Non Ducor Duca, II

Eu estava esperando esse mapinha pra trocar umas idéias com vocês. É claro que, para quem mora e conhece a cidade, fica fácil de entender. Mas tentarei ser didática com os que não a conhecem. E desculpem a extensão do texto.

Felômenos, felômenos, felômenos… Kassab venceu em lugares até hoje tidos pelo senso médio paulistano como fora do sistema solar: Cidade Ademar, Capela do Socorro (um lugar que sempre foi reduto petista, encabeçado pela quadrilha Tatto), São Miguel Paulista, Cangaíba… São todos bairros enormes, tradicionalmente formados ao sabor dos loteamentos clandestinos, sem verde, com casas e puxadinhos um colado no outro, sem infra-estrutura totalmente confortável, com um déficit de saúde, educação e transporte que vem de décadas.

A desculpa petista, basicamente, foi a de que o governo Lula propiciou uma melhora de vida e as pessoas a relacionaram ao prefeito; mas “os pobres continuam votando em Marta”, dizem. Não sei se é bem isso, porque a melhora de vida vem vindo desde os tempos de FHC. Na eleição anterior, quando Marta perdeu pra Serra, o PT buscou essa mesma desculpa, e Serra brincou, agradecendo aos “ricos de Sapopemba” (outro bairro distante e carente) por ter obtido mais votos lá.

O avanço de Kassab na Zona Oeste não conta. Primeiro que ela sempre foi a menos pior das regiões, em termos de pobreza. Segundo, ela é muito pequena, termina num susto, abruptamente, lá nas marginais, após o que há outros municípios, tão intensamente ligados à capital quanto qualquer outro. O Rio Pequeno, por exemplo, fica espremido entre os limites do Município com Osasco (cidade onde, se não me engano, o PT ganhou) e a USP.

Bairros mais longínquos onde Kassab ganhou, como Cursino, Vila Prudente e Pirituba, não têm a estrutura que existe em Perdizes ou Pinheiros, bairros considerados “ricos”, tampouco chegaram ao conforto que há em bairros que outrora foram meramente fabris, populares e “distantes”, como Mooca, Tatuapé e Penha. Aliás, há algumas décadas o Tatuapé e a Mooca, por exemplo, foram alçados a um nível de vida moderno, com ótimas escolas públicas e particulares, profissionais qualificadíssimos, Metrô, shoppings, hospitais (inclusive filiais de hospitais de ponta, como o São Luis) e empreendimentos imobiliários de alto padrão. Aliás, antes de o Citibank virar banco de  calangos,  existiam poucas agências: das que eu conheço, a central, na Paulista,  outra no centro, outra no Tatuapé.

Trocando em miúdos: o paulistano quer saber é de sua vida. E cada vez tem mais nítida a noção de que, para vencer na vida, precisa estudar, trabalhar e exigir do Poder Público que faça valer todo esse esforço e os resultados de sua luta. Sem ração e sem tutela. É como se a alma paulistana dissesse: Olha aqui, meu senhor, eu não estou precisando de comida. Eu almoço e janto normalmente. Eu quero é que que você faça um metrô até aqui para eu poder ir estudar à noite.

Não vai aqui nenhum ufanismo besta, do tipo “aqui é terra boa, terra da garoa”. Até porque faz séculos que não há garoa alguma aqui.

***

Isso necessariamente me remete a outro assunto.

Me chamou a atenção, nesse caso de Santo André, que as meninas estudavam, e muito. As notas, tanto de Nayara como de Eloá, eram muito boas. Meninas vaidosas, educadas, com um português acima do razoável, levando suas vidas e se divertindo e se relacionando, com Orkut e tudo o mais, como qualquer adolescente. Nenhuma das duas, ao que se sabe, precisavam trabalhar, e Lindemberg trabalhava, oficialmente, com carteira assinada e tudo.

Esse recorte social está, a meu ver, muito mal interpretado pela imprensa. Aquele conjunto CDHU não é formado por pessoas pobres, muito menos simplórias. O Brasil inteiro viu que lá se tem acesso a computadores, máquinas digitais, celulares, motocicletas, automóveis, roupas, besteirinhas adolescentes, decoração apurada…, elementos tradicionalmente reservados a camadas médias pra cima.

