Rezar e ajoelhar – reflequissões num frio de rachar

Tenho pensado muito em rezas, orações. Um porque tenho ouvido falar delas aqui e acolá. Dois porque já deixei de pedir coisas a Deus faz tempo – não por não ser “abençoada”, muito pelo contrário. É que tenho por princípio não encher o saco de ninguém. Quando falo com ele, é muito de vez em quando, no chuveiro, como fiz anteontem, e só pra agradecer no geralzão, e na maioria das vezes induzida pelo conforto da quentura da água. Três porque me deu certa culpa social em imitar o tremelique da imagem de Jesus numa procissão, hoje de manhã, pro meu sobrinho, que pescou a coisa de maneira constrangedora. Quarto porque o papa ralou os joelhos hoje, e pensei: aêêê, se lascou, hein! O bicão do Prada tá muito grande, é?

Então resolvi escrever. Penso no sentido delas: se surtem de fato seus efeitos, e se todo mundo que reza realmente acredita que obterá, e obtém, coisas por merecimento ou pela graça. Senão vejamos:

1) Uma pessoa, pelo fato de pedir coisas a Deus insistentemente, tem mais direito a elas (sei lá como funciona a justiça dos céus) do que aquela que, apesar de ser ciosa nos seus desejos, não recorre a Deus por qualquer dá-cá-aquela-palha?

2) Será que qualquer pedido (desde a ânsia pela cura de um doente até um fervoroso clamor para que não chova pra não estragar a escova) é atendido por Deus, desde que bem-feito e repetido trinta vezes ao dia?

3) Será que os abençoados de sempre, as fortalezas d’alma, os consagradíssimos, nunca lhes acontece nada de ruim?

4) Será que uma oração feita com palavras bonitas e colocadas, oriundas de um raciocínio idem, são mais eficazes que aquelas ininteligíveis, vindas obviamente de raciocínios turvos? Ninguém vai me dizer que quem invoca a Deus aos berros, com vocativos meio desconexos, tem algum pedido razoável formatado na mente, não?

5) Chego à conclusão de que, se for pela lógica da coisa – a Bíblia diz: “você pede pouco e pede mal” -, a gente tem de mandar ver no desejo e pedir logo, sei lá, um castelo na França com IPTU pago, o tempo todo, até Deus cansar e dizer: “ai, droga, toma isso logo de uma vez e não me enche mais o saco!”.

6) O que será que Deus faz quando chega lá em cima um pedido do tipo: Oh, senhor meu Deus e meu pai, Senhor dos Exércitos, Leão de Judá, refúgio e fortaleza nas aflições, fazei com que fulana ligue o celular para que eu possa falar com ela para que, ao trocar seu sutiã na loja, ela me traga um modelo igual conforme eu pedi. Tocai o coração de fulana para que, caso ela esqueça de ligar o celular, lembre-se de mim! E tu, ó Pai, Deus Pai Todo-Poderoso, em nome de Jesus, abre o coração de fulana para que ela dê o sutiã de presente para mim, já que meu cartão de crédito estourou e fulana é rica, porque recebe hollerith e tem casa própria. Bufa e provê? Ou joga a ficha fora? Será que Deus faz arrumações no escritório?: “Não, este cara é um pentelho”, “guarda essa que eu conheço a mãe dela”, “esse aqui você passa na frente”, como faz qualquer diretor de sindicato?

Se as orações realmente surtem efeito taliqual a receitinha, apenas os chatos de voz empostada se dão bem neste mundo. E os mais retraidinhos que se danem.

  • Foto: Giuseppe Giglia, EFE.
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10 Responses to Rezar e ajoelhar – reflequissões num frio de rachar

  1. Airton says:

    Reflexão do dia para iniciar mais uma semana.

