Çerenícima Autêza…

.. assina amanhã o Acordo Ortográfico.

Todo mundo sabe marromenos o que muda. Cai o trema, todo mundo danado achando que precisa dizer ling[u]ííííça, e tal. Isso é pânico de multidão enlouquecida. Faça como os cariocas, que continuam falando “qüestão” e andando pro mundo.

Desde que me entendo por gente, já houve dois acordos. O primeiro me passou meio batido, porque eu estava na fase de alfabetização, e (acho) meus pais tiveram todo o cuidado pra não contaminar a petizada com antigos hábitos. Muito embora mamãe continue escrevendo uma ou outra coisa pessoal com a grafia antiga. Digo, antiga da antiga da antiga, anterior a 1945.

É óbvio que quando rodo minha nécessaire cheia de lápis, canetas coloridas e borrachas na esquina, tenho de seguir à risca as novas regras. E, confesso, ô coisa chata! A sorte é que, quando o trabalho é no papel, tenho clientes fixos e sem-cerimônia que me mandam o arquivo pra catar o que escapou na base da busca.

Mas eu, euzinha pessoa física e doméstica, estou com profunda má-vontade com essa era de Aquarius da língua portuguesa. Primeiro que ela não segue nenhuma epifania filológico-etimológica. É só pro Brasil conseguir dar um up no seu currículo internacional. Segundo que esse tipo de coisa é meio ditatorial na vida das pessoas. Terceiro que – opinião minha – quanto mais se muda a língua na base da canetada, menos importante ela é.

Mas o que mais me dana é essa coisa de rejeitar texto velho. “Aiiiii, não dáááá, tá na ortografia antiiiigaaaaa!!!!”. Eu até concordo que seria um furdunço pra uma criança que está aprendendo agora, mas essa urgência, esse medo de se contaminar, essa fazeção de questã (que a partir de agora vai grassar nas conversas pseudo) me deixam enjoada de antemão. Será o tipo de exigência indigente. Como um capiau que reclama da cadeira do escritório no primeiro dia de trabalho. Ou de um bufê (isso aconteceu mesmo) durante uma filmagem, em que comiam todos, desde o diretor de fotografia até o motorista. Quem reclamou da comida? O motorista, é claro. Enfim, a exigência da nova ortografia por quem mal dominava a antiga. Como está fazendo Çerenícima plenipotenciária.

Aqui no Flanela continuarei escrevendo com a liberdade que não costumo ter no resto dos meus afazeres. Os erros de digitação vão continuar, uma escorregada ou outra na regência, na sintaxe… e a ortografia antiga permanece até que se adapte espontamentamente.

  • Foto: Página – aleatoriamente – recolhida de um papel nada avulso de Relíquias de casa velha (quá-quá-quá, juro que peguei o primeiro que – nem – vi) da coleção de Machado da vovó (a outra vovó, não a esposa do vovô que sempre menciono aqui). Vai continuar comigo, vou reler sempre siiiiim, e quando eu estiver com o pé na cova vai pra Periquito, siiiim, que se Deus quiser será um leitor contumaz, siiiiim, e acima desse nhénhénhé todo de acordo ortográfico.
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5 Responses to Çerenícima Autêza…

  1. Moema says:

    Algumas pergunta deixam a minha consciencia inquieta: Quem vai ganhar o que com isso? Sei que as editoras vao ganhar muito vendendo novas gramaticas. Mas alguem, alem deles, estara´ganhando. Quem? E talvez a mais impertinente das perguntas: No que isso melhora a vida do brasileiro medio? Responda-me, o´Oraculo!

  2. Ricardo says:

    Passo a palavra ao Lobato:
    “Depois da tremenda revolução ortográfica da Emilia, o Brasil ficou envergonhado de estar mais atrasado que uma bonequinha de pano e resolveu aceitar suas idéia.(…) Não saiu coisa muito boa, mas serviu. Infelizmente cometeram um grande deslize: resolveram adotar uma porção de acentos absolutamente injustificáveis. Palavras que sempre existiram sem acentos e jamais precisaram deles, passaram a enfeitar-se com esses risquinhos. O coitado do “ha” do verbo haver, passou a escrever-se com acento agudo – “há”, sem que nada no mundo justificasse semelhante burrice. (…) E apareceu até um tal trema que é implicantíssimo. A pobre palavra “frequencia”, que toda a vida foi escrita sem nenhum acento, passou a escrever-se assim: “frequência”.”

    Isto foi escrito em Emília no País da Gramática, em 1935, com versão final de 1945. Apesar de inimigo figadal da Gramática, Lobato era conhecedor profundo da língua, e ainda jovem leu dois alentados volumes do Aulete; dizia que era incrível saber o exato sentido de cada palavra, usando-a com propriedade.

    E ele sempre repetia que a língua Inglesa não tinha acentos, ao contrário da francesa. Foi por isso que os ingleses dominaram o mundo, enquanto os franceses perdiam tempo acentuando palavras.

  3. Leticia says:

    Moema: não só novas gramáticas, mas reedição de tudo. Como se sabe, o brasileiro é muito sensível e poderia se prejudicar sobremaneira ao ler um texto “velho”.

    Ricardo: eis. O trema vai, o trema vem, ao sabor dos chás acadêmicos.

  4. Raquel says:

    Leticia,
    era ao sabor dos chás acadêmicos, agora é ao sabor de pinga vagabunda!

    Ricardo,
    adorei saber essa do Lobato sobre os franceses!

  5. Ricardo says:

    Raquel, vc não sabe a ojeriza que Lobato tinha à acentuação. Vivia mandando bilhetes mal-criados aos tipógrafos que insistiam em acentuar seus livros. E criticava os franceses pelo excesso de acentuação sim, depois vou achar a entrevista que ele deu sobre isso.

    Mas o importante é que ele se reconhecia falho em acentuação e virgulação, prova que encontramos na segunda edição de Urupês, quando ele diz ser “(edição) augmentada, revista e com vários pronomes recollocados pelo snr. Adalgiso Pereira, excelente amigo que a enriqueceu ainda de numerosas virgulas, aspas, hyphens, e outras miudezas cuja auzencia afeiava o original.”

    Isso foi escrito em setembro de 1918, e vemos a ortografia mais antiga ainda, com “zz”, “yy” e “ph” em palavras que posteriormente foram modificadas. Acentos, porém, quase não havia, como vc pode ver pelo excerto.

    E sempre dizia que por mais que os gramáticos legislassem, a língua era coisa orgânica, viva, e portanto impossível de submeter-se à leis criadas pelos “Carranças” (apelido carinhoso que ele deu aos “pais da língua”).

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