Ao mesmo tempo, com todo esse relativo conforto e pelos depoimentos da própria Nayara (que hoje deu entrevista para Ana Maria Braga, que habilmente extraiu informações sobre a amiga morta), se entrevê um elemento cultural de miséria que perdurou, apesar de todo o acesso a informação: a violência nas relações familiares. Como uma menina tão linda e ajeitadinha, com cabelos sempre feitos, maquiada, educadinha e estudiosa… enfim, ciosa de seu futuro, namorava um cara que a agredia constantemente? Hoje Nayara comentou um episódio em que Lindemberg, num de seus acessos, perseguiu Eloá até o ponto do ônibus, dando-lhe tabefes nas costas. Não deve ter sido o único.

Como essa menina e sua família se submetiam a um cro-magnon como esse? A única conclusão possível, para mim, é de fundo cultural. Naquele ambiente CDHU com máquineta digital, é absolutamente normal que o homem beba, que ande armado, que se sinta dono de outras pessoas. E cabe às mulheres aceitar e até protegê-lo em suas fraquezas, como quem diz: ele matou porque está nervoso, porque ama demais a família, porque está apaixonado, ele pode porque é homem, etc.

Isso sem contar as bolas cantadas entre a polícia de Alagoas e a nossa: Lindemberg pode ter ligações mais antigas com o pai de Eloá, ambos podem não ser esses homens trabalhadores e honestos-de-até-então. E a mãe de Eloá pode não ser essa máter-dolorosa que declarou perdão ao assassino na frente das câmeras. Enfim, é mais difícil tentar enquadrar o pensamento dessas pessoas. São pobres? Pobre é simplório? São classe média? Classe média tem cidadania mais elaborada? O crime não pode conviver junto com uma evolução social? Só porque moram numa CDHU estão proibidos de ter pequenas sofisticações, perversões e intrincados de relacionamento (que, por sinal, a classe média ignora)?

Esse, na minha opini]ao, o grande erro da imprensa da carochinha: um caso de violência entre pessoas simples. Definitivamente, não há pessoas simples num bloco de apartamentos desse tipo, nem em São Paulo, nem em Santo André nem em lugar nenhum.

Quer dizer, eu acho que se forma aí uma nova classe, que não sei se poderia ser chamada de média. Aliás, nem sei se esse esquema classe baixa, classe média, média alta e alta existe mais. Isso no Brasil inteiro. Em São Paulo, onde a mobilidade social é grande, é mais difícil ainda de entender.

De qualquer maneira, essa expansão dos votos de Kassab pelos bolsões da periferia foi, no meu módiver, um recado: eu não quero que vocês reconheçam que estou na merda. Eu quero é sair dela. Em Santo André, talvez Eloá quisesse. Talvez Nayara queira. Está tudo pronto pra isso. Só falta conhecer outras realidades de vida, para além dos celulares e das câmeras digitais.

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7 Responses to Non Ducor Duca, II

  1. Ricardo says:

    Parte 1: é óbvio que existem diferenças gritantes numa cidade como Sampa, e um sujeito pode passar a vida aqui sem nunca ter conhecido todos os quadrantes do município. Isso, obviamente, gera culturas e módivistas diversos, talvez o mais famoso Jardins X Zona Leste, que já entrou pro folclore da cidade.

    Assim, nada de estranhar que bolsas e promessas de internet seduzam muito mais do que uma viável expansão da malha de metrô.

    Parte 2: como dizia meu avô, antigamente se diferenciavam ricos e pobres pela roupa. Hoje o conceito de pobreza e riqueza mudou demais, e acho que valores culturais pesam mais na balança do que no passado. E por falar em passado, o de muitos envolvidos no caso Eloá tem revelações não lá muito agradáveis…

  2. Fábio Max says:

    Celular e máquina digital não querem dizer absolutamente mais nada em termos sociais, todo mundo pode comprar em módicas 36 prestações de 10 reais nas Casas Bahia.

