As vilas operárias

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Se o Patrimônio Histórico e os vereadores podem se estapear hoje por nacos de terra na cidade, é por um simples motivo: São Paulo é hoje uma cidade de serviços. Apertar parafuso, ó, já era por aqui. Muitas das grandes fábricas que aqui foram erguidas no começo do século XX não passam hoje de construções abandonadas, sobre as quais babam lobos ávidos por um jabá imobiliário, de um lado, e o Patrimônio Histórico querendo preservar, por outro. O eixo Mooca-Tatuapé é um exemplo vivo-morto dessa transição. Quem passa por lá hoje vê inúmeros galpões, em tijolo aparente – como mandava a moda -, simplesmente vazios. A Prefeitura quer transformá-los… adivinha no quê? Em centros culturais, é óbvio! Estou preferindo o que fez a Universidade Anhembi-Morumbi: comprou o antigo prédio da Alpargatas, no Brás, deu uma repaginada e ali está ela, franca e favorita, funcionando a mil.

Entre 1899 e 1939, a São Paulo virou meeeeesmo um centro fabril. E os industriais trataram de construir vilas operárias: a idéia era que os empregados ficassem próximos às fábricas, e vivessem com um conforto suficiente para que pudessem trabalhar direito. Saía mais barato para os donos É de se lembrar que naquele tempo Brás, Mooca e Belenzinho eram lugares ermos, sem infra-estrutura alguma. Por isso as vilas eram entregues aos operários junto com comércio, assistência médica, creche, escola, igreja, lazer e tudo o mais, num pacotão só.

Existiram inúmeras dessas vilas, e também casas nas imediações, de propriedade das companhias, para moradia de seus empregados: alguns exemplos são a do Cotonifício Beltrano (!), em Osasco; a das Indústrias Matarazzo, na Água Branca e Vila Romana; a da Cervejaria Bavária, a do Cotonifício Crespi e a da Fábrica de Tecidos Labor, na Mooca; mas o caso mais característico é o da Vila Maria Zélia, no Belenzinho, idealizada e construída na década de 1910 a partir de uma experiência na Alemanha do empresário Jorge Street, dono de uma fábrica de jutas.

Considero o caso Maria Zélia típico do choque entre mentalidades: de um lado, o empresário, provendo – de seu ponto de vista – a seus 2.100 funcionários tudo o que eles e suas famílias precisavam. De outro, a reclamação dos operários, que se viam cerceados e vigiados naquele mundo onde todas as necessidades, teoricamente, estavam previstas. Eles não tinham, perante o patrão, motivo algum para pôr o pé na rua fora do horário de expediente. Trocando em miúdos, sentiam-se presos. Isso é o que se depreende dos textos de hoje, carregados de um pensamento vocês-sabem-o-quê. Mas imagino que muitos desses operários davam era graças a Deus de terem essas facilidades. Afinal de contas, não era nobres arruinados. Era gente pobre que, não fossem as vilas, sabe lá como iriam morar.

 

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Hoje, a Vila Maria Zélia, depois de passar por inúmeras mãos e se degradar até, tem uma Sociedade de Amigos, que quer preservar o local. O conjunto é tombado pela Prefeitura desde 1990.

 

  • Fotos: Acima: Vitrivius (a partir de foto do Álbum da Sociedade Anônyma Scarpa). Vila Maria Zélia nos seus primórdios Abaixo: Folha on-Line, do Guia da Folha. Vila Maria Zélia hoje.
  • Mais sobre a Vila Maria Zélia aqui e aqui .
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    8 Responses to As vilas operárias

    1. Fábio Max says:

      Aqui onde eu vivo, construiram um novo fórum do lado da prefeitura antiga, que é um prédio horroroso, quadrado, desfigurado pelo tempo e que não apresenta nenhuma caracteristica arquitetônica digna de ser preservada.

      Transformaram o elefante branco em “centro cultural”, que será usado uma meia dúzia de vezes e depois abandonado, como acontece com todos os espaços públicos desta cidadezinha mediocre aqui.

      Portanto o fenômeno é nacional. Vereadores inúteis que não sabem o que é cultura e patrimônio histórico, desatando asneiras e fazendo bobagens, como as aí de Sampa, onde, se todos os prédios que eles acham ter valor histórico forem tombados, faltará cultura para tanto centro.

      Sou da seguinte opinião: Se há vários prédios abandonados com uma caracteristica arquitetônica semelhante, preserve-se apenas um e os demais que sirvam ao progresso da cidade. Claro que fachadas e prédios históricos relevantes devem ser preservados, mas sinceramente, é bobagem querer transformar a Mansão Matarazzo num Museu do Trabalhador.

    2. Tambosi says:

      Estou conhecendo SP cada vez melhor através deste blog. Pudera, acho que leio uma repórter quatrocentona (nada de pejorativos aí…)

    3. Rick says:

      Bom, ontem postei o caso do Solar Crespi Prado lá no blog, e acho que esse da Maria Zélia é outro exemplo. Mas concordo com o Fabio: existem prédios que só são dignos de preservação pela fachada, sendo que a disposição interna ou já foi totalmente desfigurada ou não atende os programas atuais. Nesse caso – e só nesse – acho legal a modificação.
      Já a célebre Mansão Matarazzo nao tinha mesmo cara de museu do trabaiadô, mas daria um magnífico centro cultural, museu, sei lá, e com um imenso estacionamento.
      Mas preferiram deixar só o estacionamento…

    4. malu campos says:

      Eu tenho que criar vergonha nessa minha cara e tirar umas photos e te mandar.
      Aqui na minha cidade as fachadas de fábricas e de alguns casarões antigos foram conservadas mas internamente tem tudo do mais moderno aonde geralmente funcionam escritórios médicos, dentistas advogados, acho que esse é o caminho.
      Vejo, por aqui também, que primeiro deixam tudo se “desmanchar” para só então tomarem providências. Se alguém se interessar, aqui você chega a comprar uma casa dessa até por U$ 1.00, só que o trabalho e o dinheiro gasto para “recuperar” a obra e alto, pode-se tentar uma grana do governo estadual.

    5. Rick says:

      Mande essas fotos sim, Malu, tenho certeza de que a Lets fará um belo post. E obrigado pelos comentários lá no blog.

    6. Fábio Max says:

      Sabe quel é o problema?

      É que, quando inventam um “centro cultural” rola verba pública que desapropria o imóvel por preço beeeem superior ao de mercado, paga empreiteirase”ajuda” muita gente… por isso que prédio velho e caindo aos pedaços no Brasil é potencial centro cultural.

      Aí a Malu vem e diz que nos EUA você pode comprar uma casa destas por 1 dólar, com o compromisso de restaurar a parte histórica. Claro! Lá, pelo menos de regra, não existe essa barbaridade do Estado que tudo provê e que ajuda muito os amigos (salvo a indústria bélica, mas isso é outro assunto…).

    7. Leticia says:

      Verdade, Fábio! Cada etapa, um jabaculê.

    8. Seja lá como for, aqui em Santos os prédios do centro antigo estão ficando muito legais e o Alegra Centro foi um raro programa que deu certo! E sinceramente, parar destruir a memória de um lugar p construir coisa nenhuma que se manifesta em caixotões que fingem ser arquitetura, fala sério! deixa ficar casas antigas e vê se usam a criatividade com sustentabilidade nos espaços internos! receita infalível de sucesso!
      Os antigos Galpões da Votorantim , na cidade de Conchas estão ficando um pitéu!

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