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O mundo não anda

Noticia-se agora que Hosmany Ramos anunciou em alto e bom som que não voltará pra cadeia.  Aproveitou mais uma saída que o sistema judiciário dá aos presos bonzinhos para que possam, sob lágrimas saudosas, ver a família - a fonte da moralidade e dos bons costumes -, e decidiu não voltar.

Histórico pra quem não sabe: Ele é mais um que, após uma vida de crimes (homicídio, roubo, tráfico de drogas), recebeu o caboclo antissético e chegou à conclusão de que o mundo é mau. Condenado a 21 anos e meio de xilindró, e preso no interior de São Paulo, chegou a publicar livro denunciando as condições em que vive na cadeia. Coitaaaaado! Por que não tentou transferência para o Pará, meu filho?

Nesse meio tempo, fugiu várias vezes (inconformadíssimo!) e  numa dessas escapulidas ainda fez um bico - um sequestro em Minas Gerais -, pra não perder a mão da coisa.

Hosmany, antes de descobrir seu verdadeiro pendor, foi cirurgião plástico no Rio de Janeiro, num tempo em que a coisa era cercada de glémur e as Merdnaras nem pensavam em sugar as banhas em 24 vezes sem juros. Esticar a cara era coisa só pra starlet e socialite.

E foi nessas (e não na cadeia, como se espalhou na época) que a jornalista Marisa Raja Gabaglia o conheceu. Eu lembro muito dela quando fui morar no Rio: jornalista celebérrima, prestigiadíssima e mulher avant-garde, ela metia a boca nas questões femininas, que eram importantíssimas na época (anos 1970). Dona de uma beleza invulgar, cabelos muito negros e curtinhos, foi jornalista de destaque durante dezoito anos na Globo e chegou até a atuar em uma novela. Não sei em Sumpa, mas no Rio TODO MUNDO adorava ler seus textos em O Globo e na Última Hora. Nos anos 1980 passou a lançar livros e foi jurada no programa de Flávio Cavalcanti (petizes, acreditem: isso era muito importante na tevê de então), sempre com suas polêmicas e seu pensar inovador.

Mas, como amor bandido não é amor, é bicessão besta, Marisa grudou nesse camarada e tomou a vida dele pra si. É só o que se depreende de sua franca, favorita e meteórica decadência pessoal e profissional. Amigas me contam, em mais de um testemunho, como era triste sua gorda e largada figura quando vinha constrangedoramente ciscar, à procura de trabalho, em um grande jornal daqui. Ela faleceu em 2003, em São Paulo, de leucemia.

Apesar de ser ser partidária do “cada pessoa é responsável absoluta por sua vida”, me parte o coração ver como um homem fubá desses conseguiu apagar uma estrela tão faiscante. Ninguém precisava gostar totalmente de Marisa Raja Gabaglia pra reconhecer nela uma grande jornalista, que teve papel importante na evolução mental da mulher brasileira. De libertária tornou-se escrava-sem-causa, ela mesmo afirmando seu “amor bandido” como se fosse a coisa mais inédita do mundo. Acabou, ironicamente, prestando um desserviço a esta sociedade já tão débil de autonomia individual.

E outra: quero que o Hosmany se dane. Lembra do Bandido da Luz Vermelha? Pois é.

  • Precisei minhas turvas memórias pela fofa imprensa necrófila (passim) e pelo detalhado texto do Dicionário Corográfico Câmara de Lobos, de Manuel Pedro da Silva Freitas, verbete “Varela Cid, Sérgio”.
  • Foto (tungada do Messias): Capa de um de seus livros: então best sellers, hoje são vendidos por trocados nos sebos.

A garota Tok&Stok

Existe um felômeno aqui em São Paulo que parte do povo frequentador deste blog, em seus estudos miúdos de sociologia, poderia chamar de “A garota Tok&Stok”.

Antes de adentrar a análise, faz-se necessária uma ressalva: a Tok&Stok é uma luma belíssima loja de móveis e acessórios pra casa, cada um mais lindo que o outro. Nosso raio de estudos não atinge a qualidade da loja, mas como ela bate e refrata no subconsciente coletivo da mulherada target X.

