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Há males…

Alguns dias depois do incêndio horroroso que lambeu o Teatro Cultura Artística, no centro de São Paulo, alvíssaras…

Os concertos previstos já estão sendo acomodados em outras salas pela cidade. O valor dos ingressos do espetáculo O Bem-Amado (protagonizado por Marco Nanini) já está sendo devolvido em um posto no Maksoud Plaza. Quanto à peça em si, Inês é morta: o fogo não perdoou sequer uma peça do figurino.

Ontem, a Sociedade de Cultura Artística se reuniu e resolveu que o teatro será reerguido no mesmo local, sob o comando do arquiteto Paulo Bruna, o “herdeiro” de Rino Levi, autor do projeto original. Tanto melhor. Qualquer outra solução teria de, necessariamente, reaproveitar a fachada com o lindíssimo painel do Di Cavalcanti, e aí a coisa ficaria meio bizarra - opinião minha. Há a grana do seguro, e a direção da Sociedade espera estabelecer parcerias, concertos beneficentes e contar com a uma forcinha do público.

A família Baumgart, por sua vez, já comunicou à Sociedade de Cultura Artística que refará a doação de um dos dois pianos Stenway consumidos pelo fogo. Segundo a Folha,

O modelo destruído, um Gran Concerto Model D, avaliado em US$ 130 mil (R$ 211 mil), havia sido doado pela família Baumgart, que refez a oferta. Eric Klug, responsável pelo departamento de relações institucionais da Sociedade de Cultura Artística, disse que Roberto Baumgart, que já havia doado um piano, prometeu outro igual.

O Teatro Cultura Artística nasceu da vontade de dona Esther Mesquita, da família dona do Estadão, então diretora da Sociedade de Cultura Artística (idealizada por Nestor Pestana, redator-chefe do jornal). Ligados ao Cultura Artística há inúmeros nomes da zelite paulistana, como o de José Mindlin, que a dirige há uns vinte anos.

Eu adoro essas coisas. Enquanto a patulée é amestrada diariamente para achar que a elite não presta pra nada, figuras ricas, poderosas e chiquérrimas vão fazendo sua solitária parte, em um Brasil paralelo e desconhecido.

  • Irritando Osmerdina: numa antiga Vejinha, vida de Yara Baumgart, mulher de Roberto, que cumpre seu papel sem deixar de desfrutar do melhor que o dinheiro pode oferecer (volto à frase lapidar de meu irmão: É melhor ser rico e com saúde do que pobre e doente).
  • Fotos: acima (Sergio Castro, AE): o incêndio só poupou o painel de Di Cavalcanti, num aviso dos céus (os bombeiros perceberam que a fiação do teatro estava qualquer coisa. De qualquer modo, a perícia imagina que a combustão foi espontânea; o tempo está seco demais). Ainda na primeira foto, vê-se no fundo, à direita, a bela e importantíssima Catedral Presbiteriana. À esquerda, os fundos do paredão de prédios que emolduram a praça Roosevelt. No meio (Antonio Lucio, AE): a elegantérrima dona Esther Mesquita, em descerramento de placa com seu nome no Teatro, em 1982. Abaixo (Mário Rodrigues), o prático baldinho de Vedacit, fabricado pela Otto Baumgart: eu “pesquei” um, novinho, já vazio, do monte de entulho da reforma aqui de casa. Para apartamentos, é o que há em praticidade, porque são pequenos, resistentes, atendem às necessidades domésticas e cabem dentro do tanque. Dica: algumas embalagens de lenços umedecidos para bebês, embora mais frágeis, também servem a esse propósito. É a zelite dando mais ao rebotalho do que possa imaginar.

Apresentei marromenos a personagem Gabriel Chalita à Tia Cris, quando topei com um banner enorme de sua dúbia figura (ainda bem que Raquel não viu). Digo marromenos porque, confesso, não sei direito o que esse cara faz. Ele já foi secretário de Educação no estado, no tempo do Alckmin e da dona Lu, de quem é muito amiguinho. É professor e também produz, fordisticamente, livros de auto-ajuda para mães zelosas. De glacê, é super-carola muderno, uma coisa meio Pindamonhangaba, meio Canção Nova.

A fissura que provoca na mulherada, num misto de conselheiro pedagógico-espiritual e galã (veja bem, não sou eu quem afirmo!), remete à clássica tara de sacristia. A professora-mãe tonta não sabe se presta atenção nos conselhos sobre assuntos da moda para crianças, como pedofilia, obesidade infantil e bullying, ou se perde na dúvida se o elemento é um galã que já foi padre, ou um padre que já foi galã.