    ‘ A riqueza influencia-nos como a água do mar. Quanto mais bebemos, mais sede temos”

    Artur Schopenhauer filosofo alemão

    “O que um indivíduo pensa, acredita e diz a si mesmo influencia o que ele sente e o que faz”. Nathaniel Branden, psicoterapeuta e escritor, EUA

    Bom inicio de semana.

  2. Paulo Araújo says:

    Lets

    Sobre tal assunto é sempre melhor consultar os poetas. Eles são preferíveis aos cientistas e filósofos, principamente se forem agnósticos.
    Retirei a passagem deste ótimo blog
    http://citador.weblog.com.pt/

    A Bíblia por Goethe
    Discute-se muito e há-de continuar a discutir-se em torno das vantagens e inconvenientes da divulgação da Bíblia. Para mim o assunto é claro: será perniciosa, como sempre o foi, se for usada de modo dogmático e fantasista; e será útil, como sempre o foi, se for encarada de modo didático e sensível.
    É minha convicção que a Bíblia se torna tanto mais bela quanto mais a entendemos, ou seja, quanto mais se percebe e simultaneamente se intui cada uma das palavras que vamos apreendendo como coisa geral e que aplicamos ao nosso caso como coisa particular teve um dia, em certa situação, em determinadas circunstâncias de tempo e de lugar, uma aplicação individual própria, específica, imediata.

    Johann Wolfgang von Goethe, in ‘Máximas e Reflexões’
    http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200310200828

  3. Paulo Araújo says:

    Lets

    Esta é a quinta tentiva para um mesmo comentário. Juro que antes fui econômico no texto. Neste serei minimalista. Nos próximos só enviarei nanocomentários.

    Eu queria dizer que achei bacana o post e que ele contempla perfeitamente os dois primeiros mandamentos.

  4. Leticia says:

    Não há problema nenhum na extensão dos comentários, Paulo. Você ficou no barrado no spam mesmo. Fui lá e desbloqueei o primeiro comentário (já que os outros eram repetição).

    Quanto ao assunto em “questã”, fico imaginando como essa lógica toda fecha, sujeita que fica a qualquer loucura, a qualquer tipo de educação, a qualquer idiossincrasia.

  5. Airton says:

    Paulo Araujo,
    A indicação do blog Citador foi ótima.
    Já coloquei entre os meus favoritos.
    Um abraço do
    Airton

  6. Ricardo says:

    Como dizia meu bisavô, “a boa oração faz quem sua casa traz em paz”…

    Amém

  7. Paulo Araújo says:

    Airton
    Esse blog é como se fosse uma livraria na qual podemos entrar somente para folhear livros.

    Lets
    Pedir aos deuses que intercedam favoravelmente pelas nossas demandas é tão antigo quanto o homem. O Harold Blum no “Onde encontrar sabedoria” escreveu que uma pesquisa nos EUA mostrou que uma imensa maioria (não estou com o livro, mas acho que uns 80%) de americanos acredita que Deus fala pessoalmente com eles. Fantástico, não é?

    Na religiosidade popular católica eu acho legal o papel dos intermediários. Tem santos e santas para tudo que possamos imaginar.

    Você nua na quentura da água do chuveiro conversando com Deus é uma imagem e tanto. Uma Santa Tereza pop em êxtase mísitco enrolada na cortina de plástico transparente estampada com peixinhos vermelhos. Embaixo da imagem a legenda: Ela gozou!

    http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4c/Ecstasy_St_Theresa_SM_della_Vittoria.jpg

  8. Paulo Araújo says:

    Lets

    Olha nos barrados. Mandei agora a pouco um outro comentário.

  9. Leticia says:

    Senhor Jesus, livrai-me dos tarados que ficam imaginando moças de família em reflexões sinceras por entre cortinas de plástico, oh, Deus!
    Agradeço enternecida a graça por Tu concedida à tua humilde serva por conseguir instalar boxes de vidro em sua santa casinha, e livrá-la de vez das cortinas de plástico.
    Amém!

  10. Tambosi says:

    Os meus deuses são surdos, mudos e cegos.

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