O mundo não anda
Jan 4th, 2009 by Leticia

Noticia-se agora que Hosmany Ramos anunciou em alto e bom som que não voltará pra cadeia. Aproveitou mais uma saída que o sistema judiciário dá aos presos bonzinhos para que possam, sob lágrimas saudosas, ver a família - a fonte da moralidade e dos bons costumes -, e decidiu não voltar.
Histórico pra quem não sabe: Ele é mais um que, após uma vida de crimes (homicídio, roubo, tráfico de drogas), recebeu o caboclo antissético e chegou à conclusão de que o mundo é mau. Condenado a 21 anos e meio de xilindró, e preso no interior de São Paulo, chegou a publicar livro denunciando as condições em que vive na cadeia. Coitaaaaado! Por que não tentou transferência para o Pará, meu filho?
Nesse meio tempo, fugiu várias vezes (inconformadíssimo!) e numa dessas escapulidas ainda fez um bico - um sequestro em Minas Gerais -, pra não perder a mão da coisa.
Hosmany, antes de descobrir seu verdadeiro pendor, foi cirurgião plástico no Rio de Janeiro, num tempo em que a coisa era cercada de glémur e as Merdnaras nem pensavam em sugar as banhas em 24 vezes sem juros. Esticar a cara era coisa só pra starlet e socialite.
E foi nessas (e não na cadeia, como se espalhou na época) que a jornalista Marisa Raja Gabaglia o conheceu. Eu lembro muito dela quando fui morar no Rio: jornalista celebérrima, prestigiadíssima e mulher avant-garde, ela metia a boca nas questões femininas, que eram importantíssimas na época (anos 1970). Dona de uma beleza invulgar, cabelos muito negros e curtinhos, foi jornalista de destaque durante dezoito anos na Globo e chegou até a atuar em uma novela. Não sei em Sumpa, mas no Rio TODO MUNDO adorava ler seus textos em O Globo e na Última Hora. Nos anos 1980 passou a lançar livros e foi jurada no programa de Flávio Cavalcanti (petizes, acreditem: isso era muito importante na tevê de então), sempre com suas polêmicas e seu pensar inovador.
Mas, como amor bandido não é amor, é bicessão besta, Marisa grudou nesse camarada e tomou a vida dele pra si. É só o que se depreende de sua franca, favorita e meteórica decadência pessoal e profissional. Amigas me contam, em mais de um testemunho, como era triste sua gorda e largada figura quando vinha constrangedoramente ciscar, à procura de trabalho, em um grande jornal daqui. Ela faleceu em 2003, em São Paulo, de leucemia.
Apesar de ser ser partidária do “cada pessoa é responsável absoluta por sua vida”, me parte o coração ver como um homem fubá desses conseguiu apagar uma estrela tão faiscante. Ninguém precisava gostar totalmente de Marisa Raja Gabaglia pra reconhecer nela uma grande jornalista, que teve papel importante na evolução mental da mulher brasileira. De libertária tornou-se escrava-sem-causa, ela mesmo afirmando seu “amor bandido” como se fosse a coisa mais inédita do mundo. Acabou, ironicamente, prestando um desserviço a esta sociedade já tão débil de autonomia individual.
E outra: quero que o Hosmany se dane. Lembra do Bandido da Luz Vermelha? Pois é.
- Precisei minhas turvas memórias pela fofa imprensa necrófila (passim) e pelo detalhado texto do Dicionário Corográfico Câmara de Lobos, de Manuel Pedro da Silva Freitas, verbete “Varela Cid, Sérgio”.
- Foto (tungada do Messias): Capa de um de seus livros: então best sellers, hoje são vendidos por trocados nos sebos.







