
Enquanto os candidatos a prefeitura posam de bonzinhos e assinam isto aqui, o governador José Serra encaminhou ontem à Assembléia Legislativa um projeto de lei pra regularizar as ocupações ilegais em volta da Represa Billings. O objetivo é dar um jeito no esgoto doméstico. Sei.
São quase um milhão de pessoas que invadiram as margens não só da Billings, mas da Guarapiranga também, ao longo dos anos, sob os olhares mezzo sonolentos/mezzo coniventes do governo. Hoje, instalados em seus puxadinhos, os invasores se orgulham de emporcalhar a água que abastece os ricos do Morumbi e promovem auspiciosos churrascos de filé-miau, que vêm parar, customizados e processados, na torneira da sua pia.
Segundo o G1, “a lei pretende regularizar a maioria das ocupações ilegais nas áreas protegidas, em troca de alguma compensação monetária ou ambiental. Por exemplo, o dono do lote a ser regularizado precisaria plantar árvores no terreno”.
Quer dizer, o governo nem sabe direito o que vai fazer. Só quer saber de uma coisa: dar terrenos de bandeja e ganhar a simpatia de 950 mil ceresumanos, cuja primeira providência será vender o que ganharam e tratar de construir uma palafita mais adiante.
Enquanto isso, áreas da cidade ainda abastecidas pelos reservatórios da Zona Sul vão bebendo água de péssima qualidade, e quem pode – como os habitantes de Moema, que desviaram sua tubulação na encolha – vai se bandeando para os mananciais da Cantareira, que seguem francos e favoritos com um número crescente de favelas ao redor.
A cidade inteira é a favor de que os invasores voltem para o lugar de onde vieram. Já os invasores, os bandidos (reprodução aqui) e a mídia bacana (reprodução aqui), porém, acham que fazer uma limpa no local seria uma desumanidade sem par.
Você mora em São Paulo e não faz idéia de onde vem a água que bebe? Clique aqui. E fique esperando sentado alguma providência democrática.



O certo, certo mesmo… seria tirar essa gente toda daí e reconstituir as áreas com arvores nativas… dizer que vai ligar esgoto para essa gente toda, é inútil, porque o esgoto é parte do problema, alguém já viu a quantidade de lixo que essa gente joga nos rios? Vai desde sacos plásticos até automóveis velhos…
Não clico, não clico e não clico!
Estragar o resto do meu dia, humpf…
Ah, Raquel, não li seu comentário antes e… estraguei o meu.
Sorte que aqui na roça a água é de poço, ainda…
Isso me lembra o que aconteceu demais em Brasília nos mais ou menos 15 anos de coronelismo do nosso ex-governador. Ele conseguiu transformar uma cidade absolutamente pacata em algo bem próximo do desconfortável. Por sorte, estamos livres dele e a qualidade de vida parou de diminuir… por ora.
Beijo,
Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com
Que horror! Nossa água aqui da zona oeste vem da Cantareira.
Quanto a mim, vejo em toda parte que os males a que a natureza nos submete são muito menos cruéis que os que nós a eles acrescentamos (Rousseau).
Por conta de umas recentes leituras sobre o século das Luzes, retomei as críticas do Rousseau sobre a “vida nas cidades”. Ele achava Paris um lixo, uma fedentina (e era mesmo na época dele). Daí que li uma carta ao Voltaire sobre o terremoto de Lisboa em 1755. O episódio causou uma celeuma do tipo “um aviso de Deus” X “chocante e lamentável catástrofe”.
Na carta, Rousseau lembra que a natureza é regida por leis racionais e que a natureza não é nem boa e nem má. A natureza é simplesmente. O problema, portanto, está no nosso imperfeito entendimento sobre leis e racionalidade da natureza (“a filiação dos acontecimentos naturais é ainda mais difícil de seguir do que a dos homens”). Disso a sua duríssima conclusão: É estupidez atribuir a Deus o desastre e uma idiotice sem sentido condenar o terremoto. Errados, arrogantes e burróides são os ceresumanos, que melhor teriam feito se decidissem não amontoar-se em casas de 6 ou 7 pavimentos. O problema não é o terremoto. O problema é Lisboa, diz Rousseau. Parecido com a asnice de morar na beira da praia do tsunami, no sopé do Vesúvio, na terra do twist e do hurricane e depois lamentar e condenar a cruel e vil natureza.
Vendo a foto eu logo lembrei da carta do Rousseau. Os desabamentos na época das chuvas, as casas inundadas e a água de beber tratada com fezes e urina são males que não podemos debitar nem na conta de Deus e nem na conta da natureza. Tudo isso é fruto da milenar ingnorança do cerumano e não adianta Merdileine desesperar-se e amaldiçoar a vida ou blasfemar. A casa construída na encosta vai continuar desabando, a lama das enchentes vai continuar entrando e a água vai continuar saindo pela torneira com cheiro e com gosto.
Para quem não curte casa no campo e rock rural, existe a hipótese de dar à vida nas cidades um ordenamento racional. Mas não. Merdileine prefere o “tudo pelo social” e acha o máximo a medida de racionalização proposta pela ingovernança de SP.
Parafraseando Tom Jobim, que não condena e não lastima: “morar em SP é bom, mas é uma merda”.
Paulo, seu comentário foi perfeito. Pra mim fica como complemento do artigo flanelístico.