A carta de Anita a Mário

Anita Malfatti amava Mário de Andrade, e ele sempre se calou a esse respeito. Isso é público e notório. Mário, com toda aquela figura que aparece séria, circunspecta ao grande público, era, na verdade, um detonado. Topava todas, em todos os sentidos; mas era inconteste, pelo testemunho de amigos e pelos seus escritos, o turbilhão em que vivia. Católico semi-inconsciente, cheirador de cocaína e éter, saudoso da mãe quando morou no Rio, um semi-alcoólatra; quem sabe bissexual; doce e amargo; sensível e monstruoso. Talvez por isso não lhe tenha sequer passado pela cabeça provocar alguma dor em Anita – tão vulnerável, tão terna, tão recolhida em seu defeito físico e em sua grande decepção artística desde a crítica de Monteiro Lobato, em 1917.

A carta a seguir eu procurava fazia tempo. Por preguiça de digitar, procurei na net, sem achar uma íntegra. Depois suspirei fundo e comecei a desbravar a bagunça da minha estante, cujos livros estão amontoados por tamanho (!) desde a reforma da cozinha. E outro dia achei, olha só…! Estava separada aqui embaixo, perdida nos papéis da minha escrivaninha. É um xerox que ganhei faz séculos, nem sei a que livro pertence. Gostaria de dar o crédito, mas… De qualquer maneira, os escritos de Anita Malfatti estão sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Quando se completaram dez anos da morte de Mário, o jornal Diário de São Paulo encomendou a ela uma carta. O texto – lindo, lindo – diz muito da São Paulo dos anos 1950 e, mais, deixa entrever toda a delicada dimensão de Anita Malfatti e de seu sentimento.

 

Caminho do Céu – Estrada da Saudade
Após dez anos de sua partida da terra
onde nós estamos morando provisoriamente

anita-malfatti2.jpg“Bom dia, Máriomario-de-andrade.jpg

Já sei que você deve ter estranhado muito ter passado dez anos sem notícias minhas.(1) Não foi por falta de lembrança, muito ao contrário, foi por falta de iniciativa. A gente chegando a própria presença dissipa as dúvidas, o alegrão da chegada é tão grande que até a musica da alvorada parece ser tocada em surdina. Ai que bom! Depois de abrandar a exaltação da volta, vem um estado brando e feliz e, aos poucos, podemos falar. É tanta coisa para se contar, é tanta pergunta para se fazer que, felizmente, o tempo não conta por hoje!…

Você viajou muito, que tal. Você está bem, tão remoçado que parece um adolescente sábio, isto é, um poeta hoje sábio, que já sabe o que não sabemos, e perenemente jovem como seu espírito sempre foi, e alegre, e feliz, sem a dúvida que mata os homens desta nossa triste Paulicéia, que hoje não é mais desvairada, mas, sim, avoada, cheia de arranha-céus, de viadutos, de dois para três milhões de gente que brotaram não sei de onde. Tudo se movimenta, tudo trabalha, tudo faz barulho, a ambição se condensa por cima dos homens e das casas numa nuvem feita como um cogumelo que parece bomba atômica. Não sei ainda os efeitos desta coisa tremenda, que, em pequenas doses, vitaliza e dá energia às pessoas, ao trabalho e às coisas, mas em grande escala, assim como em São Paulo, pode ser terrível. O talento do grande povo daqui, tanto artístico como científico, é uma dádiva comum e é uma verdadeira maravilha, mas o erro é que todos o querem só para si… daí a confusão!
Depois que você partiu, inventaram o Ibirapuera, o Parque das Exposições,(2) uma verdadeira festa de coisas que se podem mostrar para os outros. A arquitetura dos grandes prédios como seus planos inclinados enormes, com espaços simples e maravilhosos, foi o que mais me surpreendeu e encantou. A pintura moderna se manifesta em toda a linha. Os estrangeiros felizes de serem, como sempre, muito bem recebidos, mandam os superfeitos de suas criações plásticas. A História do Brasil tem seu lugar digno, imponente e belo nisto tudo. Nós, que não sabíamos história do Brasil, saímos do Pavilhão da História rememorados e doutrinados; saí com a impressão de ter assistido a uma aula de José de Anchieta, isto é, a um curso inteiro, condensado e resolvido. O Ciccilo,(3) com seus auxiliares, começou a grande obra e Guilherme(4) a rematou. Alguns de seus amigos ficaram célebres como pintores, como escultores, músicos e escritores! Todos os artistas do Brasil eram loucos por você, mas ainda quando Osvald partiu, seus amigos disseram que não se conformavam com sua falta.
Felizmente estamos todos como que juntos outra vez, mesmo sem esperar os cinqüenta anos da sua ausência, quando surgirão todas as 3.000 cartas que você guardou.(5) Como você vê, eu tinha perdido o jeito de escrever para você, mas estou achando mais fácil do que eu esperava. Eu moro longe de São Paulo, tomo conta do meu jardim, arranco o mato e planto as flores e as árvores, rego quando posso,(6) arrumo a casa e pinto as festinhas do nosso povo que dão alegria ao coração da gente simples. O grandioso e majestoso, assim como a glória e o mágico sucesso me deixam calada, triste, mas as coisas fáceis de pintar, simples de se compreender, onde mora a ternura e o amor do nosso povo, isto me consola, isto me comove.
Não sei ainda como é onde você foi morar… será como?… Deve ser um lugar cheio de poesia, de anjos de vez em quando e… e como é que você escreve hoje? Mudou de diretrizes? Será mais músico do que poeta?… – Parece-me que você bem pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
E nós que não sabemos as últimas novidades, porque você sempre foi novidadeiro… Mário. Como poderíamos saber! Ouvir?… sim, mansinho dentro do nosso coração!
Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que por nós mesmos nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.
Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta.
Escrevo pois para você, grande e querido amigo, ai se eu pudesse consolá-lo, quanta felicidade para todos nós.

