Echos da provincia

Tenho trabalhado como um camelo.

Ontem foi um dia típico (alarme!, alarme!): comecei às 8 da manhã e só larguei às 11 da noite, fazendo refeições com certa culpa. E depois… depois liguei um pouco a TV e fui dormir, oras…

Peguei um teco da entrevista do Caetano no Jô Soares. E foi aí que fiquei sabendo que ele agora tem um blog. E foi aí também que soube das críticas do Estado e da Folha ao seu show dos 50 Anos de Bossa Nova com o Roberto Carlos. Fui ver os três. O blog tem um dizáiguini, e tal, e não me atraí pelos comentários. Para cada cem desejando muito axé tem um que valeria a pena ler – não posso me dar o luxo de perder esse tempo. Já as críticas da Folha e do Estado , me sobrou a impressão de que ambos gostariam que Caetano bolasse uma nova tropicália a cada apresentação, ainda que seja uma homenagem a oooooutra pessoa, oooooutra entidade.

Entre tudo, me chamou a atenção um parágrafo de Sylvia Colombo, da Folha:

Eventos elitistas, onde cantar baixinho sobre o amor, a saudade, o Corcovado e as belezas da orla carioca legitimavam o privilégio e a sofisticação de uma casta.

Além do astronômico erro de concordância, senti nela (gostaram do senti… nela?) um conflito pessoal  escondido na crítica social. Ou, no popular, um cotovelo em carne viva mesmo, sem razão de ser. Essa enumeração quase-deboche…. Talvez ela ache que, ao comemorar 50 aninhos, toda a história da bossa nova deva sofrer uma ruptura revolucionária e se mudar pra Ermelino Matarazzo, num showzão digrátis num parque bem grandão, com todo mundo acompanhando “Desafinado” com as mãos pra lá e pra cá e comendo torresmo.

Não sei porque alguns pensamentos por aí sonham em ver uma maçaroca social. Uma questão de ordem, que traria ao mundo um tédio sem fim: todos usufruindo tudo do mesmo modo, pra não haver injustiça nenhuma. É como se o Capitão Nascimento chegasse de caveirão na casa do Wuonderclêisson e berrasse: Isso é o LP Chega de Saudade!!!! Ouve isso até cansar que amanhã eu volto pra colher suas impressões!!!!

Outro exemplo: na entrevista de ontem, o Jô pediu uma palhinha e comentou que toda vez que ouve “Sampa” lhe dá um troço no coração (me surpreendi – guardava essa emoção só pra mim, dããã…). Mas não dá pra imaginar “Sampa” cantada na animação, no suor, na energia, no “aí galééééééééhhhhhhrahhhhhh!!!!!”, não é mesmo? Pois é.

Pára, pô! Que saco! Cada coisa tem seu lugar nesse mundo! Há coisas jererecas, outras sofisticadas. Há sapatos baratíssimos, e os que custam uma fortuna. Há pessoas elaboradas, outras não. Há botequins e boates. Há shows caros, há shows baratos, há CDs, há LPs (!) que qualquer um pode ouvir. E cada um tem sua casa, seus gostos, seu mundo particular que pode povoar do jeito que quiser.

  • Fotos: você há de encrencar com esta foto do Olavo Setúbal, mas é que a vi ontem no Claudio Humberto e achei uma sacanagem sem tamanho com ele: não dava pra corrigir a cor? Tá bom, daí esqueci. Hoje de manhã parei no sinal e vi um homem no ponto do ônibus. Nossos olhos se cruzaram, sem qualquer fadismo. Ele também estava de terno roxo. E agora vejo Roberto Carlos nesta foto (AE). De terno em outro tom, mas ainda roxo. Será isso um aviso dos céus, tipo “Nunca use um terno roxo”?

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7 Responses to Echos da provincia

  1. Paulo Araújo says:

    Permanecendo no tom impressionista do post, os ternos me pareceram na cor azul real. Concedo que o do Setúbal puxa para o roxo. Mas não o do Roberto.

    Li hoje reportagem na FSP sobre o Caetano reclamando da crítica. Não fui conferir novamente, mas lendo o que você escreveu é mais ou mesmo o que ele disse. Com a diferença que você escreveu mil vezes melhor do que o que ele disse ou foi publicado.

    Pegou na veia o lance da jornalista. Ela expressa a forma mentis que está profundamente incrustada no jornalismo made in Grotão: sempre concluir que tudo é culpa da Zelite.

    “o privilégio e a sofisticação de uma casta”

    Putz! Será que ela tem orgasmos múltiplos quando escreve assim?

  2. Leticia says:

    Sei lá, me pareceu roxo também. Ou então é um azul sou-artista-e-posso. Ou então a cor da foto da AE é que está alterada. Ou foi a luz do show. Sei lá.

    Obrigada pelo elogio, Paulo, é fofura de sua parte. Mas apenas comentei sobre o que ele disse: que são críticas provincianas. Só fui conferir e… batata. Essa frase aí despiu o perfil da moça.

    Se ela um dia se metesse entre compositores de escola de samba saberia o que vem a ser uma casta de verdade. Já não diria o mesmo da sofisticação…

  3. Fábio Max says:

    Ih Lets!

    EU tenho trabalhado feito burro de carga… estamos no mesmo barco!

  4. Leticia says:

    Lerêêêêêê, lerêêêê….

  5. Raquel says:

    acho que jogaram anil, no terno do Setúbal e nas cataratas ao fundo!

  6. Ricardo says:

    O Paulo disse tudo sobre o editorial flanelístico: matou a pau.

    Falando no Olavo, que já tornou ao pó, uma falha lamentáááável em minhas genealogias paulistas: ele era filho do escritor Paulo Setubal, e eu nunca havia atinado pra isso.

    O pai viveu numa pindaíba danada, e morreu novo, aos 40 anos, mas o filho se vingou: ganhou zilhões de caraminguás e viveu atééééééé.

  7. Tambosi says:

    Não tinha acompanhado a pendenga nos jornais. A Lets acaba de me informar tudo, com a ironia de costume. Pronto: a cronista de São Paulo (nada a ver com os croniqueiros barriga-verdes).

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