Bobagem, menina! Ele é os dois. Tem aquela figura talhada para homilias palestrais com mensagens visuais sub-reptícias, vantagem mercadológica de que as instituições religiosas usam e abusam. Tão aí o Padre Marcelo, o Padre Juarez, o Padre isso e o Padre aquilo, espalhados pelas paróquias deste país, que não me deixam mentir (até Jesusinho Cristinho entrou nessa sem querer, a julgar pela iconografia de tons pastel que chegou até nós). O único que não se enquadra nessa categoria é o Padre Antonio Maria e sua inseparável capelinha, coitado! Mas aí já são outras empatias.

Bem, voltemos à Bienal: é possível esperar alguma coisa de um cara de 30 e poucos anos que já escreveu 45 livros? O pior: o primeiro, escrito aos 12 anos, entra na conta!!!! São títulos como Educação: a solução esta no afeto, Os dez mandamentos da ética, Pedagogia do amor, O sol depois da chuva, Trilogia da vida, Carta aberta para minha mãe e Psicologia da amizade. Nenhum deles pára em pé.

Faz uns anos fiquei numa situaçã com uma professoooooura da voz alta que me pediu (nem sei mais o contato que eu tinha) o telefone do Chalita. Não chegou a ser um assédio inconveniente, mas lembro que ela estava ansiosíssima e me ligou umas duas vezes antes que eu pudesse obter o que ela tanto queria. Quando finalmente lhe passei o número ela ficou numa quase-histeria, e até ajudei-a a abreviar a conversa para que ela pudesse ligar mais rápido para seu padre-galã.

Enquanto isso, a criançada está cada vez mais barulhenta, mais gorda e mais chata. E em semana de inspiração cultural (ai, meus Deus!) é o que mais irrita: os pimpolhos se sentam, sem qualquer cerimônia, em rodinhas lúdicas pelos corredores da Bienal, obrigando a gente a tomar cuidado pra não pisar numa mãozinha. Ah!, e curtiram à beça atazanar nossos miolos pulando sobre as tampas soltas das crateras sob o tapete vermelho, como bem lembrou a Cris. E isso porque têm um espaço só pra eles, hein!

Echos da Provincia

Não se iludam os que pensam que cidades grandes, no sentido urbano mesmo (e aqui no BR só há duas: Rio e SP. Sorry o resto) não são províncias, no sentido provinciano mesmo. Pessoas são pessoas. Somos uma aldeia e nos comportamos como aldeia, só que em proporções mega. Só isso.

Neste momento Cesar Cielo está chegando ao Brasil e saíndo em carro aberto pelas ruas da cidade, para ser aclamado pela população ensandecida, que até outro dia nunca tinha ouvido falar no seu nome (cuja pronúncia a Grobo tratou de padronizar: não é Tchélo, nem Ciélo; é Ciêlo).

Vai no carro do Corpo de Bombeiros. Acho essas coisa boko-moko, e logo lembrei dos outros atletas que, por um motivo ou outro, às vezes dos mais bestas, serão solenemente esquecidos nos próximos anos até que haja outro evento em que possamos novamente brincar de torcer.

Carro dos Bombeiros, pra mim, só fica bacana se o camarada estiver morto. Foi assim naquela quinta-feira em 1994. Embora não goste até hoje daquele jeitinho de Senna, de atribuir competência a uma espécie de proteção divina, o cortejo fúnebre foi bem bonito. E, lembro, foi por aquelas imagens aéreas que percebi, pela primeira vez na vida, como São Paulo é linda de doer, e que as cidades não precisam de belezas naturais para causar uma emoção… digamos… estrutural. Tem algo mais belo que estados da arte bem-feitos e bem cuidados numa rodovia, num viaduto? Nooooo…..

  • Foto (AP): Cesar Ciêêêlo. Agora vai ser a praga. O menino será mais atormentado que Gustavo Kuerten e será obrigado a inaugurar projetos de natação em favelas tooooodo final de semana.