Outra explicação prévia: qualquer xóvem que atingiu um patamar razoável de rendimentos em Sumpa gostaria de ter um móvel Tok&Stok. Um acessorinho que seja. Eu mesma já comprei algumas coisetas por lá: descansos de prato meio indígenas que renderam um belo painel na cozinha. E uma bolsa de sisal com listras avermelhadas cuja tinta se esvaiu na primeira chuva. Mas… vamos lá.

A garota Tok&Stok não se contenta apenas com um objetinho bonito, ou um apenas um móvel de que precise ou que combine com seu ambiente. A casa dela é TODA Tok&Stok. Essa criatura aportou em sua vida profissional renunciando com amargor a todo um passado de recalques e cafonices materno-avoengas.

A garota Tok&Stok rejeita solenemente tudo o que tenha mais de um ano de vida ou coisas que não lhe sejam úteis. Sua composição genética é o aqui-agora. Ela não junta nem fotos de família, porque ocupa espaço. Ela quer, ela vai vencer! Ela faz de um tudo pra ser bacana e sofisticada, para que os amigos a admirem. Seu bungalow é estudadamente montado pensando no futuro, provável e certíssimo networking que lhe renderá oportunidades e parcerias - nunca se sabe quem pode aparecer.

A garota Tok&Stok quer um ambiente clean, arrojado, mas que carregue consigo certo toque de inteligência, algo que dê a dica ao visitante de que ela, ela sim, é uma pessoa especial e destinada à casta X, cuja conquista é questão de tempo, apenas.

“Estou provisoriamente num apê aconchegante, mas minha percepção, meu berço, meu bom gosto e meu toque pessoal resultaram nisto aqui” (e estende o braço para sua sala minimalista).

A garota Tok&Stok achou super-adequado pendurar flores febris e cansadíssimas, de um artista famoso cujas reproduções se encontram amiúde no mercado, bem no recanto de sua mesa de jantar, com tampo de vidro e design simples, porém avant-garde. Suas refeições não levam toalha (porque lembram  sua infância prosaica e sem gosto) e sim jogos americanos bacanérrimos comprados na… Tok&Stok. E com essa malária por testemunha de sua dieta firme e inclemente - afinal, a garota Tok&Stok não pode engordar um grama!

***

Nossa! Disse tudo isso só porque amanhã chegam dois móveis da casa da vovó. Um buffet, de madeira maciça, torneada, lindo de morrer, onde guardarei os discos dos dois avôs de maneira adequada. E uma estante anos 1940, com portas de vidro (duas folhas), em que finalmente acomodarei meus papéis e apetrechos de restauro aqui no escritório. A velhiquária cresce a olhos vistos aqui em casa… É a minha história e eu gosto.

  • Acima: graciosa escrivaninha Tok&Stok (notar o quadrinho que não compromete e o vasinho de flores neutro - a garota Tok&Stok reproduz tudo fielmente). É muito bonitinha, mas aqui em casa não serviria pra nada. Prefiro tralhas outras, d’appellation contrôlée. (Foto do site da Tok&Stok. Sem link. Isso aqui é um estudo sociológico, e não um jabaculê.)
  • Abaixo: Um dos “girassóis” de Van Gogh. Recorri a ele porque já vi um ambiente como o que descrevi. Gosto de Vincent, mas ele frequenta até parede de quilinho. Além de tudo, não dá pra comer olhando pra um quadro desses, sinceramente!

Vem, Elton, vem!

Cabô! Cabô a quizumba de final de ano! Hoje voltei ao trabalho, linda loura e japonesa, de banho tomadíssimo às 6 da manhã, e empolgada com os 455 anos da cidade e com a vinda de sir Elton John, para shows em São Paulo e no Rio, assim, ao ar livre, para a patulée esclarecida! Não vou, não vou, mas vai transmitir ao vivo, aí eu paro diante da tevê.

