadão há matéria extensa em que ele conta seu ponto de vista.
Fiquei muito triste com essa coisa toda. Gosto do governo Serra, e do Neschling também. E acho que certos setores da Administração têm de ficar longe, muito longe da mentalidade funcionalística-publística. O maestro foi o único que conseguiu a façanha de levar a Osesp para o país inteiro e para as melhores salas internacionais. Para para isso foi necessária uma boa dose de antipatia e pulso firme.
John Neschling nem precisaria desse excelente trabalho em São Paulo pra ter lugar em qualquer parte do mundo. Já a Osesp, não sei como fica, não…



A questão é que, para o brasileiro médio, competência e coisa pública são expressões que não cabem numa única frase. Se no Brasil, fazer sucesso já é crime, fazer sucesso dentro de uma instituição pública e eventualmente aparecer mais que os “pulítico” é delito sujeito a pena de morte.
Como eu sempre digo, MÉRITO no Brasil é ficção.
Vamos combinar que o nome disso e´inveja. Na boa, ele pode ter parte da responsabilidade por nao ter sido politico e fazer a mudanca que queria de forma menos direta. Como ele tinha compromisso com metas (sejam pessoais ou impostas por contrato), nao devia nada a ninguem e como diz uma amiga, foi tirado do conforto do seu lar, ele se achou – nao sem razao – no dever de agir como bem entendesse. Enfim, desafetos a parte, ele cumpriu o que veio fazer. Resta saber se quem ocupar a batuta tera´a mesma capacidade e coragem.
Lets
Existe uma pesquisa do professor José Arapiraca, já falecido, da Universidade Federal da Bahia (Fisiologismo Político e Qualidade da Educação, Ianama Ed. Salvador, 1988) que mostra existirem na Bahia umas trinta escolas com o nome “Padre Vieira”, enquanto o nome “Antônio Carlos Magalhães” identifica mais de trezentas e cinqüenta escolas.
É a prova da predominãncia da ética botocuda de servir ao sinhozinho. Em SP a coisa só é mais sofistiqueide. Aqui, temos uma intelligentsia de alta plumagem que coloca para si mesma o padrão internacional e que convive as mil maravilhas com a casa-grande.
Como lembra o professor Roberto Romano, “o objeto mais flexível do universo é a espinha dorsal dos intelectuais. É infinita a capacidade que eles têm de se curvar diante do poder, seja ele fascista, seja socialista. Basta que seja poder.”
Então, fica claro porque a presença do maestro de espinha inflexível tornou-se insuportável. Ele não serve.
Os políticos tratam o interesse público em conformidade com velhos costumes da Botocúndia. Comportam-se como os arrogantes sinhozinhos que não dispensam, mas exigem, o beija-mão: “bença, padrinho”.
Junte-se a isso a tosca mentalidade empresarial. Diz o maestro:
“Ouvi do Pedro Moreira Salles que, em seu banco, um executivo que chega aos 60 anos precisa começar a pensar na sua saída. Não trabalho num banco!”
É isso tudo, resumido no último parágrafo do Paulo. Se um banqueiro, que é um banqueiro, tem uma mentalidade dessas, imagina quem vê o mundo com a ótica da administração pública?