Engraçado como as coisas andam, não? Tudo começou ontem na Bienal, quando topamos com um stand da Bovespa. Acho que o pensamento geral foi: “tudo bem, estão captando investidores miúdos. Que mal tem? Até a Rede Record tem um mocozinho aqui…”. Daí ficamos olhando, e tal, quando percebemos, acima do logo da Bolsa, fazendo um conjunto inusitado, o topo de um cenário de papelão, em que um morenaço musculoso e sem camisa agarra uma donzela lânguida cujos cabelos anos 40 se esparramam por detrás das seteiras de um castelo medieval (vai lá que você vai entender).

Pára tudo! O que a Bovespa tem que ver com cenários desse jaez? Com raiva de nenhuma de nós ter trazido uma maquineta, fomos ver o que se escondia por detrás da Bovespa e… touché! Lá estava a editora das moçoilas pero no mucho. Fizemos o diabo pra saber onde encontrar aquele cenário - digitalmente falando. Conversamos com o povo de lá, pegamos mil fôlderes e papeluchos e promoções e tal.

Eles nos atenderam normalmente, e o rapaz que me ajudou até perguntou: “Quem, aquele saradão ali?”. As demais atendentes estavam com cara de nada: imbuídas de seu trabalho, fizeram toda a lição de casa, incluindo a explicação da promoção, apesar de saber exatamente o que estávamos fazendo ali.

Eis que acabamos encontrado a tal imagem em um marcador do kit-romance. Mas acontece que ela é muito pequenininha! Nem me dei o trabalho de escanear. Daí fui até o sáite da coisa e encontrei (não a imagem, mas…), além de luxuriosas capas, sinopses interessantíssimas do que poderíamos chamar de customized XVIIIth British novels for Merdilaine readings in her daily journey to Sapopemberley.

É cráááááááro que comecei a ver nisso uma oportunidade ímpar de encher os pacovás de Raquelucha e sua Jane Austen. Nesses casos, sou muito feliz: não perco a piada muito menos a amiga, que inxcrusive me ajuda na análise. O resultado é essa seleçã. As capas são mais pragmáticas que o miolo, é fato. São convincentes em seus sub-objetivos, mas isso não impede que tenham ares evocativos: um vestidinho aqui, uma tipologia alí, um cenariozinho acolá, tudo pode lembrar uma Jane Eyre sem que a infeliz leitora tenha o trabalhão de decompor a sintaxe. Num trem chacoalhando, seria pedir demais. Até a cor e a textura dos vestidos já vêm na ordem direta.

Mas eu gostcho mesmo é dos nomes das autoras! Jesuisinho Cristinho, que máximo isso! Cherie Claire! Regina Scott! Lorraine Heaffffffff! Vamos ver o que mais poderia ser: Katleen Stevenson; Pam MacIntyre;  Fiona Blomingsdale! Eu mesma tenho codinomes para me esconder quando: 1) o trabalho final não vai prestar; 2) quando não tem jeito, para (argh!) revistas. Claro que não vou dizer aqui, mas também a fonética segue outra linha, e coisa e tal.

Por fim, Ventos Selvagens (da aclamadíssima Janelle Taylor, veja bem!), sugerindo as personagens de Emily Brontë se pegando na charneca.

Mas o que será que vem a ser charneca?

  • Prometi a imagem escaneada pra minha ameeega, mas, como se vê, não deu. Mas  continuarei procurando, ou tento escanear mais pesado.

Não é todo mundo que pode se dar a esse luxo. Eu mesma vivi uns duzentos anos sozinha, e sei que ligar o rádio ou a TV pela manhã não surte o mesmo efeito.

Mas voltar a viver com os pais, passado o período de readaptação, tem inúmeras vantagens. Primeiro a gente troca a gastronomia selvagem de quem mora só por um cardápio mais balanceado, já que mamãe faz questã que eu vá comer todo santo dia lá em cima (moramos no mesmo prédio). Assim tem sido. Eles tomam o café lá pelas 7 h, 7 h e pouco. Dependendo do dia, eu chego lá depois, ou muito tempo depois, e a mesa está lá, postinha pra madame aqui.

A essa altura do campeonato, papai já está espumando com a Reserva Raposa Serra do Sol, com as indenizações a terroristas ou a cotação da Bolsa, e aproveita para andar pela sala com o jornal na mão, fazendo um pequeno clipping em voz alta para mim. Já não tenho muito apetite pela manhã - eu como por obrigação, porque não quero sentar pra trabalhar e sentir fome logo depois. Dependendo das novas do dia, fica difícil ingerir algo mais sólido que uma xícara de café.