Elton John permeia minha vida desde o berço. Olha só alguns momentos…

1973, 74, marromenos. Eu, minha irmã e minha avó à noitinha, esperando papai e mamãe no carro, num estacionamento de supermercado (um Jumbo, acho). O rádio ligado, começa a tocar “Yellow Brick Road”.

Ou “Skyline Pigeon”, não lembro. Na espontaneidade dos meus 8 anos, falo pra vó: “olha, vó, que música legal…!” Ela, tadinha, disse um “é…”. Seu universo era outro. Mais tarde, velhinha, ela se empolgou com o Julio Iglesias, para certo tormento da família. Tentei lhe apresentar Charles Aznavour, algo similar porém mais palatável, que além disso cantava em francês, que ela dominava. Não adiantou. Resultado: hoje seus discos de Julio Iglesias estão comigo, de herança. Não dá pra ouvir, mas guardo-os com carinho.

Acima, uma das manifestações artísticas mais chatas da história. Eu, já no Rio, tentando me desvencilhar da sugestão de um colega de colégio, que queria me presentear com um compacto (um bolachão pequenininho, pra quem não pegou esse estágio) com esse raio de “Don’t go Break my Heart”. Tinha sobrado do ano anterior, sabe? Bati o pé e ele não teve outro jeito senão me dar o que eu queria, não me lembro o quê.

Por essa eu tenho carinho particular: o irmão caçula de uma de minhas mais queridas amigas tem o nome de Daniel por causa dessa música. Claro, foi ela e a irmã que escolheram o nome do temporão. E a mãe deles faleceu recentemente, por isso ficou mais especial.

E essa uma das melodias mais aflitivas pra mim. Foi no tempo que voltei pra Sumpa e estava montando casa. Não aconteceu nada de errado, mas me dá certa aflição quando lembro que estava montando uma casa inteira. Era bom, mas foi ruim. Toc-toc-toc!

***

Mas eu quero que ele toque estaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!:

Peraí. Tô lendo hoje que:

Reveillon na Times Square: 1 milhão de pessoas

Reveillon na Paulista: 2,4 milhões de pessoas

O reveillon no Rio nem dá pra contar, porque se estende por várias praias. Até o piscinão de Ramos, Penha e Paquetá tiveram queima de fogos, então não entra na comparação. Mas em Côpa, Côpequebéna, o público ficou em 2 milhões. Digo “ficou” porque o povo acaba dormindo por lá mesmo, comme il faut. Hirc!

Não curto aglomerêichons de jeito nenhum, ainda mais numa tripinha de uma avenida, mas gostei dos números paulistanos, que foram além das expectativas (de 2 milhões de pessoas). E gosto muito do jeito que a festa é administrada. Tem revista nos pontos de entrada, não pode entrar com objetos pontiagudos, cortantes ou “arremessáveis”. Latas e garrafas, armas e fogos de artifício, nem pensar! E um monte de PM circulando. Acima, foto de José Patrício, AE, flagrante da coisa: após a festa, a PM passa um pente-fino no povo: Xô! Xô! Vai cair de bêbado na sua casa. Aqui não, violão!

A foto de baixo, do Estadão, é a nojeira de Copacabana no dia seguinte. Com direito a assalto (que terminou em briga) e balas perdidas na madrugada. Apesar de toda a PM por lá. E outra: não sei qual é o sentido macumbístico de fazer oferendas na praia. Afinal de contas, as flores voltam, e isso é um sinal metafisicamente ruim. Também acho que deveriam proibir garrafas de qualquer espécie. Praticamente tira a razão de ser do evento, mas o meio ambiente agradece: se esse monte de lixo foi juntado na areia, imagina o que afundou na água? Deus me livre!

Passadas as comemorações bestas, avante: Eduardo Paes disse, em entrevista a Alexandre Garcia na Globonews (o link não funciona aqui) que conversa com outros prefeitos e que acabou na Prefeitura carioca o chororô eterno de ex-capital. E que terá de dar uma de síndico chato. Concordo. Só na base do terror você muda maus hábitos. E, digo eu, o desleixo. Aliás, o desleixo chorou à beça quando saiu. Sempre achei o Paes com cara de tonto-alegre, mas estou na esperança que ele melhore a cidade, ex-carioca que sou.

