
(Não pude ver todo o debate ontem. Mas pelo pouco que vi, se pudesse optar por continuar vendo ou fazer outra coisa, iria fazer outra coisa.)
Nossos debates são extremamente chatos. Os da Globo, por sua assepsia, mais ainda. Restam-nos outras emissoras, como a Band e a Record: pelo menos temos a esperança de ver algum bafafá, alguma baixaria. E os prazerosos enganos de fala: fulano falou sim quando devia dizer não, fulana se enganou na palavra tal, coisa que, em um país bananístico, rende gozação e assunto pra uma semana. A coisa é tão morna que temos de nos apegar (eu em primeiro lugar, bem entendido) a imprevistos dentais, papéis que caíram, piscadas nervosas, enfim.
Em emissoras menores parece mesmo que os próprios convidados da platéia se sentem mais à vontade pra fazer uma churrascada. Ou você acha que Carlos Zarattini ficaria aos berros chamando o Chico Pinheiro de “vendido”, como fez com Boris Casoy?
Enfim, debates não passam de uma extensão da propaganda no rádio e na TV. Ninguém discute nada. Fala superficialmente sobre tudo de maravilhoso que vai fazer, sobre tudo de maravilhoso que fez, sobre tudo de errado e cruel que o outro fez, e pronto. Com direito a omissões, maquiagem de números e conversa pra pobre ver. Aquela perguntinha obrigatória “o que o senhor pretende fazer no quesito tal?” é só pra dar uma roupagem de civilidade. Não funciona.
Candidatos, especialmente os não populistas, têm de se desviar de assuntos-tabus. No mundo inteiro, e aqui ainda mais, ficou convencionado que certos setores da população têm uma aura meio marial, e ai de quem ousar tocar no assunto.
Por exemplo: sabe-se que aqui em São Paulo, pela própria atração da cidade e por não seguirmos métodos aceemísticos, a favela virou uma indústria. Guiados por agentes obscuros, hordas do lúmpen são orientadas a ocupar lugares cuja posterior desocupação é de uma burocracia kafkiana, por pertencerem, por exemplo, ao Estado, à Prefeitura ou a empresas públicas. Muitas vezes, só pra encher o saco, numa agenda política, como Marta pode tão claramente atestar. Note-se que a desocupação de terrenos particulares nunca é notícia. Só de terrenos públicos, que aí já vira escândalo com toda a carga de pensamento dogmático insuflado por partidos, pelo torto senso de justiça social que a Constituição de 88 finalmente implementou e pela própria mídia, esse conjunto de jornalistas que escreve uma coisa, mas mora em outra.
Quem sabe vai chegar o dia em que candidatos poderão chegar fundo em questões como ocupações ilegais, e propostas concretas para evitá-las ou desfazê-las, sem que isso signifique uma demonização de parte a parte?
Quem sabe um dia algum candidato poderá olhar pra câmera e dizer: Planta uma árvore em frente de casa, façavor! Esta cidade não respira mais! Pára de jogar lixo na rua! Sai desse terreno que não te pertence!, sem ser linchado no minuto seguinte?
É óbvio que isso nunca será possível, porque o cerumano tem a si mesmo como imagem e semelhança de Deus. Mas a gente não precisa exagerar, né? Se pudéssemos nos aproximar um tequinho mais dos debates americanos, por exemplo, já tava de bom tamanho. Mesmo que eles lá sejam “bonzinhos” também.
***
Vamos, agora, ao esporte:
Sabe por que Marta vestiu vermelho no último dia de propaganda e no debate? Pra dar sorte.
Chico Pinheiro se enganou e chamou Gilberto Kassab de “Geraldo Kassab”. Tal engano foi inaugurado pelo vice de Serra, Alberto Goldman, na convenção do DEM. Isso não é mais ato falho, é amoooorrrrr mesmo.
Marta tremia como vara verde enquanto lia a “ação de despejo”, cuidadosamente guardada pra ela por uma favelée. Eu até achei a ação de despejo bem bonitinha e cuidadosa: “desligue a geladeira; deixe almoço pronto na véspera; desmonte os móveis com antecedência; tire as crianças da frente”. Fosse um despejo do tempo de Marta (eles aconteceram às pencas), ela usaria esses itens a seu favor.
Conforme psicografado por aqui, o último dia da campanha de Marta usou, sim, as imagens de Kassab chamando o outro de vagabundo. Bola fora. Todo mundo achou o cara um vagabundo mesmo… Usou também depoimento de Deus e o mundo no último dia. Desde um membro do partido que usa serviços de acompanhantes até vereador eleito que bate na mulher, passando, é óbvio, por cornos, homens que se gabam de terem emprenhado a mulher logo de primeira, artistas e escritores de esquerda. No geral, só teve um assunto: Kassab.
Já Kassab, confortavelmente instalado na sua ampla vantagem sobre Marta, fez um programa pra cima, e terminou com aquela musiquinha “Eu acredito é na rapaziaaaaada…”. Zarattini deve ter visto e batido na testa: “como não tive essa idéia antes, Batman”?
- Photô: Fábio Braga, Futura Press, via G1.



Lets,
O ideal de “debate politico” seria cada um com uma adaga, e que venca o melhor!
Ando tao, mas tao enojada desta politicagem pequena, centrada no proprio umbigo, que pela primeira vez ando considerando nao votar.
Sei das implicacoes. Sempre fiz um baita discurso sobre o direito de voto e bla, bla, bla, mas ando cheia mesmo.
Aqui no Rio as coisas estao de mal a pior. E nao vejo o fundo do poco. Queria mesmo que ja´tivessemos batido no fundo. Assim, teria pelo menos a esperanca de comecar a melhorar em algum momento.
Debate sem Maluf não tem graça.
Qualquer produto da Globo é pasteurizado. Tem o jeito simples que consegue prender os idiotas na frente da TV, mesmo que eles não entendam patavina do que acontece ali.
Num debate como esse aí, a Globo trata de demonstrar que:
a) Marta é patricinha, chique, antipática mas com apoio do presidente Lula.
b) Kassab é certinho, simpático mas não muito competente, mas é contra Marta, e tem o apoio do Serra.
É assim que o povão define seu voto, ele não mede propostas e nem as analisa, até porque, não tem discernimento para tanto e isso dá trabalho demais.
Desta vez ganhou o voto anti-Marta…