Mas hoje, sinceramente, fui obrigada a fazer uma análise crítica do coitado do pão integral que estava comendo. Papai me resumiu uma notícia no Estadão de um tal Projeto de Resgate da Medicina Tradicional da População Indígena a ser adotado por alguns hospitais do estado. Olha só:

Atualmente, as índias guarani rejeitam a assistência pública e preferem dar à luz na aldeia, porque no hospital fica difícil seguir a tradiçã étchnica de enterrar a placenta (tem de ser em solo fértil; os índios juram por Tupã que esse enterro ritual dá um up na vida do rebento) e seguir uma dieta composta de frango (recém-abatido; congelado não vale), arroz, mingau e milho. Por conta disso, o estado, preocupadíssimo com a alta taxa de mortalidade entre as tribos, decorrente dessa rejeição, resolveu prover as índias com esses quaisquaisquais todos.

Olhei para o pão, já com uma mordidinha, e desanimei.

Vamos ao serviço: os hospitais que oferecerão o parto alternativo são os seguintes:

Capital: Hospital-Geral de Pedreira e Hospital e Maternidade Interlagos.

Litoral: Santa Casa de Ubatuba, Irmandade Sagrado Coração de Jesus (São Sebastião), Hospital e Maternidade de Bertioga, Hospital Regional de Itanhaém, Hospital e Maternidade de Mongaguá e Unidade Hospitalar de Peruíbe.

Interior: Hospital Regional do Vale do Ribeira (Pariquera-Açu) e Hospital São João (Registro).

  • Imagem: body expression botocudo para todos, já! Questão de tempo.
  • PS: Adoro, adoro e adoro minha rotininha familiar.

Bienal

Então… Estive na Bienal ontem. Por hora, falo um pouco dos aspectos mais gerais do evã, e depois vou postando alguns details que fizeram a pândega das três (eu, Raquel e a ameeeeega).

Uma coisa boa que percebemos foi a ampliação especial da coisa, no sentido de corredores mais largos, diminuição drástica dos decibéis e uma estrutura melhor de apoio ao romeiro - por exemplo, ônibus mais confortáveis entre o Tietê e o Anhembi. O que persiste é o calor. Mas, confesso, o passeio foi menos pesado que nos outros anos. É incredible como a ausência de som induz a uma sensação menos sufocante.

Mas…., a continuar como está, foi a última vez que fui. Se o diferencial da coisa no duro no duro deve ser o preço, ainda prefiro decidir antes o que vou comprar, ir à livraria com ar-cond e conforto e tudo ou adquirir pela internet. Ou no sebo. E voltar pra casa inteira. Na Bienal, grande parte dos livreiros não oferece preços amigáveis. O mercado editorial brasileiro ainda se vale de feiras por causa da empolgação da patulée, o que é uma atitude bem da sem-vergonha. Isso talvez seja a interface amarga entre um estágio analfa da multidão e outro futuro, um pouco mais discernido, quem sabe?

Adiante: há alguns anos, quando minha irmã estava esperando o Periquito Augusto, comprei pra ele, no impulso bienalesco, e pela primeira vez, uns livrinhos de histórias sem direitos autorais, tipo João e Maria. Recentemente, ele já crescidinho, fui ler um deles para o rapazola e fiquei com vergonha de mim mesma: os livrecos tinham uma redação esquisitíssima, o que me obrigou a ir corrigindo a coisa enquanto lia. Pedi a minha irmã para ir se desfazendo daqueles livrinhos com jeitinho antes que Periquito comece a ler de fato. E prometi a mim mesma que nunca mais freqüentaria aquelas bancas de livros infantis de editoria desconhecida, tipo 5 por um reáu, tudo no prástico. As entidades editoriais que organizam a feira deveriam repensar isso também.

Esse tipo de corte a gente pode fazer quando o piolhinho ainda não cresceu. Depois, o que manda é o mercado mesmo e salve-se quem puder. A prova “viva” disso é a capa desse manual de auto-ajuda para vendas de depuradores de água. Compra quem quer, não é mesmo? Detail, que acabei não percebendo quando a vi ontem, ao vivo: o autor se intitula “o vendedor pit bull”.

