
São Paulo (ainda) concentra umas coisas que eu vou te contar. De abrigo das melhores mentes na primeira metade do século passado – como notou Mário de Andrade -, Sumpa passou a receber qualquer um que se julgasse acima dos demais. Ou seja, 99,9% da populêichon.
Isso pode ser bom ou pode ser muito ruim. Ou, numa alternativa, divertido.
Dentro do assunto, falei faz um tempinho do domínio de línguas em citações de botequim. Mas hoje, por mil analogias, penso nas apresentações pessoais. Currículo informal é o flagrante em preto-e-branco da pessoa. Não do que ela diz ser, mas do que ela verdadeiramente é. Chega a comover: aquele cerumano com dez auto-qualificações que oscilam entre o exagero e a mais deslavada mentira. Deve ser bom pra traçar alguém eventualmente. Mas não rende muito numa entrevista de RH.
Certas profissões ou ofícios são alvo da tara humana. “Adevogado”, por exemplo. Quanta gente você conhece sem OAB que posa de jurisconsulto pra vizinhança? E quando acha de pegar pivete pelo cós da bermuda? É, eu já vi… Professor é outra fissura. Jornalista? Xi, jornalista é o que há! Botou uma notícia no blog, pronto, é jornalista! E consultor de alguma coisa? Isso é um periiiiigo!!!! Escritor? Bem…, escritor eu pulo.
Fulano, músico E pintor. Fulano, editor E consultor de feng-shui. Fulano: advogado, representante, autor, tradutor, músico E filósofo. Fulana é casada, consultora de beleza E esteticista (e escritora, óóóbvio!). Fulaninho: webstylist E fotógrafo. Isso sem contar o currículo IURD: Fulanoleide: empresária.
Por vezes constato que, mais do que os atributos positivos que a gente está cansado de saber, a internet e toda a nova forma de comunicação que ela trouxe acaba colocando aqui, bem no meio da nossa cara, um monte de egoportentos vindos dos mais longínquos rincões da mente humana. A web é o ambiente ideal para as nulidades equivocadas. Primeiro porque ninguém pode comprovar nada. Segundo que a humanidade é crédula até a raiz dos cabelos. Terceiro que os agentes crêem firmemente na importância descabida de si mesmos na frente de um espelho – ou de um monitor.
No meu tempo, a pessoa tinha um ofício. E ganhava a vida com aquilo, com certo orgulho benéfico. E se mudava de carreira, ou para uma cidade maior, o fazia com um pouco de humildade, como convém aos cordatos. Hoje não: todo mundo é de um poder gritante, cuidadosamente montado entre mil maneirismos terminológicos, cigarrísticos e estilosos.
Sei… vai falando aí que eu tô ouvindo.
- Imagem: tirinha antiiiiiiiiga (e sem data) do Angeli, que ganhei e amarelou na gaveta. Pena que perdi uma outra dessa mesma série, que apresentava “Agnobaldo Freidas: advogado”.



Puxa, Letícia, muito interessante e ilustrativo o seu artigo.
Parabéns do Ricardo, feirante e publicitário e restaurador e pesquisador e (claaaaaro) escritor. Também faço carreto.
hehe
Ironia do destino é uma beleza: olha o link que aparece aí nos anúncios:
Fernanda Nogueira
Personal Single. Cuidando da sua imagem pessoal.
Eita mundo véio sem porteira!
E o outro! Ainda bem que Raquel não está em casa. Ela fica tiriri com esse negócio de virar profissional aprendendo a “mexer” num software.
Quanto à outra, fio, cada um se vira como pode. Vai que o webstylist ainda está inseguro com sua imagem, uai?
Ricardo, meu filho, carreto??? está contratado.
Não existe classe que goste mais de esfregar seu currículo no rosto dos outros que a dos “adevogados”… tô ficando velho, não aguento mais meus coleguinhas com suas pós graduações furrecas, escrevendo termos latinos nas petições e agindo como se tudo saibam ou para tudo tenham solução…