
Uma viagem pela Dutra requer alguns momentos de abstração, senão o ente se mata de desgosto. Além da própria desgraça que transpor a Dutra, um dos trechos mais deprimentes do trajeto é quando se começa a vislumbrar o vale do Paraíba, umbral dos jeca-tatus em São Paulo: Guaratinguetá, Lorena e, finalmente, o ápice do subdesenvolvimento piedoso: Aparecida do Norrrrte.

Em Aparecida, malgrado a cidade levar o pomposo nome de Santuário Nacional, tudo é sujinho. As ruas são feias, a panorâmica da cidade é horrorosa, os hotéis causam ânsia só de olhar de longe, da estrada; e os botequins são dignos de romeiros manguaçudos. Entre as lojinhas improvisadas e os camelôs, vende-se o mais do mesmo de toda a porcaria do incrementadíssimo comércio de salvação. Santinhos mal-moldados, fitinhas, Nossa Senhora Aparecida de neon, canecas com peitos, forro de bolinhas de madeira para motoristas, cachaçômetros, rosários vagabundos, e, o pior, aqueles ex-votos que me faziam perder o sono quando criança, de tão macabros que são.
Quando meus pais moravam em Minas, eu ia de ônibus cata-jeca, e era um tormento quando percebia que o busão ia entrar pra pegar algum desinfeliz lá dentro. A rodoviária é coisa de você enfiar a cara em um livro ou revista, só pra não ter de ver aquela arquitetura e aquela gente miserável, andando sem rumo e fazendo não sei o quê naquele fim de mundo.
E o mais irritante é ver, em meio àquela miséria, erguer-se a basílica, único reduto onde o dinheiro entra a rodo – e não sai de jeito nenhum. Aos inimigos do capitalismo é muito normal que gente miserável do país inteiro vá para lá pedir as coisas – metafisicamente, é claro – e não receba. É natural que a padraiada se entupa de comida e tenha uma vida sem maiores preocupações, enquanto vende – caro – esperança pra gente ignorante.
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Fotos: Acima (Mário Angelo, AE): em Guaratinguetá, conurbada a Aparecida, moradores se estapeiam por ovos caídos (!) de um caminhão tombado; Abaixo (Vagner Magalhães, Terra): Aparecida em dia de festa para ver um cara que não se envergonha de calçar um Prada na frente dessa gente toda. Afinal, o povo não repara mesmo…



Quando morei no Rio, ia e voltava para Sao Paulo de carro, aindei muitos e muitos quilometros pela Via Dutra. Eta, estradinha! Indo em direcao ao Rio a belezura comeca em Lorena e nao termina mais.
Ah, Lets, sala dos milagres é pop!
Vocês nunca estiveram em Rio Branco do Sul e Itaperuçú…
Se quiserem ter uma idéia, vão à Carapicuiba e tirem 50% da feiúra, porque Carapicuiba é certamente o lugar mais feio que eu já vi na vida!
Pra quem não gosta da Dutra existe avião…
Pra quem não gosta de Aparecida conhece bem a cidade…