Pede pra sair, mané! Pra cima de moá? Vai morder em outra freguesia…

Cê vê como é a vida, né? Mal tenho tido tempo de postar coisas sobre São Paulo aqui, mas prometo, prometo que a partir da semana que vem virei com umas histórias bem boinhas e antiguinhas sobre minha querida e desvairadíssima - graças a Deus! - Paulicéia. Daqui a pouco vadiar na Bienal do Livro, e também prometo uma pequena reportagem sobre o bafafá. Por enquanto, compartilho com vocês um pouco de minha humilde rotina, gentilmente registrada por meu amigo Paulo Araujo:

Foi o enésimo torpedo. Expliquei que entre nós não pode ser. Não é a coisa mais confortável do mundo saber que um fã sem chance alguma está fissuradinho na gente. Deixa estar. Um dia ele acha uma moça bem boazinha que vai aplacar seu coração em chamas.

A situação na Georgia não está bolinho. Por isso, os líderes envolvidos na questã não dispensam a inspiração, o exemplo e as diretrizes sempre serenas e cordatas de Laetitia Nikolaevska, a eterna mãe russa, cujo espírito, disse madame Blavatski, flutua nas águas geladas do Volga.

Fia, não adianta. Não posso fazer nada por você. Você é canhota…! Olha esse dedo torto aí…

Eu ia fala de Cesar Cielo aqui, porque afinal de contas, ele é paulista de Santa Bárbara D’Oeste. Ia falar também de sua avó-Osmerdina que junto com Galvão Bueno foi responsável pelo mico dourado de ontem. Enquanto o nadador alcançava o feito histórico para a natação brasileira, vovó Olga e Galvão Bueno ficam se incensando, o que foi de uma descompostura ímpar, caipira, pequena e bem ao gosto do discernimento duvidoso brasileiro.

Mas é infinitamente mais confortante falar de Dorival Caymmi, que se foi agora de manhã. Deixou uma obra inovadora, de altíssima qualidade, e três filhos talentosíssimos, o que é de admirar no país dos herdeiros sem-vergonha.

Uma senhora judia que conheço aqui em São Paulo, e que fez parte do Exército em Israel, me contou que Caymmi é o cantor brasileiro que mais faz sucesso por lá. De início fiquei surpresa, porque kibutz não tem nada que ver com acarajé. Meses depois a ficha caiu: Caymmi tem voz de chazan (condutor da reza, diz-se razân), canta como um chazan e sua melodia tem algo da liturgia judaica. Se você já tiver visto um serviço em sinagoga e prestar atenção em “O mar”, entenderá minha viagem.

Não sei nem que música de Dorival gosto mais. Em pequena homenagem, deixo um pedacinho de duas, dessas que nos dão a convicção de que nossas vidas neste país não podem nem devem descambar para o botocudo, para o ordinário, para o sem-graça:

Não fazes favor nenhum
Em gostar de alguém
Nem eu, nem eu, nem eu,
Quem inventou o amor
Não fui eu, não fui eu,
Não fui eu, não fui eu,
Nem ninguém.

O amor acontece na vida
Estavas desprevenida
E por acaso eu também
E como o acaso é importante, querida,
De nossas vidas a vida,
Fez um brinquedo também!

Não fazes favor nenhum
Em gostar de alguém
Nem eu, nem eu, nem eu,
Quem inventou o amor
Não fui eu, não fui eu,
Não fui eu, não fui eu,
Nem ninguém.

***

Depois de trabalhar toda a semana
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E já sei por onde começar

Um bom lugar para encontrar: Copacabana
Pra passear à beira-mar: Copacabana
Depois um bar à meia-luz: Copacabana
Eu esperei por essa noite uma semana

Um bom jantar depois dançar : Copacabana
Pra se amar um só lugar : Copacabana
A noite passa tão depressa,
Mas vou voltar se pra semana
Eu encontrar
Um novo amor
Copacabana

  • Foto: CD de Nana, um dos que vem fazendo com a obra do pai. Músicas; “Nem eu” (1953) e “Sábado em Copacabana” (c/ Carlos Guinle, 1955).

A-do-rei!!!!!

Tia Cris vem com suas descobertas photoshopísticas e, impiedosamente, me faz tergiversar de meu objetivo maior: enriquecer à custa do trabalho honesto.

Nos diversos visuais possíveis, escolhi um 1968, tipo “tudo ruiu na Maria Antonia, menos meu cabelo”.

Mas, como a vida segue e a rapadura é doce, acabei ficando com esse 1978, no momento em que Merdnalva rompe de vez com a tradição judaico-cristã ocidental do Henê Marú e resolve assumir de vez seu lado Motown.

PS.: Ricardo também resolveu receber uns caboclos em seu bungalow, e mandou ver além da conta. Estou passando mal aqui de tanto rir.

