Arrumando traça pra me coçar

Rolou uma liqüidação familiar. Titia resolveu largar sua casa enorme e se mudar para um apê, no que faz muitíssimo bem. Nessas, têm vindo algumas coisas de vovô para moá – notadamente livros não técnicos, coisa que prezo muito, seja para consultas, seja para restauro, seja só pelo fato de terem pertencido a ele, como algumas coisas em húngaro – o perequeték de que minha avó falava -, língua que absolutamente não entendo. (Os livros técnicos são da seara dos dois netos homens, que lidam com essas coisas.)

Estou sem a maquineta aqui para fotografar pra vocês, mas agradeço de joelhos uma coleção inteirinha de Os Pensadores, da Abril Cultural, que está limpa e alinhadinha na estante, bem aqui na minha frente. Junte a isso a coleção Jackson de Machado de Assis que era da minha avó (a outra avó) e pronto, posso começar em pensar a ter uma decoração de livros a metro. E ela (a dos Pensadores) é muito curiosa: nota-se que os 52 volumes foram devidamente lidos (uns até ficaram com a douração gasta, oxidada pelo manuseio. Outros vieram com um pedaço de papel qualquer, que obviamente serviu para marcas páginas). Mas nenhum, nenhum deles tem sequer um rasgadinho daqueles clássicos, próximos ao cabeçeado superior. Estão inteiros, todos os volumes mais os três sobre a vida dos entes – aqueles fascículos coloridos que acompanhavam os livros. Tenho tendência a achar isso quase um milagre.

Outra coleção que me veio inteirinha e inteiraça – roam-se de inveja! – é a Nosso Século, também devidamente encadernada e limpíssima.

Vieram ainda outras coleções menores, muitas também da Abril Cultural, a única editora que fez coleções basiconas vendidas em banca pra gente comum, coisa que considero uma qualidade, um momento único em Botoculândia.

E muitos, muitos dicionários, geralmente húngaro-alguma coisa. Apenas um deles tem capa. Apenas um deles envolve o português. A maioria está em petição de miséria. Todos passam por uma limpeza – um pouquinho a cada dia – e serão cobaia para minha nova empreitada restaurística daqui uns meses – o relevo em couro e a douração.

No meio dos livros avulsos, onde tem de tudo, há uma revista húngara, cujo nome não saberia reproduzir, que cobre com fotos o período de 1916 até 1930. Ela está encadernada em tecido, com o selo de encadernação de uma senhora aqui em São Paulo. São fotos interessantérrimas, desde Francisco Ferdinando e seu uniforme ensangüentado até Trotski, Lênin e Rosa Luxemburgo. Obviamente, essas fotos não se encontram por aí. Quando puder, vou postando uma e outra cujo objeto reconheci e – milagre – consegui desvendar a legenda.

Uma delas traz Gandhi. E é estranho ver uma foto publicada no tempo em que o cara estava vivo. E ele era escancaradamente desdentado. Daí pensei como o tempo vai fazendo um grande photoshop com os mitos. Um pensamento leva a outro e aventei a possibilidade de Jesus Cristo também ter sido, na verdade, banguela.

Prosseguindo: fiquei também com  telefone do vovô. Como disse um post abaixo, papai está ajeitando pra ele ser usado de fato. A mim cabe apenas limpar, com metilan, o selinho de papel do meio do discador, onde está escrito algo como “Companhia Telefônica Brasileira – aguarde o sinal de discar”, com o número antigo escritinho no meio, com a letra da minha tia.

Isso e mais um monte de outras coisas, que me obrigarão a repensar alguns móveis aqui em casa.

Podem achar estranho à vontade. Às vezes eu também acho. Até porque virão outras levas.

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8 Responses to Arrumando traça pra me coçar

  1. E tem vinil? Eeeeeeeeeba!
    Vc restaura livros mesmo? Que delícia! No máximo restauro fotos de sacanagem dos anos 80 pra traz… Aprendi muito de Photoshop fazendo isso.

  2. Moema says:

    Ai que delicia!
    Adoro liqui familiar. Em geral da´para garimpar umas coisas bem legais. As vezes consigo pegar rebarbas nas sobras de familias de amigoes. Mas da ultima vez me dei mal – fiquei com um monte de livro esquisito. Acabei doando.
    Quanto a Jesus, provavelmente teria poucos dentes e deveria ser meio fedorento, como toda a populacao da epoca.

  3. Leticia says:

    Miguel, eu restauro assim, como deve ser feito, mas domesticamente. Não trabalho com isso. Nem a Raquel trabalha com restauro, só com encadernação artesanal. Quem trabalha com isso efetivamente é o Ricardo.
    Eu já uso algo de computador (afinal, é um saco montar uma capa e mandar gravar, leva muito tempo e eu não tenho paciência de esperar). Mas no restauro restauro mesmo o povo usa nanquim, e quando há algum reparo gráfico, é na unha mesmo, com caneta ou com a tinta que mais se adequar.

    Moema, eu cato o que resta dos antepassados. Não é sempre que os filhos têm saco pra guardar tudo. A vida segue e tem muita coisa que se foi. Mas quando o objeto é interessante (nem precisa ser bonitinho) eu pego, sim, e muitas vezes restauro, ou simplesmente guardo como patrimônio familiar. Isso gera um problemão às vezes, como o aspirador de pó dos meus pais. Aquilo funciona, mas é pesadíssimo. Só que não tenho coragem de passar adiante.

  4. Raquel says:

    preciso, visitar esse novo acervo… ai ai!

  5. Fábio Max says:

    Esse é o tipo de presente que eu gosto de receber… pena que meus parentes não são chegados à leitura.

  6. Pablo says:

    Que coleção maravilhosa, Leticia! Confesso que bateu uma invejinha. Não deixe de nos mostrar algumas fotos.
    Achei interessantíssima sua teoria sobre a photoshopagem e a banguelice alheia. O pior é que você deve ter razão. Queria ver essa foto do Mahatma.

    Beijo,

    Pablo
    http://cadeorevisor.wordpress.com

  7. Leticia says:

    Pois é, Pablo, a máquina fotográfica está meio longe. Mas assim que ela voltar eu tiro umas fotos, sim, tanto de Os Pensadores (a gente tem outra conte mais confiável?) quanto do Mahatma e outras sinistríssimas, podeixá.

    Sempre resta alguma coisa, Fábio. Unzinho que seja.

    Raquel, umas garagens se vão, outras garagens surgem… e assim caminha a humanidade.

  8. Ricardo says:

    Ah, essa frase sobre inveja da Nossa história foi pra mim, né, dona? Confesso, estou com inveeeeja sim. hehe

    Bem, como eu sou o fiel depositário de toda a memorabilia da família e agregados, entendo perfeitamente. Só não sou tão caprichoso e imediatista como vc, que limpa e ajeita tudo. Eu arrrumo alguma coisa e o resto vai ficando pro atribuladíssimo dia de São Nunca…

    Mas tem dias que crio vergonha: hoje foi a caixa com retalhos de couro pra encadernação. Já dei uma arrumada, separando o aproveitável do lixo. Agora é dar uma limpada e hidratada e usar.

    E é muito bom restaurar, Miguel. A Lets esconde o ouro, ela faz isso MUITO bem também. Precisa ver a coleção de dicionários da moça, agora reforçada com os “hungareses”…

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