    E boas notas na escola, muito menos, porque é sabido que escola alguma cobra grande coisa de seus alunos, especialmente a públicas, que tem como objetivo principal, se livrar dos estudantes.

    O que aflorou neste caso não foram as diferenças econômicas, mas a absoluta falta de cultura que leva à falta de discernimento pelas partes envolvidas.

  3. Fábio Max says:

    O que eu quis dizer lá no Tambosi foi o seguinte:

    O PFL era partido de grotões, razão pela qual viu seu capital político e eleitoral escorrer peloe dedos, quando o PT/PMDB lhe tomou o lugar com o bolsa-família e com o fisiologismo.

    O partido estava definhando, razão pela qual resolveu modernizar o discurso e voltar-se para centros urbanos, onde o eleitorado entende melhor coisa como idéias e programas, e um exemplo disso, é ter eleito o prefeito de São Paulo.

    Partido que aposta em grotão, aposta em agregar gente imoral às suas fileiras, que se vende pelo melhor preço e vai para o lado que seu bolso mandar… o PFL foi assim e quase acabou…será que o PT vai pro mesmo caminho?

  4. Leticia says:

    Aí é que eu fico imaginando, Fábio: Será que eles não têm cultura? A deles, que seja? Será que a cultura deles não tem meandros e sofisticações que A GENTE não entende?

    Tenho contato com alguns grupos que compartilham essa realidade, e por vezes me pego estranhando certos comportamentos naturais na minha cultura, por exemplo, não ter relacionamento de qualquer espécie com uma pessoa perigosa. Não aceitar safanões do companheiro. Não aceitar gente com atitudes assim, assado. O que vi nesse grupo é uma naturalidade em acolher um cara violento como Lindemberg. E concluí que não há diferença na linguagem de relacionamento entre a família da moça e o cara. É tudo uma coisa só.
    Então, acho que essa diferença que a mídia estabelece: “família direitinha é assolada por um marginal”, não existe.
    Celulares e tralhas e que tais são acessíveis a qualquer um, mesmo porque os rendimentos de cada um se relativizaram muito com o crédito em massa. A diferença é o que se faz com eles.

    Quanto às perdas do DEM e a substituição pelo PMDB e pelo PT, concordo, é uma análise geral para o Brasil. O que é estarrecedor, porque a coisa continua a mesma, ainda que o mundo tenha mudado. Resumindo, mudam só as moscas.
    Mas aqui em SP, o DEM vem à tona com (não todas, mas) algumas das melhores figuras da cidade, que sempre foram DEM/PFL e que sempre atuaram pela cidade.

  5. Fábio Max says:

    Pois é, em Sampa, talvez a mudança de imagem do PFL tenha surtido resultados. Pergunto: será que o paulistano votaria no DEM se ele ainda fosse um partido de grotões, priorizando a troca de favores por deputados de baixo clero?

    Acho que não, a mudança deu resultado em Sampa, porque o DEM foi identificado com algo próximo do PSDB e anti-PT.

    Mas sabe Deus de isso valerá para o resto do país.

    E quanto ao pessoal do caso de Santo André, eu tenho absoluta certeza: eles não têm cultura nenhuma e isso lhes afeta os juízos morais!

    E quem não tem cultura não sabe distinguir bem de mal, bom de ruim, etc… deu no que deu!

  6. Maria Edy says:

    O pai da menina é um fugitivo da lei de Alagoas (hein?), a mãe pode não ser essa “mater dolorosa” que mostram na telinha …
    E o rapaz? É um cara legal? Uma vítima da sociedade capitalista?
    As luzes estão se afastando de um assassino danado de ruim. E fica por isso mesmo?

    Quanto à vitória de Kassab, nada demais: ele está trabalhando de verdade. O total em porcentagem de votos é praticamente o mesmo de sua porcentagem de “ótimo e bom”.
    Que continue assim!

  7. Leticia says:

    É isso, Maria Edy. Acho que compartilhamos as mesmas pulgas atrás da orelha.

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