
Não é todo mundo que pode se dar a esse luxo. Eu mesma vivi uns duzentos anos sozinha, e sei que ligar o rádio ou a TV pela manhã não surte o mesmo efeito.
Mas voltar a viver com os pais, passado o período de readaptação, tem inúmeras vantagens. Primeiro a gente troca a gastronomia selvagem de quem mora só por um cardápio mais balanceado, já que mamãe faz questã que eu vá comer todo santo dia lá em cima (moramos no mesmo prédio). Assim tem sido. Eles tomam o café lá pelas 7 h, 7 h e pouco. Dependendo do dia, eu chego lá depois, ou muito tempo depois, e a mesa está lá, postinha pra madame aqui.
A essa altura do campeonato, papai já está espumando com a Reserva Raposa Serra do Sol, com as indenizações a terroristas ou a cotação da Bolsa, e aproveita para andar pela sala com o jornal na mão, fazendo um pequeno clipping em voz alta para mim. Já não tenho muito apetite pela manhã – eu como por obrigação, porque não quero sentar pra trabalhar e sentir fome logo depois. Dependendo das novas do dia, fica difícil ingerir algo mais sólido que uma xícara de café.
Mas hoje, sinceramente, fui obrigada a fazer uma análise crítica do coitado do pão integral que estava comendo. Papai me resumiu uma notícia no Estadão de um tal Projeto de Resgate da Medicina Tradicional da População Indígena a ser adotado por alguns hospitais do estado. Olha só:
Atualmente, as índias guarani rejeitam a assistência pública e preferem dar à luz na aldeia, porque no hospital fica difícil seguir a tradiçã étchnica de enterrar a placenta (tem de ser em solo fértil; os índios juram por Tupã que esse enterro ritual dá um up na vida do rebento) e seguir uma dieta composta de frango (recém-abatido; congelado não vale), arroz, mingau e milho. Por conta disso, o estado, preocupadíssimo com a alta taxa de mortalidade entre as tribos, decorrente dessa rejeição, resolveu prover as índias com esses quaisquaisquais todos.
Olhei para o pão, já com uma mordidinha, e desanimei.
Vamos ao serviço: os hospitais que oferecerão o parto alternativo são os seguintes:
Capital: Hospital-Geral de Pedreira e Hospital e Maternidade Interlagos.
Litoral: Santa Casa de Ubatuba, Irmandade Sagrado Coração de Jesus (São Sebastião), Hospital e Maternidade de Bertioga, Hospital Regional de Itanhaém, Hospital e Maternidade de Mongaguá e Unidade Hospitalar de Peruíbe.
Interior: Hospital Regional do Vale do Ribeira (Pariquera-Açu) e Hospital São João (Registro).
- Imagem: body expression botocudo para todos, já! Questão de tempo.
- PS: Adoro, adoro e adoro minha rotininha familiar.



Let me see…
além do mingau-gororoba com frango e arroz, vão fazer um galinheiro e enterrar as placentas nos tais hospitais?
Que Tupã nos proteja!
Temos bem mais coisas em comum do que você imagina!
Nada, Raquel. Devolvem à mãe numa caixinha. Ela que enterre na sua maloca.
O que, Fábio? A inapetência matinal?
Ah, que bonitinho! Deus queira que algumas etnias reinvindiquem o direito à antropofagia ancestral; já pensou a limpa que ia ser?
Podia ser uma mistura de Fome Zero com controle demográfico.
Pois é, né, Ricardo… Dessa parte esqueceram.