Maus hábitos e desleixo que, diga-se de passagem, também persistem em São Paulo. Ontem, numa chuva “daquelas” na Zona Norte, as ruas se alagaram não pelo excesso de água, mas pelo lixo que se concentrou nos pontos de escoamento. Gente que joga lixo na rua merece um ordálio eterno, sinceramente!

Já Kassab falou durante sua posse hoje à tarde. O Estadão já tacou um título do tipo “nós vamos te aporrinhar”: “Trânsito não é prioridade para Kassab”. Ahã… sei! Como os leitores desse jornal não são propriamente tapados, devem ter em mente que o Rodoanel vai ficar pronto em 2009 e que há um monte de estações de metrô emergindo de canteiros de obras em toda a cidade, além de alguns corredores de ônibus estratégicos em vista. Portanto, fico com a entrevista dada ao Diário de São Paulo (via O Globo), em que o prefeito pode explicar tudo razoavelmente, inxcrusive de que maneira pretende lidar com a crise.

Aguardemos.

Feliz 2009!

Bom o que ouvi de Jorge Forbes, outro dia na TV. Fiquei rindo sozinha com esse negócio de que os fogos não servem rigorosamente pra nada. E gostei que tenha falado da “fobia que o espaço aberto que o ano novo dá”.

Sei lá. Acho que no dia em que a gente se der conta de que dia primeiro de janeiro é apenas uma data imediatamente posterior a 31 de dezembro, talvez possamos montar nosso próprio calendário. Pra quê abrir e fechar o ano todo mundo junto, meu Deus! Que obsessão!

Desejo feliz 2009 a todos! Começe ele no primeiro minuto de amanhã ou daqui a três meses.

Beijocas de marocas!

PS.: Este ano NÃO espero a meia-noite. Este ano NÃO abro champanhe. Este ano NÃO ligo a TV pra ver Copa. Mas vou ver a São Silvestre masculina logo mais, porque adoro olhar a cidade ao vivo.

Adorei! Ganhar peso é mole. Quero ver perder, coisa que Ronaldo vai conseguir na boa, quer apostar? Já os jornalistas…

Só não gostei desse negócio de “não tenho habilidade pra trocar fraldas”. Desculpa de homem preguiçoso. Ninguém tem, Ronaldo! Até o dia em que passa a ter! E limpar bumbum, dar banho, fazer dormir, levantar à noite, dar mamadeira, fazer dormir de novo, escovar os dentes quando eles vierem, passar cotonete nos ouvidos, pingar rinosoro no nariz, fazer dormir… Não mata ninguém, oras!

Eu, hein!

Osmose medicinal

O Graac (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) precisa ampliar seu Instituto de Oncologia Pediátrica. No prédio da rua Botucatu já não cabe mais ninguém. Os leitos têm mais rotatividade  que motel em final de semana.

Em 2007, no Hospital do Graac, foram detectados 213 novos casos de câncer infantil, realizadas 1.165 cirurgias, 15.543 consultas oncológicas e 11.630 sessões de quimioterapia, numa taxa - média! - de 87% de ocupação de leitos.

No orçamento do Graac, 50% vêm de doações. Atualmente, o grupo precisa de R$ 1,2 milhão por mês pra manter o hospital. Para o ano que vem, são previstos R$ 38 milhões, para também ampliar o centro cirúrgico para três salas, oferecer área para radioterapia, ampliar o atendimento a adolescentes e a reabilitação.

As taxas de cura ficam entre 60% e 70%, apesar de as crianças e adolescentes que lá chegam  - vindas de todas as partes do país - apresentarem um estágio avançado de câncer.

O que me chamou atenção na reportagem no Estadão foi o caso exemplar de Gustavo, de 10 anos, cuja mãe disse: “Ficaram um tempão dando injeção, diziam no outro hospital que era inflamação no joelho”.

Como assim, “inflamação no joelho”?