Os reclames no mocó

Eu acho muito bacana o sistema com que fiz parceria (não gosto muito dessa palavra, mas enfim…) a respeito dos reclames aqui no Flanela. Na maioria das vezes os quadradinhos são adequados, formalmente, ao tipo de assunto que abordo, mas há as exceções. Grosso modo, ele funciona tomaticamente, ou seja, “lê” os textos do blog, detecta palavras e conclui que tipo de adivertáizingue disponível se encaixa melhor em cada post.

Quando a coisa começou aqui, no primeiro dia havia links em profusão para discos, shows e até contato com Paul MacCartney, e fiquei dando tratos à bola durante uns dois segundos até concluir que um blog que fala sobre São Paulo obrigatoriamente inclui meu queridíssimo, porém tonto em assuntos matrimonais, Paaaaaul.

E agora me deu vontade de escrever algo a respeito de um assunto X, pois vejo que no post abaixo há uma chamadinha para você, você e você que tem aqueeeeele original, com aqueeeeeela super-ficção scientífica, e que está em fase de auto-revisão (aquela que nunca termina porque sempre pode ser melhor), e cujo sonho seria vê-lo editado. Para isso, há trocentas editoras criadas especialmente para lhe dar a volta.

O que acontece? Bem, primeiro você chega lá, feliz e orgulhoso, para mostrar seus originais. E o editor simpaticão senta e folheia, na sua frente, e já lhe dá o melhor dos pareceres: “mas você é um poeta!” “É um escritor nato”. “Muito bom o seu tema!”, e daí por diante.

Você sai de lá infladíssimo, e achando super-razoável o preço estratosférico que o cara lhe cobrou pela produção (produção editorial + gráfica). Afinal de cuentas, vale a pena, porque finalmente o mundo poderá conhecer seus escritos, com uma bela capa e com (o cúmulo da sophistikêichon!) papel pólen gramatura tal. Ou então papel pseudo-reciclado, que luxo!!!!

E é isso. Isso mesmo. E só. Se você se contenta em ver sua obra editada, aquela coisa print on demand, vai em frente. Mas se sua preferência é que o livro chegue aos canais de distribuição e não fique empilhado no seu llllliiiving, é melhor repensar seus planos.

Primeiro: um editor decente nunca vai fazer esse papelão de elogiar na lata os originais de um camarada a quem nunca viu mais gordo. Isso é firula pra enganar os pascácios. Procure uma editora boa e adequada ao assunto (grande ou pequena) e aguarde paciente e humildemente na fila dos milhões de outros originais de caras que tiveram a mesmíssima idéia que você.

Segundo: esqueça as ficções. Para cada um Paulo Coelho existem mil que não conseguiram chegar lá. Essas coisas não se medem por talento, e sim por outros mil fatores como oportunidade, sorte e… dedicação. Concursos literários? Podem ser uma saída, mas não garantem nada. Quantos escritores você conhece que começaram ganhando esses prêmios? E tem mais: se você escreve nos finais de semana em meio a três crianças pulando em volta, reveja seus valores, largue essas ambições e vá brincar um pouquinho com elas.

Terceiro: seus escritos devem ter uma consistência mercadológica muito, mas muito grande para que alguma editora se interesse por eles logo de cara - o que chega a ser uma aberração. Se você é um ilustre desconhecido, não fique imaginando que seu texto vai fazer o editor se prostrar ante a sua figura. Não é assim que acontece. A Bruna Surfistinha vende mais do que você, e ponto. Aceitar a realidade é o primeiro passo para circular nela.

Se mesmo assim você quiser escrever, tem de ter um histórico, uma intimidade real com aquele assunto, freqüentar, ter um networking sólido, conhecer um mínimo do mercado editorial e, principalmente, saber o que está fazendo e ter a plena certeza de que não está dando uma de boboca.

Editoras “de autores” existem aos montes em São Paulo, e são especialmente talhadas para trouxas. Portanto, decida-se: se é aquela bobagem de ter um filho, plantar uma árvore e tal, ou então por vaidade boba e desconectada de qualquer outro projeto genuíno, é melhor dar uma varridinha na casa, que está precisando.

  • Imagem: santa prensa de Gutemberg: naquele tempo imprimir um livro era um investimento e um trabalhão monstro, e o impressor não podia se dar ao luxo de se curvar à vontade de qualquer um.

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