1 rapapé vale… 1 rapapé

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Como a maioria dos viventes, já tive meus momentos-pindaíba, em que aceitei uma colocação que estava muito aquém das minhas capacidades e tive de me submeter à miséria dos fodidos de alma. Nessas, já engoli muito sapo em nome do holerite no final do mês. Isso foi até 1995. Daí por diante, mandei todo mundo praquele lugar e jurei pra mim mesma que nunca mais me submeteria a gente mais econômica e mais desestofada do que eu. Nem que isso me custasse uns cortes no orçamento.

E assim tenho prosseguido. É claro que não virei uma louca, que dá as costas à primeira contrariedade. Se não quisesse pousar os olhos em gente medíocre, eu me enfiaria numa caverna e soltaria lá de dentro a alavanca da pedra. Continuo com meu bom senso. Mas meu limite de paciência diminuiu muuuuuito.

E minhas últimas experiências, com a atual conjuntura brasileira, me permitem afirmar: geralmente, é muito, mas muito melhor você trabalhar com um muquirana de direita (vamos usar esse maniqueísmo, que ainda existe, e muito). Sabe por quê? Porque um muquirana de direita tem plena certeza de que você está ali pelo dinheiro. Ele sabe negociar, porque tem olho pra achar gente que trabalha direito e valoriza o empenho de cada um. A coisa vem de pai pra filho, é algo atávico, e, como tudo que é antigo, se sofisticou um pouco.

Já um muquirana de esquerda está crente de que todos lá trabalham por idealismo, e que por isso você tem o maior prazer em obedecer de graça, burra e cegamente qualquer ordem que receber, por mais alienada e absurda que seja.

Os muquiranas de esquerda têm toda razão. Afinal de contas, estão cercados de estudantes retardados, que não vêem mal nenhum em interromper seu trabalho intelectual para  passar um cafezinho, desenrolar um tapete vermelho enquanto a água ferve e servi-lo, cheio de rapapés e clichês de luta.

A semana que passou eu mandei um deles – de esquerda, claro – pro inferno. Até aí, normal, mesmo porque o que recebia lá não pagava nem meus impostos. Tinha-o como criente em nome da diversidade que qualquer empresa deve ter. Simultaneamente, fiquei sabendo do aborrecimento de um amigo cujo projeto está pra ser assinado com um órgão recém-criado do atual governo. Um órgão com muita grana investida e poucos consumidores (e com um logo pavoroso. Quem pensou nisso aí acertou). E então me dei conta que o procedimento é o mesmo, pontilhado de e-mails e telefonemas de subalternos que não sabem nem por que estão fazendo aquilo: Venha para cá imediatamente, temos reunião depois de amanhã; Não vou poder, tenho um compromisso; E se a gente mandar a passagem?; Não, você não entendeu, tenho um compromisso; Então manda por e-mail um não-sei-o-quê, assim assado. Nem diz pra quê. O cara manda. E depois um tenebroso silêncio. E nada de contrato assinado.

É, basicamente, o procedimento com que eu vinha lidando e que já estava me enchendo os pacovás: Faça não sei-o-quê; Não tenho tempo agora; Interrompa não-sei- que-lá e faça esse; Você não entendeu, não tenho tempo agora; Não combinamos nada sobre isso; Ah, é? Então vai acontecer isso e aquilo; Por mim, pode mandar bala. Mas na semana que vem, porque nem antes nem depois eu terei tempo. Se quiser, interrompo e devolvo o que estou fazendo agora. Faz as contas aí que eu dou quitação na nota. Sem problemas.

Pronto, falei.

  • Foto: (IMDb, Gone with the Wind, Victor Fleming, 1939) Scarlett O’Hara em Tara, depois de ter dito, com um nabo na mão, que jamais passaria fome novamente. O meu caso nunca foi de fome. Mas o nabo eu tenho guardado aqui, pra qualquer eventualidade.
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5 Responses to 1 rapapé vale… 1 rapapé

  1. Ricardo says:

    Complemento de nossa conversa, né? rsrs

  2. raquel says:

    “As God is my witness, as God is my witness they’re not going to lick me. I’m going to live through this and when it’s all over, I’ll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I’ll never be hungry again.”

  3. Tambosi says:

    Ah, isso é conversa da tribo, não entendi nada…

  4. Leticia says:

    Você nunca viu “E o vento levou”, Tambosi?

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