A reportagem não menciona, mas posso quase ter certeza de que essa família veio de longe para tratar do menino. O que dana não é propriamente São Paulo receber milhares de pacientes do país inteiro. O que irrita é que o Brasil - não tão profundo assim - não vai pra frente, nunca. As pessoas se vêem obrigadas a viajar, na maioria das vezes sem condições - e condições de ficar, por dias e dias! -, para se tratar aqui.

Que droga de país é esse que depende de uma só cidade pra conseguir tratamento de qualidade pelo SUS? Por que raios não há bons e grandes hospitais distribuídos por regiões? Por que os rincões não investem, pelo menos, em medicina preventiva?

  • A reportagem do Estadão não menciona qualquer forma de doação. Também não sei se essa é a saída a longo prazo, pra falar a verdade, porque a questão não é exatamente dinheiro. Taí o vice-presidente José Alencar (foto: Marcelo Min, Época) que não me deixa mentir: sua vida se dá entre Minas Gerais e Brasília), mas vive viajando pra cá pra se internar no Sírio-Libanês.

Imagine que todas as crianças, não importa em que lugar do mundo, possam ter acesso ao conhecimento. Teriam uma chance de aprender, sonhar e realizar o que quiserem.

Tentei fazer isso com a música, mas agora você pode fazer isso de uma maneira diferente. Você pode doar um laptop a uma criança e pode mudar o mundo.

Este comercial, devidamente liberado por Yoko Ono, é da OLPC (Um Laptop para Cada Criança), do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e pretende que cada criança pobre do mundo tenha um XO, movido a energia solar. Foi lançado na quinta-feira, em tempo doado pelas emissoras nos Estados Unidos.

Eu sei lá como estaria Lennon hoje? Quem sabe não estaria longe, bem longe de Yoko? Quem sabe não renegaria a mudernidade digital? Ou, por fastio absoluto, não teria proibido a execução de “Imagine” sob qualquer circunstância? Ou ainda empunharia uma bandeira planetária pelo acesso comidal e educacional antes do acesso digital?

Herança, ou não-herança, como quiser, é uma avacalhação. Tom Jobim, por exemplo, vai acabar ficando menos conhecido por suas composições do que por “seus” lançamentos imobiliários d’além túmulo (dos mais portentosos, apoiados pela família, como aqui em SP, até os mais jererecas, que não pedem autorização alguma). E Cecília Meireles, Grande Otelo, Manuel Bandeira, Elizeth Cardoso, Monteiro Lobato, Clementina de Jesus, Guimarães Rosa, Cecília Meireles estão perdendo espaço por um motivo marromenos análogo, que envolve meios-irmãos se engalfinhando, filhos e netos acomodados em sua vidinha de usufruto e ganância, muita ganância.

É claro que dentro disso tudo há a crença firme de que o empréstimo do nome do falecido não vilipendia sua memória: uma boa-fé, ainda que regiamente recompensada; ou então que a exigência de uma soma proibitiva pra impressão de uma simples imagem em um livro está OK. É a lei, fazer o quê?

Mesmo assim, seria bom que a obra, a imagem de alguém se transportasse tomaticamente, no dia de sua morte, a alguma instituição idônea (coisa que também não existe) que pudesse mantê-la e exibi-la comme il faut. Nada de comercialzinho digitalizado. Nem que seja pra causa-mais-justa-do-momento.

  • Tradução do comercial de Lennon em matéria no Estadão. Texto sobre os imbróglios de direitos autorais/de imagem do texto de Mhário Lincoln (linkado).

Jisuis!

Depois do show de domingo, Madonna se mandou para o Bar Secreto, em Pinheiros, e trocou uns beijos com o modelets Jesus Luz, um carioca de 20 anos. Eles se conheceram durante um ensaio de fotos no Hotel Glória, no Rio.

O caso virou uma repercussão internéchional.

Tá certo que dá pra lavar muita roupa nesse tanquinho, mas o rostinho do rapaz não me engana.

Colunistas brasileiros, contaminados com o complexo de Dona Baratinha de nossas celebs provectas, afirmam que Madonna está completamente apaixonada pelo rapaz. Isso porque ela não desgruda do menino, e o chama de My Jesus.

Sei lá. Acho que o reinado de Jesus na terra não dura um mês.

