
Este post estava pronto há uns dois séculos. Por motivos mais do que óbvios, ele teve de esperar um tanto. Agora que a poeira abaixou…
Faz uns anos incentivei meu pai a escrever suas memórias. Ele é um banco de dados ambulante sobre São Paulo, e não seria justo guardar isso para si. Escrever sem pretensão, sem grandes compromissos com formatos, isso e aquilo. Só escrever. Pros filhos, pros netos (a tungadinha aqui foi autorizada). E foi isso que ele fez. Agora parou, acho que deu preguiça.
Conheci o aeroporto de Congonhas em 1938, quando meus pais foram morar no bairro do Jabaquara. As poucas companhias de aviação que existiam na época proporcionavam cerca de duas decolagens e aterrissagens por dia. Varig, Vasp e Panair do Brasil eram as principais companhias; os aviões da Vasp eram trimotores Junker, de fabricação alemã.
Aos domingos não havia movimento de aviões; assim, o aeroporto era aproveitado por ciclistas e aeromodelistas. Foi lá que vi pela primeira vez um aeromodelo com controle remoto. Os aviões que permaneciam no campo ficavam ao relento, com seus motores protegidos por lonas. Não existiam hangares, apenas um ou outro galpão de oficina. Não havia também nenhuma pista pavimentada; todo o aeroporto era de terra, e quando batia o vento noroeste levantava uma enorme nuvem de poeira que envolvia parte do bairro do Jabaquara. A primeira pista pavimentada só veio em 1948.
O acesso a Congonhas para quem vinha do Centro era feito por uma via chamada Auto-Estrada, que era de propriedade particular e onde se cobrava pedágio. Nunca vi algum automóvel naquela estrada. Era muito boa para andar de bicicleta.
Pouco antes do início da Segunda Grande Guerra, esteve no Brasil uma esquadrilha de aviões da Força Aérea Italiana, que fez evoluções acrobáticas sobre Congonhas. Nessa ocasião houve uma enorme afluência de pessoas para assistir à demonstração, que teve também a participação de pilotos brasileiros.
Não havia também nenhuma moradia distante menos de dois quilômetros dos limites do aeroporto, especialmente do lado sul, onde essa distância se estendia por 5 ou 6 quilômetros. Portanto, não foi o aeroporto que se inseriu entre as moradias, mas, sim, as residências é que se instalaram ao redor do aeroporto. A partir da metade dos anos 1940, ele foi ampliado e o movimento cresceu acentuadamente, apesar de Viracopos e, mais tarde, Cumbica. Com o crescente movimento, aqueles que fixaram residência em torno do aeroporto se deram conta da inconveniência.
- Fotos: Pista de Congonhas, c. 1939 (Prefeitura/Sempla). Abaixo, meu pai, no mesmo ano.



Bons tempos né seu Paulo? Gosto de ler e ouvir memórias assim, Letícia, traga seu pai mais vezes para o blog!
Agora tá explicado porque você escreve tão bem, tá no DNA.
Eu assim como o Fábio, adoro ouvir as memórias que cada um carrega consigo, pode “colar” sempre do papai que eu vou continuar lendo o blog.
Beijões no seu pai.
Que bonito! Bem diz o ditado que quem herda não furta!
Acho que todos deveríamos explorar mais essas lembranças de nossos familiares, já que eles fizeram parte da História que conhecemos dos livros, mas de maneira mais saborosa, mais real e próxima.
Muito bom, Lets.
Abusando de novo…
É que lembrei de uma história que postei no blog, exatamente sobre essas lembranças familiares. Uma história mais que centenária:
http://boa-semana.blogspot.com/2006/10/entrementes.html
O jornal tá crescendo. Agora já conta com repórter especial….
Abraço ao velho – e que ele continue.
Minha conexão está lascada. Num lampejo de modem, aproveito pra dizer que não morri. Bjs,