Anita

 

[em Diário de São Paulo, São Paulo, 1955

(recorte sem indicação de dia e mês, Arquivo Anita Malfatti.]

 

(1) Mário de Andrade morreu em 1945, com 52 anos. Esta carta foi escrita em 1955.
(2) Palácio das Exposições, no Parque do Ibirapuera, construído especialmente para as comemorações do IV Centenário da cidade, em 1954. O trecho seguinte também se refere à grande exposição comemorativa.
(3) Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccilo, mecenas e presidente da Comissão do IV Centenário.
(4) O poeta Guilherme de Almeida, que substituiu Ciccilo na presidência da Comissão.
(5) A pedido de Mário, as cartas que recebeu não poderiam ser publicadas antes de cinqüenta anos de sua morte. O Instituto de Estudos Brasileiros da USP cumpriu a promessa e há alguns anos abriu para o público não só a correspondência de Mário de Andrade, mas também a de Anita Malfatti. Já para as cartas que Mário enviou, não foi necessário esperar tanto tempo.
(6) No último período de sua vida, Anita Malfatti afastou-se da imprensa e do meio artístico e foi morar com a irmã em Diadema, na época uma região rural.

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11 Responses to A carta de Anita a Mário

  1. Emocionante. Eu não teria a sua sensibilidade para escrever sobre isso. E há quanto tempo você me fala disso…

  2. malu campos says:

    Realmente emocionante. Não tinha tido a oportunidade de ler essa carta. Obrigada por repartir comigo essa emoção.

  3. Tambosi says:

    Belíssimo! Textos assim, com a apresentação que fizeste, fazem falta nos nossos jornais, pobres jornais.

    Bj

  4. carol says:

    bem realmente emoemocionante
    sempre quiz saber da anita e vcs me deram esse prazer

  5. Leticia says:

    Que bom, Carol! Se você quiser se aprofundar, o acervo da Anita está no Instituto de Estudos Brasileiros, na USP.

  6. Pingback: Copia-e-colinha « Flanela Paulistana

  7. Rick says:

    Caramba, qdo conheci o Flanela fui lendo desde o comecinho, mas já é o segundo post que havia passado batido…

    Mistéééério.

    De qq modo, foi o que conversamos quarta-feira, o medo do Mario em magoar a Anita.

  8. Jorge Luiz(escritor) says:

    Revela-se a indibitável estrutura intelectual feita neste país de belas águas e de belas e simples locações.Anita parecera a mais ingênua de todas as criaturas,refastelada de saudade,altamente perdida numa região rural.Revela-se ela para o nosso querido e apostólico Mário de Andrade,dá-se toda feita de ternura e simplicidade.

    J>l

  9. Jorge Luiz says:

    Realmente,uma carta dotado de um espírito romântico inigualável.Mário realmente revelou-se um destronado quieto,mudo em seu canto,na afamada rua Lope Chaves,porém ciente de tudo e de todos que lhe avivavam e turvavam a existência.
    Em toda a sua obra em correspondência,que realmente fora revelada após 50 anos de sua morte,não me foi permitido ver e analisar o espírito de um romântico acabado,falseando acerca do amor da pintora.Parecerá até cômico dizer que M.de.A pouco importou-se com isso,sendo que lhe era extremamente importante a conviência com os amigos do “Rio”,tal como está presente no livro Cartas a Murilo Miranda.Portanto,para mim é uma doce surpresa me deparar com esse mural romântico paulista em plena década de 50,sobretudo para rememorar a importância de M.de.A como a maior personalidade literária da américa,que realmente viveu de sua arte.

  10. Para um povo carente de cultura nestes tempos atuais, essa história entre dois modernistas cai como uma luva nas mãos de tantos… Sedentos de arte!

    Meus cumprimentos a tão bela apresentação.

    abraços

  11. Leticia says:

    Que simpático, Lu Cavichioli! Seu comentário me fez reler a carta de Anita. Ela é incrivelmente comovedora, não?

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