Ué! Mas Madonna não se converteu ao judaísmo?

E o Shabbat, como é que ficou, minha filha?

  • Andrea del Bresciniano, Madona com menino Jesus e São João Baptista, 1524.

O Natal

Quero desejar um Feliz 2009 e um ótimo Natal a todos aqui. Pelo menos àqueles que aguardam do Natal bons sentimentos, harmonia, a alegria de reencontrar e reunir a família. Isso é muito bom, quando há condições plenas de acontecer. Se tem criança no pedaço, melhor ainda.

Mas quero também, e especialmente, deixar um abraço praqueles a quem o Natal traz uma espécie de enervação, como se fosse um inferno astral, quando todas as mágoas e raivas emergem nas horas fatídicas em que se sabe que a tão boinha solitude cotidiana (que é diferente de solidão, acho) está em perigo. Você vive sua vidinha ao longo do ano, numa boa, e tal, e chega no fim do ano já começa a se irritar com a imperiosa necessidade social de reunir forças pra encarar aquelas pessoas superbacanas, superlegais, supereducadas e supercheias de amor pra dar e à sua volta - nem que isso seja uma tremenda falácia.

Você SABE que a sua escolha de ser um tantinho mais sincero, noves-fora os prejus, foi a mais acertada, e a pissoa do outro lado também tem a plena convicção de que vale a pena passar por bacana pra família e pros amigos, embora VOCÊ saiba que toda a bacanice dela foi adquirida no espelho, resultado de um ego sem tamanho, e que essa pessoa, em termos de maldade, é muito, mas muito pior que você.

Lá vai você, descola um vestido, compra os presentes de praxe, tomando muito cuidado pra não cair num detalhe que possa ofender - por exemplo, dar um livro a quem decididamente não lê, e que pode ver no seu ato uma espécie de deboche.

E vem aquele enjôo, aquele fastio, e no final aquele conformismo de ter de viajar pra sua cidade natal (cidade natal é ótimo, fala a verdade!). E a única coisa que o move é saber que terá forças pra passar por aquilo tudo olimpicamente: “Serei educadinho, serei educadinho, serei educadinho. Nem que eu ouça a pior das insinuações a meu respeito, que veja o que de mais irritante possa acontecer, que aquele ambiente me deprima, passarei por isso tudo lindo louro e japonês!”

No meio disso tudo, pensamentos de esfregar as mãos: “e se eu pudesse, PUDESSE, passar o Natal aqui em casa, só, com minhas coisinhas? Se eu pudesse passar o Natal com meus amigos, que NÃO PODEM passar o Natal comigo porque estão passando o Natal com os seus, muitas vezes sob o mesmo imbróglio? E se ninguém soubesse que eu existo? Ah, seria tão boooom….!”

O Natal enche os pacovás de muita gente. Desde os gauche natalescos até os mais curtidores. Eu, por exemplo, sempre achei que as musiquetas de Natal brasileiras são depressivas. “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papaaaaaaaai Noooooooeeeeeeeel”, sinceramente, é caso pra suicídio. Engraçado é que não acho o mesmo das melodias tradicionalonas, dessas de corais, e tal. Até gosto. Mesmo assim, “Noite Feliz” é horrível!

Então, um grande beijo especial aos marginados. Àqueles que não se furtam a ver que tem alguma coisa errada nisso tudo. E que dariam tudo pra editar esses dias tão calorentos, tão movimentados, tão tensos, tão cheios de animação compulsória.

  • Deixo pra vocês, os esquisitos, um videozinho da Rita Lee explicando e tocando um tequinho de uma música bem à propos do que falei a partir do segundo parágrafo deste post. Escolhi esse vídeo porque outros similares foram feitos em shows, e o ao vivo sai muito abafado. Mas o diálogo é interessante: note que em certo momento o Roberto de Carvalho tenta dar uma suavizada (bem à moda das pessoas objeto da música, por sinal), Rita meio que cai nessa fofura mas depois se apruma e diz, com todas as letras, que a música foi feita pra uma criatura específica, meeeeesmo.

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